“Os Suicidas” e o resgate de Antonio di Benedetto

Um texto escrito por Sylvia Colombo na “Folha” digital sobre Antonio di Benedetto me levou a uma conversa breve com um amigo pelo Facebook acerca do escritor argentino.

A jornalista escreveu que a obra de Benedetto está sendo reconhecida 30 anos depois de sua morte. Já meu interlocutor afirmava que um livro do escritor estaria facilmente entre seus cinco melhores, caso tivesse que eleger uma lista.

os-suicidasO livro em questão era “Os Suicidas” (Globo). Não sei se ele entraria nessa lista restrita, caso eu fizesse uma, mas certamente ele estaria entre meus cinco autores argentinos preferidos.

Li “Os Suicidas” há muito tempo, e emprestei a tanta gente o meu exemplar que ele se foi, sem saber com quem ficou. Tudo isso por conta do entusiasmo que senti após o final da leitura, ao me deparar com um texto seco, sem espaço para digressões – talvez seja possível uma comparação com Raymond Carver, talvez seja só um devaneio.

O fato é que o texto e a conversa me fizeram voltar a Benedetto. Numa edição digital, reli “Os Suicidas”. Livro enxuto, de tiro curto, para ler numa noite só, um exemplar do que a literatura pode fazer com tão pouco.

Um jornalista está prestes a completar 33 anos e recebe a incumbência de seu editor de contar a história de umas fotos que recebeu que mostram suicidas. Fotos misteriosas, sem créditos, sem identificação.

Ao mesmo tempo, relembra o suicídio do pai, que se matou aos 33 anos. As memórias impregnam sua pesquisa e a procura pelas pessoas das fotos. O tema suicídio domina seus dias, enquanto flerta com a jornalista que o acompanha e tenta lidar com seu casamento. E ele também acaba por pensar no próprio suicídio, forma de repetir o pai ou de ser vítima de uma tendência familiar.

No meio, surge uma personagem que dá voz a toda uma literatura sobre suicidas, disposta ao longo do texto. Apelidada de Arquivo, ela é uma espécie de enciclopédia analógica. Cita pesquisas, autores e trechos de livros para dar suporte ao jornalista – que não é batizado pelo escritor.

Fosse Benedetto um David Foster Wallace iria encher o livro de notas de rodapé. Mas Benedetto incorporou essas referências na narrativa com maestria e elegância.

A reflexão sobre a finitude é potente, seja pelo que pensa o jornalista, seja pelo que Arquivo mostra. É crua, direta, não diluída em exercícios de fluxo de consciência – é até possível percerber um certo humor, contido, na prosa de Benedetto.

O final é surpreendente, não por ser chocante, mas por ser uma conclusão que, após ser lida, reflete a força de um romance que reproduz na forma a psicologia dos personangens e dos suicidas. Inesperado, e por isso mesmo tão forte.

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“Amanhã eu poderia mudar de vida. Mas não posso mudar de ofício. Se eu não mudar de ofício não posso mudar de vida. Mudar de Júlia. Mudar de mulher não muda nada. Mudar de lembranças. O passado não se muda, com frequência ele nos governa. Há 33 anos me deram este corpo ao qual posteriormente foram sendo agregados hábitos, ideias, uma maneira de comer… Aos 17 anos eu me enganei. Venho de trás. Tenho ontem, não sei se terei amanhã. Não possuo mais do que uma certezaa, a de que, em algum momento, morrerei.”

Manson e os cuidados com as biografias

Por Márcio Tadeu Santos

Acabei de ler “Manson” (Darkside), de Jeff Guinn (1). Passei a obra à frente de outras tantas que estou lendo, algumas há meses, outras há anos. Nunca gostei de biografias e de autobiografias. Não contam mais de dez entre as lidas, como, por exemplo:

“Che Guevara: A Vida em Vermelho” (Companhia das Letras), do mexicano Jorge G. Castañeda – um texto ralo, embasado em pesquisa rasa e superficial que se dedica mais em desconstruir o mito Che e em atacar o regime comunista cubano e, ainda, em folclorizar (para o bem e para o mal) várias passagens da vida do médico argentino e revolucionário.

“Minha Vida e Minhas Experiências com a Verdade” (Palas Athena), de Mohandas Gandhi – autobiografia precoce do líder político e religioso indiano, que esconde sua homossexualidade e aborda, à sua moda, a questão das castas (2), que, atacadas publicamente pelo líder, eram, no entanto, aceitas em seus círculos familiar e de amizade.

“Sete Anos no Tibete” (L&PM), de Heinrich Harrer – uma autobiografia romanceada do alpinista austríaco, levada ao cinema (comercial), na qual Harrer foi interpretado por Brad Pitt. A ligeireza do texto não permite maiores análises, mas o empurra para a desconfiança. O filme é horroroso.

Antes de voltar à biografia de Manson, vale lembrar que o texto foi rapidamente citado no blog em O mundo enlouqueceu de uma loucura senil e perigosa e sem cura (?) e a reprodução de sua capa, assim como aqui, serviu para ilustrá-lo.

Dos desvios

Charles Mason era (e é) (3) um lunático e espertalhão, racista e sexista, que explorou dezenas de meninas menores de idade. Fosse hoje, Manson seria condenado a muitos anos de prisão bem antes dos assassinatos de Tate (4) e do casal LaBianca (5) (ao todo foram nove assassinatos).

O líder da Família Manson criou uma intrincada teoria própria do armagedom, chamada Helter Skelter, que antevia uma guerra interracial, na qual os negros destruiriam a raça branca. A Família Mason se esconderia num “poço sem fundo” para depois voltar e reconstruir a Terra, já que os negros não tinham inteligência suficiente para comandá-la.

“Helter Skelter” (6) é uma das faixas doÁlbum Branco” (7), dos Beatles, mas, segundo Manson, profética e apocalíptica. Manson costumava dizer à sua Família e a amigos que seria mais famoso que os Beatles e Jesus Cristo.

Em algum momento da história da banda, John Lennon afirmou que o grupo inglês era mais famoso que JC; o mesmo Lennon que rotulou a teoria apocalíptica de Manson como prosaica e bizarra e que achava “Helter Skelter” apenas uma música barulhenta para se dançar.

Manson queria ser um popstar do rock, mas cantava e tocava mal, não estudara música, suas letras eram sofríveis, mas mesmo assim uma delas foi parar (modificada) em um dos álbuns dos Beach Boys e outra tocada em um show dos Guns’n’Roses (8).

Há quem veja, por exemplo, Jeff Guinn, no desprezo do mundo pop pelo astro frustrado uma das razões para a explosão da violência de Manson.

Das lacunas

mansonA biografia de Manson, escrita por Jeff Guinn, é correntinha e linear, mas cheia de saltinhos, como se fora uma gazela saltitando pelo campo. Guinn, por exemplo, dá pouca importância a Tex, o cara que comandou os ataques às residências de Tate e dos LaBianca.

Tex exercia domínio muito forte sobre as meninas da Família Manson e, de uma forma ou de outra, apesar de obediente, rivalizava com o líder.

Numa biografia não é personagem que se possa desprezar assim.

Muitos personagens da Família Manson, ao longo da obra de Guinn, foram desaparecendo aos poucos; testemunhas das estripulias do líder e da Família e dos assassinatos ou não estiveram na obra ou foram minimizadas.

Algumas meninas, que “sumiram no mundo”, também foram desprezadas pelo autor.

Das feituras

Jeff Guinn demandou dois anos entre pesquisas, entrevistas e a escrita de “Manson”, lançada em 2014. É pouco tempo, mas Guinn (isso ele não diz) já devia ter anotações e arquivos anteriores.

Boa parte das fontes do autor são de segunda mão (ou seja, não são primárias), especialmente aquelas que se referem aos primeiros anos da vida de Manson até sua chegada a Los Angeles, em meados dos anos 60.

Agradecimento, prefácios, bibliografia, referências e notas de rodapé ocupam quase 120 páginas do livro.

Muitos documentos não foram possíveis de serem acessados e muitas fontes não quiserem dar depoimento ao autor e/ou gravar entrevistas.

Nem mesmo Manson falou com Guinn. As declarações de Manson na obra foram tiradas dos autos dos processos, do julgamento ou vieram através de testemunhos de alguns de seus amigos e da imprensa.

O imenso apêndice (9) da obra dá a impressão de que Manson seja uma biografia profunda e definitiva, como diz o marketing da editora norte-americana (veja referência à editora nas notas).

Ocorre que não é. Como citado acima, há lacunas, tanto factuais como de testemunhas e de depoimentos.

Guinn ainda é um cara novo, nasceu em 1951, e, portanto, tem tempo de sobra para debruçar-se novamente sobre a vida de Manson e da Família Manson e ofertar ao público leitor um livro mais aceitável e confiável.

Notas

(1) “Manson”, de Jeff Guinn, foi editado em 2014, nos Estado Unidos, pela DarkSide. Em português, há uma versão em e-book, no site Le Livros, com tradução de “O aprendiz verde”.

(2) Casta é um sistema tradicional, hereditário ou social de estratificação, mas sem base legal, que separa e divide a população indiana segundo critérios de raça, cultura, ocupação profissional, religião etc. Em sânscrito significa “cor” (numa referência à cor da pele das pessoas).

(3) Condenado à morte, Manson teve a pena alterada para prisão perpétua. Ele já tentou diversas vezes conseguir a liberdade condicional, mas os pedidos foram todos negados. Manson continua sendo visto pela Justiça norte-americana como uma ameaça à sociedade. Sua Família continua atuante e possui alguns sites na web.

(4) Sharon Marie Tate, atriz e modelo norte-americana, mulher do diretor de cinema polonês, Roman Polanski, na época de seu assassinato pela Família Manson.

(5) Pasqualino Antonio “Leno” LaBianca (norte-americano) e Rosemary LaBianca (mexicana) empresários,  assassinados pela Família Manson.

(6) Música também gravada por Mötley Crüe (1983), U2 (1988) e Oasis (2000).

(7) Décimo álbum dos Beatles, disco duplo lançado em 1968.

(8) Essas duas referências podem ser encontradas nos capítulos de “Manson”.

(9) (a) Ao longo do texto e do apêndice, Guinn faz paralelo, correto, com os acontecimentos que abalavam os EUA na época: movimento anti Guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis e movimento hippie.

(b) Corretamente, também, Guinn distancia Manson e Família dos hippies, coisa que o próprio Manson fazia, já que para este o movimento hippie era pacifista, e, portanto, não se enquadrava em sua teoria apocalíptica do “Helter Skelter”. Manson, no entanto, apesar da recusa, é identificado como tal, como hippie.

(c) Curiosamente, Manson, preso e condenado, transformou-se em ambientalista, coisa que já ensaiara antes de sua detenção e condenação.

* Márcio Tadeu Santos é jornalista e autor do blog Afalaire, onde este post foi publicado originalmente

Contradições ao fim da leitura de “Pureza”

Por Paulo Sales

purezaLançado recentemente no Brasil pela Companhia das Letras, “Pureza” não alcança o patamar dos grandes romances de Jonathan Franzen

Tanto “As Correções” como “Liberdade”, romances anteriores de Franzen, traçam um painel mordaz e impiedoso da vida americana através de núcleos bem definidos: a disfuncional família Lambert no primeiro, o triângulo amoroso formado por Walter, Patty e Richard no segundo. Em ambos, é possível se deliciar com uma das principais qualidades de Franzen: a capacidade de conceber personagens que são gente como a gente, com os mesmos defeitos e virtudes que encontramos em nós mesmos ou nas pessoas com quem convivemos.

Mais ambicioso, “Pureza” quer abarcar o mundo, e esse é o seu maior defeito. Em alguns momentos, lembra “Submundo”, o calhamaço de Don DeLillo que, após vencidas mais de 700 páginas e um sem fim de personagens, acaba chegando a lugar nenhum. Os personagens, os contextos históricos, os diferentes pontos do globo onde as histórias se passam (EUA, Bolívia, Alemanha), tudo é superlativo.

Basicamente, a narrativa se concentra em três personagens, com outros orbitando em volta deles: Pip, que cresceu com a mãe isolada do mundo e quer conhecer o pai, Andreas Wolff, figura enigmática nascida na Alemanha e que se tornou conhecido como um novo Julian Assange, e Tom, jornalista que cultivou por anos uma relação doentia com a herdeira de uma indústria milionária de alimentos e agora vive com outra jornalista, Leila.

Os temas incluem, entre tantos outros, os danos provocados pelo homem ao meio ambiente, ameaça nuclear, internet, jornalismo investigativo, segredos da polícia secreta da extinta Alemanha Oriental, divulgação de escândalos nos moldes do Wikileaks e relacionamentos problemáticos. O resultado é um romance com momentos implausíveis e uma teia de acontecimentos unidos de forma artificial e esquemática.

Bem, essa é a avaliação racional. A emocional, que não deixa todas essas questões de lado, é bem diferente. Passei os últimos dias sem largar “Pureza” até chegar noite dessas, mais de uma da manhã, à página 615. Foram mais de cem páginas lidas em cerca de quatro horas quase ininterruptas.

Franzen continua um escritor inigualável na criação de climas e diálogos que nos enchem de angústia e tensão, mesmo quando dizemos a nós mesmos: não, isso não faz sentido, está forçado.

Como aconteceu com “Liberdade” e “As Correções”, colocar “Pureza” de volta à estante me deixou com uma tremenda sensação de perda e vazio, que costuma acompanhar o abandono dos grandes livros. Uma contradição que não consigo compreender, apenas sentir.

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Sinapses

Para ler mais sobre Franzen no blog

Para ler mais de Paulo Sales no blog

8 livros que tratam do 11 de Setembro, que chega aos 15 anos

Foi numa terça-feira, em 2001, que as torres do World Trade Center desabaram. Aos 15 anos daquele 11 de setembro, mais do que clichê, é definitivo dizer que o mundo se transformou desde então.

Eu voava de São Paulo para Belo Horizonte no momento do impacto na primeira torre. Ao pousar na Pampulha, recebi a notícia meio atordoado. Minutos depois, a segunda torre foi atingida. Ao chegar à Redação onde trabalhava na época, as torres gêmeas desabaram.

Fiz uma pequena lista de livros que recontam os ataques terroristas, da sua origem às consequências das guerras justificadas como ao terror. Um deles merece um destaque maior, por ser, na minha opinião, o melhor deles, o livro que explica tudo o que aconteceu – “O Vulto das Torres”.

Não é um lista definitiva, ela se restringe a um recorte: os livros que li e que são bons. Há centenas de outros, entre não ficção e romances, que tratam do tema. Mas prefiro falar apenas do que li. A eles.

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102-minutos“102 Minutos” (Jorge Zahar), Jim Dwyer e Kevin Flynn
Os repórteres do “New York Times” relatam a manhã daquela terça-feira, minuto a minuto, com transcrições de gravações, entrevistas e depoimentos. Eles nos colocam dentro das torres, por meio dos diálogos e de plantas do conjunto de edifícios, trazendo detalhes fundamentais para entender a tragédia. É um livro difícil de ser lido por conta da dramaticidade e da força dos relatos. O objetivo é tratar do que aconteceu em Nova York naquele dia, por isso não há investigação sobre os terroristas, suas origens etc. Há, sim, um olhar sobre a comunicação entre os bombeiros, por exemplo, para identificar falhas na operação. É um título imprescindível e um documento histórico. Os 102 minutos do título equivalem ao intervalo de tempo entre o choque na primeira torre e o desabamento das duas.

vulto-das-torres“O Vulto das Torres” (Companhia das Letras), de Lawrence Wright
Uma investigação sobre a Al-Qaeda e os serviços de inteligência dos EUA, é disso que trata este belo livro de Lawrence Wright. O jornalista traça a história do fundamentalismo islâmico, da década de 50 até chegar ao grupo terrorista e os ataques de 11/9.

Baseado em uma pesquisa minuciosa e em dezenas de entrevistas, o livro é um retrato claro de como se formaram os principais grupos terroristas, como vários crimes foram pensados e executados e quais as razões alegadas para o ódio.

Wright, que escreve para a “New Yorker” e é autor do roteiro de “Nova York Sitiada”, perfila Osama bin Laden e mostra como ele chegou a liderar a facção terrorista. Vai fundo nas relações entre os países do Oriente Médio, a dependência do petróleo e como a invasão ocidental, seja da Inglaterra, da ex-União Soviética ou dos EUA, no Iraque, Afeganistão e em outros países da região acabaram por moldar um caráter maniqueísta.

Simultaneamente, Wright destrincha a burocracia dos serviços de inteligência dos EUA, que acabou por prejudicar o trânsito de informações das investigações sobre os terroristas. Por exemplo, um ano antes dos ataques às torres gêmeas, a CIA já sabia que dois dos terroristas estavam em território americano, mas não passou a informação ao FBI, único órgão que poderia investigar o fato.

Os dois estavam nos aviões que se chocaram contra o World Trade Center.

O livro é uma peça jornalística de primeira. Une história, bom texto, jornalismo de qualidade – que implica investigação, imparcialidade, apuração ampla – e um tema que intriga.

cadeia de comando“Cadeia de Comando” (Ediouro), de Seymour M. Hersh
Fora de catálogo, o livro traz ampliações de reportagens que o jornalista escreveu para a “The New Yorker” sobre as guerras que os Estados Unidos assumiram no governo George W. Bush. Hersh foi o primeiro jornalista a escrever sobre as torturas de Abu Ghraib. É também um dos maiores profissionais dos Estados Unidos, com trabalhos premiados sobre a Guerra do Vietnã. Hersh desvenda segredos políticos envolvendo o setor militar do governo, remonta o caso das torturas e revela como se Bush e companhia prepararam uma armadilha no Iraque. O livro é uma aula de jornalismo e um retrato vivo dos Estados Unidos.

a-sombra-das-torres-ausentes“À Sombra das Torres Ausentes” (Companhia das Letras), de Art Spielgman
Aqui, o autor de “Maus” faz uma viagem ao dia dos ataques, mas por meio do cotidiano de sua família. Ele mostra como foi o dia da família em 10 de setembro, quando matriculou a filha numa escola na região do WTC. Quando viu os ataques pela TV, desesperado, correu ao local para resgatar a filha, o que aconteceu minutos antes do desabamento das torres. Respira-se angústia em cada página desta pequena obra-prima da narrativa gráfica. Ele faz experimentos com a linguagem, com tiras gigantes, reproduzindo cenas daquele dia ou ironizando democratas e republicanos, a cultura de ódio e a paranoia norte-americana. Spielgman, que em “Maus” explorou a sátira para recontar o nazismo, aqui avança pela memória pessoal, dando tons íntimos ao mesmo tempo em que tenta compreender o que aconteceu ao redor naquele dia. Obra-prima.

3199370“Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” (Rocco), de Jonathan Safra Foer
O livro de Foer é uma pequena joia. Um garoto de 9 anos sofre com a morte do pai, que estava no WTC no dia dos ataques por conta de uma reunião de trabalho. Um acaso o levou até ao restaurante do complexo e o colocou entre as centenas de vítimas. O livro vai contar como o garoto, Oskar, se rende à morte do pai. Ele procura o significado de uma palavra, essa que seria um último contato de seu pai antes de morrer nos atentados do World Trade Center, gravada na secretária eletrônica. Ele percorre sua Nova York na tentativa de decifrar o enigma, que pode ter sido uma mensagem de amor, de despedida ou simplesmente uma palavra. Esse último momento antes da separação, de um acontecimento terminal, permeia toda a estrutura do livro. Foer utiliza fotos e diagramação ousada, como páginas com apenas uma frase ou em branco, e tenta dar um segundo ritmo além da leitura para o livro. Esqueça o filme em que foi inspirado, “Tão Forte e Tão Perto”, dirigido por Stephen Daldry. O livro é infinitamente melhor.

o-fundamentalista-relutante“O Fundamentalista Relutante” (Alfaguara), de Mohsin Hamid
O livro é narrado pelo paquistanês Changez, que conversa com um norte-americano (o leitor) num café em Lahore. Ele conta sua história ao homem que parece estar em alguma missão especial – na verdade, o livro é praticamente um monólogo, num truque muito bem armado por Hamid, como se ele pedisse que a cada fala de Changez o leitor devolvesse uma.

Changez morava nos Estados Unidos, tinha boa formação universitária e estava bem empregado, com vida confortável e com relação promissora. Até que chegam os ataques às Torres Gêmeas e aquela utópica vida nos EUA também se desmorona.

Changez vai contando toda sua história ao homem com quem compartilha a mesa, em meio a refeições típicas e bules de chá. Hamid faz mistério do papel do ouvinte/leitor, enquanto Changez tenta descobrir o que ele faz no Paquistão. À medida que a história do passado de Changez avança, aumenta a tensão do romance. O final é arrebatador. Escrevi sobre os livros de Hamid neste texto.

procedimento-operacional-padrao“Procedimento Operacional Padrão” (Companhia das Letras), de Philip Gourevitch e Errol Morris
Este é o livro que conta a história das fotos de abusos cometidos por militares dos Estados Unidos contra prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib, reportados por Seymour Hersh. Gourevitch é jornalista, escreve para a “The New Yorker” e “The Paris Review”. Ele se juntou ao cineasta Morris para escrever o livro, que serviu de base ao documentário de mesmo nome. Aqui, temos a história de como foram feitas as imagens, das relações entre militares e prisioneiros, as condições que os soldados enfrentavam na guerra e como o caso foi tratado pelos Estados Unidos. Jornalismo de primeira.

a-queda-de-bagda“A Queda de Bagdá” (Objetiva), de Jon Lee Anderson
Este livro inaugurou a já encerrada coleção Jornalismo de Guerra, ótima série de livros sobre conflitos escritos por jornalistas de primeira linha. O biógrafo de Che Guevara reporta a obsessão norte-americana por Saddam Hussein, desde o a primeira Guerra do Iraque até a segunda, a que culminou com a queda do ditador. Conflito motivado por um tema amplo e genérico, como a guerra ao terror, surgido por conta dos ataques de 11 de setembro. Anderson está em Bagdá e narra sua história com os pés no chão, sem intermediários. É o relato vivo de quem estava no local, enfrentou as dificuldades e os terrores de uma guerra no solo. Sem deixar de contar as histórias dos anônimos, pessoas vítimas das atrocidades próprias de uma batalha, o que transforma o livro num retrato vigoroso de uma época.

Ivone Benedetti sobre o impeachment: “O que ganhamos?”, pergunta a autora de “Cabo de Guerra”

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Tradutora de filosofia, de Llosa, Primo Levi, Eco e Balzac, entre outros autores, Ivone Benedetti volta à ficção com “Cabo de Guerra” (Boitempo), estupendo (me desculpem pelo adjetivo logo no primeiro parágrafo) livro sobre o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

A autora foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009, com “Immaculada” (WMF Martins Fontes). Sua prosa tem uma complexidade envolvente, daquelas que leva o leitor a se embrenhar nas suas tramas e passeios pelo tempo com intensidade.

Neste livro, Benedetti mergulha na ditadura militar. Com orelha assinada por Bernardo Kucinski, “Cabo de Guerra” se passa na pior fase da regime, final dos anos 60, início dos 70. Ela cartografa a São Paulo daquela época para contar a história de um rapaz que se transforma em “cachorro”, designação para quem mudava de lado – neste caso, um ex-militante de esquerda que vai parar nos porões da ditadura troca de posição, ação que implica inflitração e espionagem.

Esse anônimo tem sua história contada desde sua saída de Nazaré (BA) e a chegada a Santos, antes de ir a São Paulo. Ele se envolve com um coronel no escritório onde trabalha e depois irá à luta política, passagens que formam a primeira parte do livro e ajudam a delinear a personalidade do protagonista, um jovem que vê o acaso ser parte definidora da sua vida – ainda que o romance não se apoie nas circunstâncias, como ressalta a escritora em entrevista ao blog.

A transformação em um delator passa pelas casas do terror instaladas em São Paulo, com o horror da tortura impregnado nas retinas e no consciente de quem ouve gritos, lamentos e choros.

O protagonista então vai perambular de favores em favores, reencontrar personagens decisivos da sua história, viver amores e desilusões, enquanto a culpa e a memória dos seus atos rodeiam sua consciência. Benedetti explora a reflexão sobre o medo e o período de horror vivido no país, não somente na superfície, no cotidiano das pessoas que tocavam a vida, mas, principalmente, em dois níveis subterrâneos: o da consciência e  de quem viveu a repressão.

Alternando passado e presente, com um domínio técnico da narrativa, Benedetti conduz a história com precisão. São comoventes as memórias com o avô. Seus personagens são introduzidos com calma, sem atropelos. A narração em primeira pessoa reafirma certo horror ao vislumbrarmos a consciência de quem delatou companheiros e levou alguns à morte.

A São Paulo que ela descreve, mesmo sem detalhismo, é tão bem mapeada que é possível sentir o cheiro da cidade dos anos 70. “Cabo de Guerra” é um livro que refunda a bibliografia ficcional sobre a ditadura militar, segundo escreve Bernardo Kucinski na orelha da obra, “diminuta” nas estantes brasileiras.

Ivone Benedetti conversou com o blog para falar do seu livro, da construção do personagem, da literatura sobre a ditadura e o momento político brasileiro – as respostas foram dadas um dia após o impeachment de Dilma Rousseff ser aprovado no Senado.

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A escritora e tradutora Ivone Benedetti

O que a levou a escrever “Cabo de Guerra”?
Não sei por que escrevi esse romance, desse jeito, e não escrevi algum outro de outro modo. Eu poderia dar várias razões, mas, como eu mesma digo no “Cabo de Guerra”, “Sempre que muitas, as razões são nenhuma”. O primeiro lampejo de qualquer criação é sempre um mistério. O resto é suor.

Você não dá nome ao seu protagonista. Por que optou pelo anonimato?
Em geral, os nomes de meus personagens têm algum sentido. Não de todos, mas dos principais pelo menos. Em nenhum momento esse personagem me chegou com nome, e a escolha da primeira pessoa deve estar inconscientemente ligada a essa falta de desejo por um nome. A introspecção do sujeito narrador ajudou a alijar o nome de vez. Porque nunca, ou raramente, o pensamento sobre nós mesmos ou sobre nossos atos vem com nosso nome. O nome, mesmo o que está nos registros de nascimento, é sempre uma arbitrariedade.

Quando o protagonista reencontra Tomás [agente da repressão], surge uma radicalização do discurso esquerda x direita. Ao mesmo tempo, seu personagem não demonstra se prender a nenhum discurso. A culpa é a condutora do seu personagem?
Na economia do romance, o reencontro vem acompanhado de uma tentativa, por parte de Tomás, de resgatar o que antes havia de energia no antigo colega de ofício. Este agora está afundado numa mágoa amorosa, perdeu o pouco entusiasmo que tinha pelas questões políticas. Por isso o discurso de Tomás se radicaliza. Já a culpa me parece estar disseminada em todos os personagens em diversos momentos. No protagonista, é uma mola não identificada ou não aceita quando identificada. Nem quando ela lhe é atirada ao rosto, o que acontece em diversos momentos. Culpa é sempre um assunto muito complicado.

Como gerar simpatia a alguém que se tornou um “cachorro”? É possível compreender as razões dessa atitude?
Antes de responder a essa pergunta, preciso pensar um pouco no sentido que você dá ao verbo “compreender”. Se compreender significasse entender, perceber o sentido pela razão, eu responderia que sempre é possível compreender ou tentar compreender qualquer coisa, e que o próprio ato de escrever um romance pode ser uma tentativa de compreender algum nó ainda não decifrado em alguma esfera da nossa vivência. No entanto, se compreender significar “Proceder de modo compreensivo ou tolerante em relação a (algo ou alguém, situação etc) por entender-lhe as razões”, conforme definição do Aulete (que, aliás, não está no Houaiss, grande omissão), a coisa muda de figura. Porque “entender as razões” é perceber mecanismos, aclarar condutas, enriquecer o intelecto com a inteligência de uma realidade. E isso não implica, automaticamente, tolerância (ao contrário do que pode levar a supor a própria definição do Aulete) para com os resultados de dada opção de conduta. Como você usou o termo “simpatia”, imagino que o sentido do verbo compreender, na sua pergunta, seja o segundo. E aí eu digo que, pelo menos quando escrevo, sou guiada pelo primeiro sentido do verbo compreender, mesmo não acreditando que seja possível entender tudo. Cada personagem, de qualquer autor, é fruto de um conjunto de “possíveis” (aquilo cuja existência é provável). Do cruzamento, do choque, da soma, da repulsão dos diversos possíveis nem sempre se sabe o que sairá. Por isso o resultado poderá ser uma grande surpresa, inclusive para o próprio autor. É assim na vida e na ficção. Movidas pelas mesmas molas, diferentes pessoas podem fazer opções opostas. O que determina isso? Difícil saber, mas perceber que isso ocorre já é um grande ganho. E, se for aprofundada a noção dessas possibilidades, simpatia e antipatia perderão razão de ser. Porque não se trata de uma literatura construída com base na dicotomia herói/vilão, como se cada pessoa conseguisse reunir em si só características boas ou só ruins.

O acaso também tem papel preponderante no romance. Da chegada de Nazaré até os encontros no final do livro, seu protagonista tem sua vida atingida pela sorte. Você concorda? Esse acaso terminou por moldar a personalidade dele?
Dito assim, parece que eu escrevi um daqueles romances cheios de coincidências mirabolantes. Há acasos, sim: o encontro com Tomás, após a tentativa de furto da japona; o encontro de Maria do Carmo numa reunião clandestina; o último encontro, no bar. A própria posição em que o pai dele morre, não sei se lembra, eu atribuo ao acaso, com alguma ironia, claro. Não diria que o acaso moldou a personalidade dele. O acaso é um recurso que está ligado mais à estrutura da narrativa do que à construção da personagem.

O livro de certa forma deixa transparecer uma decepção com direita e esquerda: “Confesso que em muitos pontos os dois lados ainda me desconcertavam, eu os via como as únicas duas opções de pensar o mundo. Depois da volta, estou embotado, desinteressado, não há raciocínio que me cative”, diz o protagonista. Esta é a sua sensação do atual momento? E o quanto essa polarização prejudica ou não o país?
Esse trecho que você citou é uma síntese dos sentimentos dele depois de perder a mulher amada. É um momento do paroxismo da sua eterna incapacidade de decidir, e isso se dá por uma questão de apatia emocional. Acho que é uma coisa própria dessa personagem e desse momento. No entanto, se a gente for, digamos, ampliar a afirmação “únicas duas opções de pensar o mundo” para um contexto menos intimista e mais atual, eu diria que, de fato, esquerda e direita não são as únicas duas opções de pensar o mundo, e, quando isso ocorre, há, sim, polarização. Mas esquerda e direita, por outro lado, são as duas pontas de um espectro de pensar a política, e isso sempre foi assim em todo o Ocidente, pelo menos desde a Revolução Francesa. Quando toda a gama de opções em política é simplificada, portanto empobrecida, e desse modo passa a nortear toda uma visão de mundo, enquadrando a tudo e a todos, ocorre polarização grosseira, que é a vemos hoje em muitas pessoas. E isso é sempre causa e consequência de empobrecimento intelectual, de enrijecimento emocional.

Bernardo Kucinski e Ivone Benedetti durante debate em São Paulo

Bernardo Kucinski e Ivone Benedetti durante debate em São Paulo

Bernardo Kucinski, na orelha, se refere a uma diminuta estante de ficção sobre a ditadura. Você concorda com ele?
Não tenho dados concretos para apoiar uma afirmação rigorosa, mas acho que nas últimas décadas a “moda” em literatura deixou de prestigiar a reflexão política. E isso coincide com o período da redemocratização. Prefiro não dar palpites sobre as razões disso.

Quais livros sobre esse período, ficção e não ficção, você indica?
Os dois do Kucinski, naturalmente, mas advertindo que é preciso ler “K.” antes de “Os Visitantes”. Também citaria “Não Falei”, da Beatriz Bracher, “Em Câmara Lenta”, do Renato Tapajós, “Zero” e “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, “Não És Tu, Brasil”, de Marcelo Rubens Paiva, e “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles. Mas há outros, com certeza.

colofao-boitempoA editora se manifestou contra o impeachment de Dilma Roussef no seu livro, ao imprimir uma charge do Laerte no colofão e colocar um texto com críticas aos poderes e às mídias. O que achou da postura da editora? E qual sua posição?
Fui consultada e dei minha anuência. A Boitempo sempre faz alusão a alguma data ou a algum fato nos seus colofões. Quanto à minha posição, direi que esse impeachment me deixou profundamente desgostosa. Não que achasse o governo de Dilma excelente, não que acredite na pureza de seu partido ou no acerto de suas políticas, mas é que com esse impedimento o Brasil trocou o ruim pelo péssimo. Ouço frequentemente comparações entre esse impeachment e o de Collor, dizendo-se que naquele momento o Brasil saiu unido e agora dividido. É verdade. Na época, havia o consenso de que o presidente tinha cometido um crime e merecia ser cassado. Hoje não há esse consenso, as pedaladas alegadas para o impeachment, todos sabem, foram e são cometidas por todos os governantes de todas as esferas. Hoje está claro para muita gente que, na pura luta pelo poder, uma das partes foi alijada por vontade de um parlamento comprometido. Por que isso ocorreu? Porque em nosso sistema presidencialista, que, para ser viável, obriga a alianças e conluios, um governo só não entra em crise quando tem controle do parlamento. E esse controle sempre é obtido com negociatas. Quando o controle existe, não há acusação de crime que prospere. Dilma, assim como Collor (e, em outras circunstâncias, Jânio e Getúlio), perdeu o controle do parlamento e por isso caiu. Com ou sem crime, cai. Corrupção? Na boca dos corruptos que se apoderaram do poder? Puro cinismo. Programa de governo? As medidas tomadas até agora apontam para a agenda mais conservadora e antipopular que já se viu desde a ditadura. O que ganhamos?

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“Mortos no meu caminho foram de dois tipos: os que derrubei enquanto passava e os que caíram à minha revelia. Os primeiros são os que não me largam, os que grudam em mim como crosta de ferida. Os outros se dissipiram, me deixando no vapor da solidão que tudo esconde, mais que muralha. A estes pertencem os que amei. E não amei tantos. Se bem que, acostumado a carregar aqueles que por minha ação morreram, acabo metendo no mesmo saco os que não são da minha lavra, como se na morte daquele que eu queria vivo residisse a culpa mínima de não ser eu o morto, como se só pela força do contraste com os que ficam é que os que se vão passam a se chamar de mortos.
Meu pai.”

“O destripado é o despejado de si mesmo. E o despejo é a suprema humilhação, é a invasão da toca, seguida pelo enxotamento. Tem com a tortura certo parentesco, pois o torturador quer enxotar o indivíduo de seu corpo, quer que ele vomite a alma, se renda, se esvazie. O corpo torturado perde o estofo. Às vezes o torturador só se sente saciado quando tem as vísceras reais nas mãos.”

“A Morte de Ivan Ilitch”: Tolstói traduz a decadência

a-morte-de-ivan-ilitchA leitura dos “Contos Completos” de Tolstói me fez buscar “A Morte de Ivan Ilitch”, que não entrou na coletânea organzida por Rubens Figueiredo para a Cosac Naify – a justificativa é que o história se coloca mais como uma novela.

“A Morte de Ivan Ilitch” é uma obra-prima da narrativa curta, escrita na fase final da vida do escritor russo. Li já faz um bom tempo, mas reli trechos recentemente, por conta do impulso que os contos do russo me deram.

Tenho a edição da Editora 34, casa que faz um excelente trabalho em traduzir a literatura russa para o português. Neste, Boris Schnaiderman revê sua tradução feita para uma compilação da Ediouro, lançada em 2000.

É impressionante como Tolstói descreve a decadência física de Ilitch, um juiz que casou por conveniência e alcançou uma vida sossegada, ao mesmo tempo em que descobre traições e jogos de interesse no trabalho e uma família vazia e desinteressante.

Descobre-se doente e tem que enfrentar a dor física e a dor moral. Não encontra suporte entre mulher e filhos, vê-se à mercê de inúmeros médicos e só vai achar algum alívio num criado, Guerássim, que se torna uma espécie de porto seguro. Enquanto todos mentem, o criado lhe diz a verdade, ainda que ela seja cruel.

Sentimos a dor de Ilitch, descrita sem tantos detalhes, mas com tal precisão que basta o instantâneo da cena para nos afligirmos. Sufoca em vários momentos. Tolstói é brutal, pois incomoda muito mais a luta contra o espírito do que contra a doença.

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“‘Eu não existirei mais, o que existirá então? Não existirá nada. Onde estarei então, quando não existir mais? Será realmente a morte? Não, não quero.’ Sufocava de raiva. Teve uma sensação penosa, torturante, intolerável. Não podia ser verdade que todos estivessem condenados para sempre a este medo terrível. Levantou-se. ‘E o que será se realmente toda a minha vida, a minha vida consciente, tiver sido ‘outra coisa’?”

Geneton Moraes Neto, 1956-2016

 

“A condição de repórter em Geneton é imbatível, é nele uma segunda natureza e, como profissional, a própria razão de ser. (…) Ele tem duas qualidades que o lendário Herbert Mathews apontava como essenciais num repórter: a humildade e a paciência. No trato com a notícia, que respeita reverente e trata com unção, Geneton é impecável.”

Joel Silveira assim escreve nas orelhas de “Dossiê Drummond”, livro que traz uma entrevista de Geneton Moraes Neto com o poeta Carlos Drummond de Andrade feita em 1987. Já escrevi sobre a obra neste post, livro que Paulo Francis classificou como “uma grande reportagem biográfica”.

Geneton morreu na segunda-feira (22/8), aos 60 anos. Jornalista com raro bom humor, em uma categoria pouca afeita a esse tipo de inteligência nestes dias tão polarizados e burros, ele dominava a arte da entrevista e fazia com que seus personagens se sentissem tão à vontade e confiantes que transformava uma ação jornalística num bate-papo casual em pouco tempo.

Sem deixar de lado a busca pela informação, as entrevistas caminhavam por uma rota que sempre deixava claro qual era seu objetivo, o mais caro ao jornalista: a notícia, o fato novo, um viés pouco conhecido do seu personagem. Como na série feita com os generais da ditadura. Ou o documentário do sertão brasileiro.

Como em Drummond, que se confessou piromaníaco, descrito nesse belíssimo dossiê. Livro que classifiquei como tão essencial quanto a obra do poeta – claro, guardadas as proporções devidas, pois coisas diferentes, ainda que uma possa ajudar a entender a outra.

Certamente, Geneton fará falta.

1807geneton