A força atual de “A Vida Pela Frente”, 45 anos depois de lançado

Momo tem 10 anos, vive num prostíbulo, lugar que funciona como uma espécie de orfanato para filhos de prostitutas. Está na periferia de Paris, pós 2ª Guerra Mundial, convergência de judeus, árabes e africanos, ponto de ebulição, em que religião e memórias estão se unindo para definir uma identidade cultural.

Madame Rosa dirige o prostíbulo, sobrevivente de um campo de concentração, judia, ex-prostituta, já idosa e muito doente. Segue a religião e seus ritos, mas criou Momo como muçulmano. É maternal, ao mesmo tempo em que exige do garoto uma disciplina rara.

Momo conduz a história, e é uma narrativa vigorosa, essa de enxergar esse recorte parisiense por meio de um garoto de 10 anos de tanta multiplicidade. O local, tradicionalmente invisível, ganha força com as conversas do menino com os personagens que ajudam a compor sua força emocional, como o dr. Katz, que cuida de Madame Rosa, ela que tem paranoia com uma doença, mas não sabe que padece de outra.

O mundo vai se descortinando sem piedade à frente de Momo, que até tenta encontrar um elo com sua mãe, construir uma história que foi abandonada diante das circunstâncias.

A Vida Pela Frente (Todavia), romance de Émile Ajar, pseudônimo para Romain Gary, autor que se desdobrou em outros nomes e carreiras, é uma marca para a literatura francesa. Consagrou o escritor como sendo o único a receber o tradicional Goncourt duas vezes.

Momo tem frases que carregam uma força de aforismo, e a vida como é vista por ele, um garoto de 10 anos que vive em um ambiente adulto, masculino, comandado por mulheres, religioso, é tocante. Há momentos em que o garoto vive e fala como alguém de sua idade, enquanto outros trechos revelam um rapaz maduro, já marcado pela vida e capaz de tomar decisões difíceis, de contemporizar e lidar com outros adultos.

Romance necessário para tempo como os nossos, este “A Vida Pela Frente”, mesmo 45 anos depois de lançado, chega ao leitor com uma atualidade assustadora.

“Foi então que vi um pouco de luz. Vinha do porão e isso me tranquilizou um pouco. Os monstros quase nunca acendem a luz, o escuro é que faz mais bem a eles.”

“Nunca entrei numa igreja porque é contra a verdadeira religião, e a última coisa que eu queria era me misturar com isso. Mas sei que os cristãos pagaram os olhos da cara para ter um Cristo e que entre nós é proibido representar a figura humana para não ofender a Deus, o que se entende muito bem, pois não há do que se gabar.”

“Não faço tanta questão de ser feliz, ainda prefiro a vida. A felicidade é um belo de um lixo muito cruel e precisava de alguém que a ensinasse a viver. Não estamos do mesmo lado, ela e eu, não tenho o menor interesse por ela. Também nunca fiz política, porque isso sempre beneficia alguém, mas a felicidade, deveria haver leis para impedi-la de ser canalha.”

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