11 HQs da quarentena

Minhas leituras de HQs cresceram muito nos últimos dois anos. Descobri autores interessantes, obras magníficas cujas narrativas demonstram força, técnica e profundidade. Nesta quarentena, que cumpro com rigor, exceção feita a breves passeios com o cachorro, percorri 11 obras chamadas de romances gráficos.

Eis aqui um breve comentário de cada uma delas.

Aqui

Começo pelo título mais impactante, o melhor volume da série e desde então uma das minhas HQs preferidas. Richard McGuire conta a história de uma família por uma perspectiva diferente — e igual. O ponto de vista que se repete em todas as páginas é o olhar para uma sala. Ao longo dos séculos, antes e depois da construção da moradia, o autor aponta a passagem do tempo sempre pelo mesmo ângulo, desde tempos anteriores à civilização até os atuais. Por meio de recortes inseridos nas páginas (como na foto do alto deste post), observamos não só a passagem do tempo, mas como costumes e tradições se modificaram. E McGuire usa muito bem o recurso de inserir recortes na sua visão — em algumas cenas, temos dois ou três instantâneos de anos diferentes, que se unem como se fossem uma história única, um momento único.

Aqui (Quadrinhos na Cia) é uma obra-prima, que merece releituras e um lugar especial na estante.

A Gigantesca Barba do Mal

Dave é um rapaz rotineiro, que vive numa cidade limpa e organizada. Seus dias são iguais, assim como as pessoas que vivem ao seu redor. Até que sua barba começa a crescer desenfreadamente. Dave perde o controle da sua vida enquanto tenta controlar os pelos que não param de aumentar em seu rosto. Sua casa vira uma atração turística e, em certo momento, uma ameaça à comunidade. Neste ponto, A Gigantesca Barba do Mal (Nemo) já se tornou uma fábula que discute privacidade e preconceitos, num tom cativante empregado por Stephen Collins.

A Diferença Invisível

Julie Dachez escreve e Mademoseille Caroline desenha esta A Diferença Invisível (Nemo), HQ que conta a história de Marguerite, uma mulher de 27 anos que descobre nessa idade ser portadora de um tipo de autismo — Síndrome de Asperger. O livro relata o cotidiano de Marguerite, como ela se relaciona com colegas de trabalho, com suas tarefas diárias, com o namorado e como tudo isso a aflige. De forma delicada e ao mesmo tempo reveladora, a HQ autobiográfica trata de tolerância e compreensão, sem buscar o caminho da autopiedade. Necessária.

América

Já fui um leitor mais atento a Robert Crumb. Em determinado momento, tive todas suas obras lançadas no Brasil — hoje, apenas “Blues” resistiu à passagem do tempo. Neste America (Conrad), o artista faz uma crônica sobre os Estados Unidos e sua força imperial, sempre no tom crítico e debochado característico de sua obra. O álbum é de 1995, época de Clinton, após o conservadorismo de Reagan e Bush pai, o que explica a coletânea. Marcou um período, mas hoje soa cansativo.

Apanhadores de Sapos

Jeff Lemire é um dos autores preferidos do blog. Neste Apanhadores de Sapos (Mino), os personagens e o local onde a história se passa remetem a “Condado de Essex”, até agora sua obra máxima. Um homem acorda num quarto sem saber como foi parar lá. Descobre estar em um hotel e encontra um garoto, única pessoa viva no local. Então, ao chegar a uma porta, ouve o apelo de não abri-la. É a deixa para uma visita ao passado do homem e a um mergulho nos medos que Lemire tão bem retrata.

Moby Dick

Chabouté é outro autor da lista dos preferidos. O francês imprime linhas cinematográficas aos seus quadros, com texto enxuto, a fim de que seus traços contem a história. Nesta adaptação da obra de Melville, o autor avança um pouco mais sobre os diálogos. Moby Dick (Pipoca & Nanquim) honra a obra do escritor ao mesmo tempo que subverte alguns pontos clássicos. Quem começa a ler percebe na hora que Chabouté foi reverente, mas não sem se permitir uma certa ousadia.

O Ninguém

Mais uma de Lemire, desta vez, uma homenagem a “O Homem Invisível”, de H.G. Wells. Em O Ninguém (Pipoca & Nanquim), o canadense conta a história de um homem que chega a um vilarejo todo envolvido em bandagens. Vickie, uma adolescente que tenta sobreviver ao modorrento dia a dia, fica curiosa pela figura, o que desestabiliza a comunidade. Paranoia, identidade, medo, privacidade, tudo aparece em pequenas doses nesta HQ curta e potente.

Deslocamento

Lucy é convocada pela família para acompanhar os avós em uma viagem de navio pelo Caribe. A família nem dá muita bola para a empreitada, que fica toda sob responsabilidade da jovem. Os avós, já debilitados pela idade, enfrentam as limitações físicas e certos apagões. Assim, a viagem se transforma numa atividade estressante, que leva Lucy a tomar decisões e enfrentar as adversidades com maturidade. Descobre, nesse cruzeiro, mais sobre os avós e sua família do que soubera até então. Deslocamento — Um Diário de Viagem (Nemo) é retrato do rito de passagem, bem descrito por Lucy Knisley.

Lavagem

O brasileiro Shiko produziu um álbum baseado no seu curta-metragem de 2011. Ele conta a história de um casal que vive isolado em um mangue, dividido entre desejos e o temor a Deus. No meio disso, uma criação de porcos que domina as atenções do marido, até a chegada de um homem com a Bíblia na mão. Visualmente impactante, a obra peca por um roteiro que precisaria de mais apoio narrativo para ganhar força. Lavagem (Nimo) vale pelas sequências e suas opções gráficas.

Eu Matei Adolf Hitler

Os personagens desta HQ do norueguês Jason lembram as caracterizações que Art Spielgman empregou em “Maus”. Parecem cachorros bípedes, que contam a história de um assassino de aluguel chamado a voltar no tempo e matar Adolf Hitler. A máquina consegue fazer apenas uma viagem, e o plano não sai exatamente como planejado. Neste jogo de especulações, Eu Matei Adolf Hitler (Mino) brinca com realidades alternativas e lança perguntas tratadas com humor.

Bone

Quando a série foi lançada nos anos 90, não me entusiasmei pela história do personagem fofo que virou cult automaticamente. Agora, a Todavia editou a série completa de Bone em três volumes. Como comparação, sem nenhuma analogia, se “Watchmen”, de Alan Moore, envelheceu mal, esta série de Jeff Smith chega a 2020 inteira. Talvez por inserir humor na trama que começa com uma caça ao tesouro e passa por terras desconhecidas e personagens insólitos. Há política, economia e relações afetivas nas histórias de Fone, Phoney e Smiley. Cada um desses primos tem características diferentes e complementares, que acabam formando um único personagem, com zonas cinzentas e que conduzem tramas paralelas. A série retrata bem a passagem de tempo para o mundo adulto, em que os atos geram consequências que precisam ser administradas por quem as criou. Uma pérola do gênero.

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