Da biblioteca de casa: a veia aberta de Rodolfo Walsh

Rodolfo Walsh tratou a realidade com matizes ficcionais. E fez grande obra. O escritor argentino, que tentou enfrentar a ditadura e morreu brutalmente assassinado por seu objeto de estudo, transformou seu “Operação Massacre” em título ícone do jornalismo literário, além de ter escrito uma das melhores reportagens já produzidas por um jornalista.

Se em “Operação Massacre” ele usa técnicas de ficção para fazer uma reportagem, em Essa Mulher e Outros Contos (Editora 34) Walsh inverte o processo. Parte da realidade para fazer ficção, no caso, uma coleção de contos que por muitos é considerada um dos pontos altos da literatura argentina.

O conto que abre o volume e intitula o livro, “Essa Mulher”, é obra-prima da concisão, o melhor da seleção. Fala de Evita Perón, mas em nenhum momento Walsh cita o nome dela. Cria uma nuvem de desconfiança, trata o assunto com ares enigmáticos e conta a história toda sem precisar recorrer a notas de rodapé ou facilitar para o leitor. Esse conto vale o livro inteiro.

Walsh revisita sua infância na trilogia dos irlandeses e a política argentina. Sem explicitar, sem escancarar. Walsh atinge a veia sem provocar danos.

O livro traz no final uma entrevista do autor com Ricardo Piglia, com comentários dos seus temas e da construção da narrativa.

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