Notas de Leitura 73

Os Engenheiros do Caos

Giuliano da Empoli é jornalista, escritor, cientista político e fundador do think tank Volta, iniciativa com sede em Milão que pretende estimular o debate de ideias e as propostas de governança e políticas públicas. Este Os Engenheiros do Caos (Vestígio) recolhe toda a sua experiência, inclusive na política (foi conselheiro do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi) para relatar como a tecnologia está sendo usada para disseminar ódio e mentiras, táticas usadas para autoritários e extremistas chegarem ao poder. O livro é assustador. Empoli relembra a eleição de Trump, o triunfo do Brexit, a ascensão de Viktor Orbán na Hungria, a influência extremista de Matteo Salvini na Itália e como Steve Bannon descobriu maneiras de produzir fake news a partir de um grupo de gamers.

A forma como Empoli relembra essas histórias e acrescenta um trabalho investigativo para recuperar a origem das manobras antidemocráticas e mostrar como elas se transformaram com a tecnologia e, de certa forma, dominam a comunicação atual é assustadora, pois expõe a fragilidade dos sistemas de fiscalização e mediação. Neste Brasil de Bolsonaro e filhos, todos adeptos da cartilha de Bannon, este livro serve como bússola, ao ajudar a entender as táticas utilizadas pela milícia digital. Das melhores leitores deste 2020.


O Náufrago

Fiquei muito tempo atrás deste livro, após ter experimentado a ficção de Thomas Bernhard em “A Extinção” e “O Imitador de Vozes”. Havia lido a respeito deste curto romance do autor austríaco, mas a vontade de lê-lo estava refém da reposição de catálogo. Os sebos, por algum motivo, tinham pouquíssimos exemplares, a preços que chegavam a três dígitos. Agora, a Companhia das Letras reimprimiu o livro, e finalmente pude ler a história de um trio de amigos que vão estudar piano com um prodígio. O problema é que entre eles estava Glenn Gould, um gênio do instrumento, que intimidava os outros dois com sua habilidade.

O narrador abre a história contando que Wertheimer cometeu suicídio e que ele estava voltando à Áustria para enterrá-lo. Gould já havia morrido também, o que faz com que o narrador revisite suas memórias do tempo de estudo. O livro segue o modelo de Bernhard de narrar: na primeira página, três curtos parágrafos iniciais se somam a um quarto, o último do romance de 140 páginas. O narrador trata da obsessão de Wertheimer em querer superar Gould, sem nunca conseguir. Apelidado de Náufrago pelo próprio Gould, o colega — e o narrador — vão moldar suas vidas em torno dessa comparação. Frustrações, arrependimentos e desvios constroem a estrutura do romance, que se torna, ainda, um belo estudo sobre a passagem do tempo.

As Afiadas

O subtítulo resumo o que a jornalista Michelle Dean pretendia com este livro: As mulheres que fizeram da opinião uma arte. E o primeiro perfil do volume, de Dorothy Parker confirma. Mulheres das mais diversas áreas do pensamento. São jornalistas, críticas, escritoras, filósofas, mulheres que marcaram época, que influenciam e moldaram opiniões e ideias.

Dean fez uma extensa pesquisa, e o que emerge nos perfis das mulheres selecionadas é mais do que um texto biográfico. A jornalista cria relações entre as suas escolhidas, contextualiza a época em que cada uma viveu e criou — as histórias de Parker, Rebecca West e Zora Nealon Hurston em vários momentos se cruzam, o que potencializa a força e o talento de cada uma delas, seja para ultrapassar o machismo ou racismo — no caso de Hurston, ambos.

Mesmo que o leitor conheça a perfilada, o mergulho nas páginas de Afiadas (Todavia) recompensa. A habilidade de cortar e cruzar, de pesquisar e escrever, de selecionar e perfilar faz com que o livro se torne uma leitura prazerosa, capaz de abrir novos caminhos para o conhecimento do leitor.

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