60 dias de isolamento, entre divagações e mais leituras

Já se vão mais de 60 dias de isolamento, cada vez mais radical aqui em casa. Se na primeira crônica que escrevi sobre as leituras da quarentena, no fim de março, relatava idas ao supermercado, agora, nem isso mais acontece. Adotamos de vez os aplicativos para entregar tudo em casa. Vamos na onda contrária do que pregam fanáticos idiotas, que saem às ruas como se estivessem vivendo de crise política apenas.

O que não conseguem somar é que a crise política amplia a crise sanitária que alimenta a econômica. Esse ciclo não tem como se sustentar sem rupturas ou tragédias. E é para esse lugar que estamos indo.

Desde aquela crônica, publiquei neste espaço vários textos recuperados de um antigo blog, já desativado e devidamente escondido. Estão aqui, nas tags Da Biblioteca de Casa ou Arquivos. Intercalei com as novas leituras, coisas como “Meu Ano de Descanso e Relaxamento” (ótimo), “O Céu Que Nos Protege” (pérola esquecida na biblioteca) e “Tudo Pode Ser Roubado” (divertido, mas com problemas).

Nesse período, morreu muita gente. Gente demais. Mortes que doem e assustam. Pois a curva não para de crescer. Enquanto essa curva cresce sem controle, discute-se se o shopping deve abrir porque um empresário maluco de Santa Catarina é apoiador do governo. Discute-se a crise de poderes, pois este governo não sabe fazer outra coisa a não ser inventar brigas como moleques valentões de 14 anos. Enquanto essa curva cresce, assistimos manifestações de ódio, preconceito. Invocamos o nazismo e os supremacistas em vídeos de youtubers e marchas em Brasília. Enquanto isso, mais gente morre.

Como morreu Luiz Alfredo Garcia-Roza, autor de romances policiais. Seus mistérios nunca me entusiasmaram, mas li com atenção seus livros sobre Freud.

Como morreu Rubem Fonseca. Li muito pouco do autor. “Feliz Ano Novo” é estupendo, mas seu “Lúcia McCartney” não me conquistou. Tenho dois romances, ainda não lidos, “O Caso Morel” e “Agosto”, mas por algum motivo não era um autor que me prendia a suas páginas. A potência de “Feliz Ano Novo” talvez já seja suficiente para colocá-lo entre os grandes, e reconheço aqui tardiamente a perda que ele gera — ainda que muitos críticos desenhavam uma ladainha de repetição em seus últimos livros.

Como morreu Sérgio Sant’Anna. Da mesma forma, não era leitor de seus contos. Fiz apenas uma incursão à sua obra, em “O Voo da Madrugada”, mas nunca mais fui atrás de seus livros. Também tardiamente, reconheço aqui a perda imensa para a literatura.

A gente perde gente demais, sem reconhecimentos, sem fortalecimento de suas obras.

Falta tanta coisa para o Brasil se tornar maduro que fica difícil começar uma lista. Claramente, falta leitura. Falta estudo. Falta inteligência.

Como figura oposta a esse contexto, está Timothy Garton Ash, jornalista inglês que escreve para o “Guardian”, autor de Os Fatos São Subversivos — Escritos Políticos de uma Década Sem Nome (Companhia da Letras).

Comprei o livro numa liquidação de grande livraria, dessas que não sabem se vendem livros ou se assumem como papelarias. Era um desejo antigo. Que talvez tenha chegado um pouco tarde, pois seus textos fazem uma análise da primeira década do século 21, e um tanto de coisa fica marcada pelo tempo, como atos terroristas — a segunda década, com ataques em Madri, Londres e Paris e a escalada do Isis, faz com que muito do que Ash escreveu fique defasado.

Mas, retirada a questão do tempo, os ensaios presentes no livro invocam uma leitura inteligente dos fatos. Raro observador e dono de um texto limpo e bem construído, Ash fala sobre movimentos políticos na Europa, no Oriente Médio e nos Estados Unidos. De quebra, traz uma das melhores análises sobre a obra de George Orwell, no capítulo final, dedicado a ensaios culturais. Imperdível.

Assim com é A Casa — A História da Seita de João de Deus (Todavia), nova reportagem de Chico Felitti, auto de “Ricardo e Vânia”. Aqui, o jornalista conta a história do líder espiritual que se instalou em uma pequena cidade de Goiás, onde vendia curas e produtos ditos milagrosos.

Movimentava milhões com fiéis, que buscavam algum grau de esperança em cirurgias espirituais, gente comum, famosos, políticos e juízes. Felitti conduz a narrativa em dois eixos, que correm alternadamente no livro: um remonta à construção do pequeno império de João de Deus, enquanto o segundo trata das denúncias de assédio e violência sexual.

João foi acusado por dezenas de mulheres de ter praticado violência sexual nas visitas ao centro espiritual. Felitti não conseguiu falar com o líder, mas revisita as entrevistas dadas ao programa de Pedro Bial, que revelou a história, e novas conversas com as vítimas.

Forte e brutal, o livro é uma amostra da profundidade deste Brasil. Envolve corrupção, muito dinheiro, roubo de material radioativo, assassinatos e a venda de ilusão a pessoas que buscavam uma chance de esperança.

E agora

Agora, na cabeceira, estou com três livros. Avanço pelo primeiro volume de “Escravidão”, de Laurentino Gomes, mais história do que jornalismo, ao contrário do que foi sua trilogia dos 1800. Ainda no campo da não ficção, leio com entusiasmo os ensaios de Jia Tolentino, reunidos em “Falso Espelho” (Todavia).

As noites estão reservadas a Philip Roth e seu “Casei com um Comunista”.

Preciso falar de “A Vida Pela Frente” (Todavia), romance belíssimo de Émile Ajar, pseudônimo de Romain Gary, uma pequena maravilha que conta a história de um garoto filho de prostituta que vive em um bordel francês comandado por uma judia. Ele, muçulmano, tem que lidar com as diferenças religiosas enquanto busca uma identidade própria. Post em breve.

Assim como também preciso relatar uma pequena maratona de 11 HQs, percorridas em um par de semanas. “Aqui” (Quadrinhos na Cia), de Richard McGuire, uma das leituras, é uma obra-prima da narrativa e do design. Post em breve, também.

Enquanto isso, tentemos não nos sufocar com essa corja de ignorantes nazistas e supremacistas que, por algum motivo, conseguem fazer barulho. Fiquem em casa.

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