A reinvenção de uma literatura, por Enrique Vila-Matas

Poucos autores em atividade escrevem tão bem e têm uma mente inventiva como Enrique Vila-Matas. Ele transita entre a ficção e o ensaio, para embaralhar realidades e eliminar fronteiras.

História Abreviada de Literatura Portátil (Cosac Naify), de 1985 e lançado no Brasil em 2011, capta o escritor num momento precioso, antes dos sucessos que o elevariam aos melhores da literatura espanhola. O livro é uma pequena joia, pequeno no formato, preciso como a tal da literatura portátil deve ser.

Vila-Matas homenageia criadores e suas obras. Inventa uma sociedade secreta formada por 27 criadores (escritores e artistas), os shandys —- referência a “Tristam Shandy”, de Laurence Sterne. Assim o narrador descreve os membros da sociedade:

“Como se exigir um grau de loucura não fosse o bastante, foram fixados dois outros requisitos indispensáveis para pertencer a essa sociedade: além de que a obra de cada um não fosse pesada e coubesse facilmente numa maleta, a outra condição obrigatória era a de funcionar como uma máquina celibatária, solteira.
Ainda que não fossem indispensáveis, recomendava-se também possuir certos traços considerados tipicamente shandys: espírito inovador, extrema sexualidade, ausência de grandes propósitos, nomadismo incansável, tensa convivência com a figura do duplo, simpatia pela negritude, cultivo da arte da insolência.”

Surgem na narrativa nomes como Duchamp, Man Ray, Fitzgerald, Aleister Crowley (considerado o traidor da sociedade), Céline, entre outros, recriados por Vila-Matas. A invenção cruza o caminho da realidade, mistura-se aos fatos. A escrita criativa do espanhol entrega uma leitura deliciosa.

O livro, de dimensões pequenas, como objeto, já é uma obra digna da sociedade secreta, portátil, fácil de carregar. Suas 140 páginas carregam uma literatura mágica, de rara invenção, que evoca as criações de Borges.

“Cometer o suicídio no próprio espaço da escrita. O que nasceu como um comentário irônico acabou se transformando em um princípio aceito por todos os membros da sociedade secreta. E ficou bem claro que, daí em diante, o suicídio só poderia ser cometido no papel. Antonio Artaud, por exemplo, respondeu assim a uma pesquisa surrealista em que os interrogados deviam dizer o que achavam da ideia de tirar a própria vida: “Mas o que você diria de um suicídio anterior, um suicídio que nos fizesse regressar, mas para o outro lado da existência, e não para o lado da morte? Só isso teria valor para mim. Não tenho apetite pela morte, eu sinto o apetite do não ser, de nunca ter caído nesse reduto de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos”.

2 comentários em “A reinvenção de uma literatura, por Enrique Vila-Matas

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