Notas de Leitura 72

Tornar-se Palestina

Lina Meruane é autora do belo “Sangue no Olho”, escritora chilena que mora nos Estados Unidos. O livro trata da busca de uma identidade e a relação com o país natal, enquanto a protagonista sofre com um problema de visão. Neste Tornar-se Palestina (Relicário), ela mira a sua origem. Misto de relato de viagem com ensaio, o livro escrito em primeira pessoa traz uma autora afiada e atenta. O gatilho surge em uma viagem de táxi em Nova York, no momento em que o motorista pergunta se ela não conhecia sua terra. Na primeira parte, que leva o título da obra, ela se questiona a respeito desse desconhecimento e narra os passos da sua viagem à Palestina. Na segunda parte, “Tornar-nos Outros”, ela envereda pelo ensaio para apontar problemas no reconhecimento da terra, criticar escritores israelenses como Amós Oz e David Grossman (o primeiro, com certa virulência) numa tentativa de entender conflitos e identidades. Na primeira parte, Meruane se sai melhor, com uma prosa criativa, questionadora. Quando ela busca o debate, perde espaço para a ferocidade — talvez, necessária para o livro, mas o leitor fica sem a Meruane precisa de textos como “Contra os Filhos” (Todavia).

Lucky Jim

No sábado de Carnaval de 2019, entrei numa livraria para ver se encontrava alguma leitura para aqueles quatro dias. Chovia, e a cidade estava ainda encolhida, sem coragem para encarar a água e sequestrar as ruas. Então, na conversa com a livreira, fiquei com este Lucky Jim (Todavia) na cabeça — levei “Os Emigrantes”, de Sebald. Tempos depois, comprei o livro de Kingsley Amis e li sem parar. Sátira dos meios acadêmicos, a obra conta a história de Jim Dixon, professor que está com sua carreira ameaçada e busca apoio em Welch, representante da elite universitária. O choque está estabelecido, pois Jim vem de família pobre. A vida acadêmica britânica é destrinchada sem receios, por meio dos embates entre Jim e Welch. Festas são motivo para divagações dos personagens e revelações que apimentam o sarcasmo de Amis. Peça imperdível da literatura britânico, o livro chegou ao português pela primeira vez desde seu lançamento, em 1954. É uma pena que ainda falta tanto para termos uma bibliografia sem lacunas.

Jimmy Corrigan — O Menino Mais Esperto do Mundo

Quando esta HQ foi lançada no Brasil, ignorei por completo. No fim do ano passado, foi relançada pela Quadrinhos na Cia. Chris Ware é colocado como um dos mais importantes artistas do gênero, e este livro seria sua obra-prima. Como tal, veio colado a críticas: impenetrável, confusa, arte retrô. Ao mesmo tempo, ganhou elogios dos principais veículos. No Brasil, foi incensada por críticos — confesso que não vi uma avaliação que não fosse elogiosa. Ensaiei a compra até encontrar um desconto que justificasse a aposta. Que perdi feio. A HQ é impenetrável, confusa, chata. Gostei da arte, das cores, dos desenhos. Mas o desenvolvimento chega a ser ridículo de confuso. O livro ri de si mesmo, ao colar críticas de jornais e revistas estrangeiros e assumir a dificuldade da obra. Por exemplo, junto ao código de barras, há uma estatística: a cada 12 minutos, alguém joga no lixo o seu exemplar de “Jimmy Corrigan”. Consta que Ware exigiu da editora uma série de detalhes para imprimir o livro, como o formato deitado, sem orelhas, sem o nome do autor impresso na capa, entre outros mimos. Para mim, não desceu. O livro não merece o barulho todo feito para ele. Sobre a trama, Jimmy é um garoto que vive com a mãe opressora, tem um emprego chato e tenta encontrar seu pai — ou, acredito que seja isso. Quer saber? Não importa o enredo.

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