Um esquema sobre “Tudo Pode Ser Roubado”

1. A obra e sua trama

Tudo Pode Ser Roubado (Todavia), de Giovana Madalosso, conta a história de uma garçonete que trabalha em um restaurante da avenida Paulista, em São Paulo, um local frequentado por gente descolada e cheia de dinheiro. Seu sonho é comprar um apartamento, enquanto vive em um instalado no centro velho da cidade. Para chegar lá, aplica pequenos golpes. Conhece clientes, homens e mulheres, flerta e, depois de transar, rouba algum item da vítima para vender em um brechó comandado por uma trans.

Dessa premissa, sai a motivação do romance: um homem misterioso a aborda no restaurante com uma proposta. Sem saber como ele descobriu seus golpes, ela topa ouvir a proposta, seduzida pela contrapartida: R$ 50 mil. Biel, o nome do contratante, um ser que não para de fumar, beber uísque e  que usa chapéu, dá as cartas: ela deve roubar uma edição rara e valiosa de “O Guarani”, romance de José de Alencar, que foi comprada por um professor universitário em um leilão.

Enquanto descobrimos alguns casos da garçonete, sem nome e apelidada de Rabudinha por Biel, acompanhamos as tentativas de se aproximar do professor para aplicar o golpe.

A autora trabalhou em agências de publicidade (16 anos, segundo consta no seu site) e hoje é roteirista de TV.

2. Por que eu quis ler

Esse era um romance que estava na minha mira já fazia algum tempo. Mas o preço da edição física sempre me derrubava. Estudava a versão digital, mas ainda assim não encontrava motivo para gastar tanto. Outras leituras mais sedutoras me conquistaram desde o primeiro contato que tive com o romance de Madalosso.

Sua trama sempre me pareceu uma forma de mergulho sem preocupação, ainda que o livro seja vendido como um exemplo de como as relações são conduzidas nestes dias. Pensava no romance como uma diversão, um livro que se lê sem apego, a não ser com a vontade de continuar seguindo para descobrir o que vai acontecer.

Na quarentena, me pareceu o título ideal para intercalar com obras mais densas, agora, também com um preço mais em conta da versão digital.

3. Pontos negativos

Antes de destrinchar esses pontos, preciso dizer “Tudo Pode Ser Roubado” é um romance divertido. Mas carrega uma série de problemas que, se não comprometem a leitura e o desenvolvimento da trama, também não o tiram da categoria razoável. Vamos a eles.

De onde veio Biel? O romance nunca explica — tudo bem ter mistérios, mas fica um tanto inverossímil acreditar que alguém chega a uma garçonete, do nada, ciente dos seus truques por pura adivinhação. O romance não desenvolve essa subtrama e, assim como chegou, Biel se vai.

O professor é muito idealista para dar aula na Faap, faculdade da classe média alta. Além disso, não fica claro qual a disciplina que ele ministra. Sabemos que é do curso de jornalismo, mas ele pede análises de romances definidos pelos alunos, quaisquer que sejam. Ao mesmo tempo, ele se dispõe a ajudar a garçonete a preparar uma reportagem para um blog — sem questionar muito. Não fica claro o que ele faz, qual seu papel (a não ser o de oponente na trama), e o leitor precisa exercer sua paciência nessa relação.

A aproximação da garçonete com o professor é digna das piores comédias românticas dos anos 80. A paixão que surge após um breve encontro é frágil, sem liga. Sabemos que é falsa, mas a forma como Madalosso conduz e desenvolve não imprime verdade do lado do professor, a não ser uma certa ingenuidade infantil.

A utilização do tempo não é bem aplicada pela autora. Nunca sabemos quais são os turnos da garçonete — em alguns momentos, ela deixa claro que pede para trocar com uma colega, mas na parte das vezes o leitor não sabe quando ela trabalha. Parece algo fortuito.

Algumas cenas não são compatíveis com um mínimo de realidade. Em certo momento, o professor convida a garçonete para assistir a um concerto de câmara. Imagina-se que seja à noite. O local: uma galeria no centro velho de São Paulo, perto da avenida Ipiranga. Após o espetáculo, o casal sai andando pelas ruas até um sebo. Lá, o professor pega uma encomenda. Pergunta ao dono se podem se sentar no café. Ele pede dois pães de queijo, um refrigerante, uma taça de vinho e um café.

Nada nessa cena funciona. Quem vai a um café instalado num sebo, tarde da noite, no centro velho de SP, comer pão de queijo? O leitor fica desanimado com essas soluções.

A dona do brechó, Tiana, assim como Biel, entra e sai de cena com tanta pressa, sem desenvolvimento, que se fosse retirada da trama não haveria perda alguma. Bastava informar ao leitor que a garçonete vendia as peças roubadas em um brechó qualquer de Pinheiros e pronto.

4. O que funciona

Madalosso ambienta o romance em São Paulo. E isso a autora consegue fazer bem. Ainda que não tenha descrições mais aprofundadas, quem conhece a cidade se localiza e identifica lugares e distâncias. Se ela abusasse menos dos clichês, poderia sair com um bom mapa da cidade.

A garçonete é uma grande personagem. A única que se desenvolve mais — todos os outros são periféricos, mas Biel teria capacidade de crescer. Talvez tenha sido opção da escritora deixar todos como satélites, mas aí reside o problema. Se são satélites, o tratamento deveria ser como tal. Biel é um bom personagem, Madalosso indica seu carinho por ele, mas o abandona no meio, o deixa óbvio. A dona do brechó nem satélite é, beira o supérfluo. E o professor carece de potência, como indica a forma que foi pensado para se submeter aos caprichos da garçonete.

O leitor tem, então, a personagem no fim dos seus 20, atual, sem respeito pelos outros, tudo muito sustentado — mesmo sem o histórico da personagem, o leitor encontra empatia e entendimento.

5. Conclusão

“Tudo Pode Ser Roubado” é divertido. Vale a leitura, apesar de carregar mais problemas do que achados. O romance tem soluções fáceis — o que não seria problema, mas fica desequilibrado ao se apoiar na realidade para contar sua história.

Não ser verossímil não impede de ser ficcional. O problema são as soluções ficcionais e criativas propostas pela autora. Neste romance, com essas estrutura e trama apresentadas, o que chega ao leitor vai ao limite da boa vontade. Por isso, não atrapalha a leitura — mas deixa um incômodo amargo.

Esse é o primeiro romance da autora, que antes lançara “A Teta Racional” (Grua), coleção de contos. Indica um caminho promissor.

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