A viagem necessária de “O Céu Que Nos Protege”

Esta quarentena está me levando com mais frequência à minha biblioteca. Esse tempo a mais em casa leva a revisitação, de olhar com carinho os livros já ultrapassados e aqueles que ainda repousam nas prateleiras esperando a leitura.

Sem contar que ler, neste momento em que a ignorância reina no país, é essencial para criar camadas de proteção. Por isso, este blog está mais movimentado desde o início do confinamento, com posts novos e textos recuperados de um canal antigo, já desativado — estes últimos publicados nas seções da biblioteca de casa e arquivos.

Se por um lado redescubro os contos maravilhosos de Turguêniev em “Memórias de um Caçador”, puxo pela primeira vez um livro comprado há quase dez anos e nunca lido.

O Céu Que Nos Protege (Alfaguara) pousou na biblioteca assim que sua nova edição saiu. O livro de Paul Bowles era uma obsessão por conta do filme de Bernardo Bertolucci, lançado em 1990, que adaptou com maestria a obra escrita. Veio para substituir uma edição da Rocco, que se perdeu em algum momento das mudanças — na verdade, acho que emprestei antes de ler, mas é só mais uma dúvida que paira entre as várias que ilustram a redução da biblioteca.

Vi no cinema, e o impacto das belas imagens do Saara ficaram marcadas a ferro, assim como os diálogos entre Kit e Port Moresby, interpretações magníficas de Debra Winger e John Malkovich. Foi perturbador ter visto a obra na tela grande, e aquela experiência me obrigou a revê-lo dias depois — era uma época em que filmes como este permaneciam mais tempo em cartaz do que hoje. Depois, revi em todas as mídias caseiras — VHS e DVD.

Engraçado que sempre que me chamam a eleger meus filmes favoritos, em uma lista de 5 ou 10, nunca me lembro de citá-lo, nem em menção honrosa.

Fato é que “O Céu Que Nos Protege” marcou, e por isso nunca tive coragem de tirar o livro da biblioteca para ler. A quarentena quebrou esse tabu.

Paul Bowles é um carpinteiro. Constrói cenas, diálogos e ambientações com a calma necessária para dar densidade, sem divagações. O livro flui com naturalidade, rapidez, até, em uma história que se ergue em pouco menos de 300 páginas — e a sensação ao final é de ter lido um épico.

O escritor americano, que adotou Tânger, no Marrocos, como sua cidade natal, coloca o casal Kit e Port no deserto do Saara como tentativa de recuperar a relação após dez anos. Estamos nos anos 40, e os dois decidem viajar sem rumo, sem saber para onde seguir depois de chegar a algum lugar — aqui, é possível seguir a viagem dos dois pelo Google Maps.

O norte da África é o porto seguro de Bowles, onde começou a escrever o romance, em 1948. A inspiração de seguir para o continente e começar a escrever veio após passar uma temporada na casa de Gertrude Stein e Alice Toklas, em Paris, refúgio de muitos artistas na época. A experiência foi transformadora, e o resultado é o romance, seu primeiro.

A premissa do livro é a redefinição do casamento de Kit e Port, mas o deserto entra como o elemento catalisador e guia de toda a história. Se a primeira sensação que se tem é de solidão, diante da imensidão de areia que se imagina no horizonte, Bowles busca o oposto. Numa cena (que também aparece no filme), Port define o título do romance:

“Quando olho para ele [o céu], tenho a sensação de que é sólido lá em cima, protegendo-nos do que está atrás.”

A cena em que Port fala sobre o céu

Já Kit diz uma frase que é uma das minhas favoritas:

“O pôr do sol é uma hora tão triste.”

O contraste entre a imensidão do deserto com o céu gera a proteção que ele procura, como se pedisse permissão para seguir viajando. Aliás, a definição de turista e viajante que o livro impõe é demolidora e mostra as intenções dos dois, principalmente de Port: turista quer sempre voltar para casa depois de algum tempo fora, enquanto o viajante, que não pertence a lugar nenhum, segue sua trilha continuamente, sem pressa.

Já, para Kit, seguir o marido era a única opção, como vai se revelar na conclusão do romance. Ainda que os dois tenham viajado com Tunner, um amigo dos Estados Unidos que se une a eles e provoca crises de ciúmes ao se aproximar de Kit, Bowles não deixa um possível triângulo tirar o rumo da sua história. Se ele existe, não está lá para protagonizar, mas apenas para ser mais uma justificativa daquela viagem.

O escritor Paul Bowles

O deserto na boca

Bowles coloca o leitor nas cidades, nos hotéis vagabundos e cafés tradicionais da Argélia, faz seu interlocutor provar de cada chá e do calor que domina a paisagem. A cultura local se insere com vigor na vida passageira de Kit e Port, que se dividem entre a obrigação de entender e seguir alguns preceitos das tradições, enquanto questionam, em alguns casos, a existência delas:

“Outra importante diferença entre o turista e o viajante é que o primeiro aceita sua cultura sem questioná-la, o que não é o caso do viajante, que a compara com as outras, rejeitando os elementos que não lhe agradam.”

Essa capacidade é tão rara que o filme de Bertolucci, pelo menos na memória e em trechos revistos recentemente, leva para a tela diálogos completos, cenas tão bem refletidas na transposição — algo que Luiz Fernando Carvalho conseguiu ao transpor “Lavoura Arcaica” para as telas.

Em alguns momentos, o gosto da areia toma a boca. A sensualidade, mais presente no filme do que no livro, impregna os olhos, que insistem em colocar corpos vistos no cinema nas páginas. O desfecho, tão cruel, carrega o leitor para longe do oásis, um aconchego que Bowles sempre oferecia ao longo das páginas, apesar do tom melancólico e triste que carrega na trama.

Depois de alguns dias na cabeceira, “O Céu Que Nos Protege” volta à biblioteca, dez anos depois de ter chegado a ela, todo percorrido, uma jornada necessária.

“Com o correr da manhã, a paisagem adquiriu uma alegria e maciez que não eram iguais a nada que Kit jamais vira. De repente, ela se deu conta de que, em grande parte, era porque a areia tomara o lugar das pedras. E as árvores rendadas cresciam aqui e ali, principalmente nos pontos onde havia aglomerações de cabanas, e esses pontos ficavam mais frequentes. Várias vezes passaram por grupos de homens escuros montados em mehara. Eles seguravam as rédeas orgulhosamente, os olhos circundados de kohl ferozes acima dos véus drapeados, cor de índigo, com que ocultavam os rostos.”

“A paisagem do deserto é sempre mais plena à meia-luz do amanhecer ou anoitecer. O sentido da distância se anula: uma crista próxima pode ser uma cadeia de montanhas distante, cada pequeno detalhe pode assumir a importância de uma variante significativa no tema repetitivo do campo. A chegada do dia promete uma mudança; só quando o dia chegou inteiramente é que o observador desconfia que é o mesmo dia que voltou outra vez; o mesmo dia que ele vem vivendo há um longo tempo repetidamente, ainda fazendo piscar de tão brilhante e intocado pelo tempo.”

3 comentários em “A viagem necessária de “O Céu Que Nos Protege”

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