Sabato, em “A Resistência”: “Tenho uma esperança demencial”

“A Resistência” (Companhia das Letras), de Ernesto Sabato, é uma espécie de manifesto, um grito de socorro de alguém quase centenário por uma vida mais solidária. São seis cartas ao leitor, intensas e reflexivas. Dá para ler uma sentada as 105 páginas. Publicado em 2000, quando o argentino estava com 89 anos, e lançado no Brasil em 2008, o livro trata de internet, do convívio, do meio ambiente e arte, de forma direta, como um desabafo.

Sabato (1911-2011) é um dos meus escritores preferidos — escrevi sobre ele aqui. Deste “A Resistência”, prefiro não me estender. Coloco trechos do livro, Dizem muito mais do que qualquer palavra que eu rascunhe.

“Muitas vezes me espantei ao perceber como enxergamos melhor as paisagens no cinema do que na realidade.”

“É urgente reconhecermos os espaços de encontro que podem nos salvar de ser uma multidão massificada assistindo isoladamente à televisão.”

“Eu me pergunto se as pessoas percebem o mal que o barulho lhes faz; ou será que as convenceram de que o moderno é conversar aos gritos? Em muitos apartamentos dá para escutar o televisor do vizinho.”

“Se nos tornarmos incapazes de criar um clima de beleza no pequeno mundo ao nosso redor e só atentarmos às razões do trabalho, muitas vezes desumanizado e competitivo, como poderemos resistir?”

“Não podemos deter a marcha para desfrutar de um encontro porque estamos cheios de trabalho, de problemas para resolver, de ambições. E porque a magnitude da cidade nos ultrapassa. Então o outro ser humano não chega a nós, não o vemos. Está mais ao nosso alcance um desconhecido com quem batemos papo pelo computador.”

“Sim, tenho uma esperança demencial, ligada, paradoxalmente, à nossa atual pobreza existencial e ao desejo, que descubro em muitos olhares, de que algo grande nos consagre a cuidar com empenho da terra em que vivemos.”

“Acredito nos cafés, no diálogo, acredito na dignidade da pessoa, na liberdade. Sinto saudade, quase ansiedade de um infinito, mas humano, na nossa medida.”

“A arte foi o porto definitivo onde preenchi meus anseios de navio sedento e à deriva. Cheguei a ela quando a tristeza e o pessimismo já haviam roído meu espírito de tal maneira que, como um estigma, ficaram para sempre entrelaçados à trama da minha existência.”

“A democracia, mais do que permitir a diversidade, deveria estimulá-la e exigi-la. Ela necessita da presença ativa dos cidadãos para existir, pois do contrário é massificadora e gera indiferença e conformismo. Vem daí a esclerose de que muitos democracias padecem.”

“O pior é a velocidade vertiginosa. Nessa vertigem, nada frutifica nem florece. E o medo é próprio dela: o homem adquire um comportamento de autômato, deixa de ser responsável, deixa de ser livre e de reconhecer os outros.”

“Resignar-se é uma covardia, é o sentimento que justifica o abandono daquilo pelo qual vale a pena lutar; de certo modo, é uma indignidade. A aceitação é o respeito pela vontade do outro, seja ele um ser humano ou o próprio destino. Não nasce do medo, como a resignação; é como um fruto.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s