“Heimat”: uma jornada ao passado para fechar um acerto de contas com a família e a terra

Ainda é difícil de entender como, mais de 80 anos depois da chegada do nazismo ao poder na Alemanha, há gente que queira discutir lado ideológico do sistema capitaneado por Hitler. Pior: há gente que emula discursos e gestos do horror, como recentemente o ex-secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, fez ao anunciar políticas de governo no cenário que imitava o de Goebbels.

Ou, de um jeito que toca as franjas do nazismo, seres que habitam Brasília cospem barbaridades contra a democracia, insistem em governar à força e propagam uma bobajada sem pé nem cabeça, infelizmente, ouvida e, igualmente, disseminada, por pessoas insensíveis e burras.

Nora Krug fez diferente. Nascida na Alemanha, mais de 30 anos depois do fim da 2ª Guerra, ela quis entender o que o nazismo significava para o seu país e, principalmente, sua família. A artista mora hoje em Nova York e não se contentou com o que leu e estudou. Foi a campo e saiu com Heimat (Quadrinhos na Cia), obra que refaz parte da trajetória da sua família na época da ascensão do regime de Hitler.

Sua família morava em Karlusruhe, sul da Alemanha, próximo a uma base americana. Krug quis não só entender como o sentimento de culpa aflora nos alemães como também se deu a participação da sua família na guerra: eles foram nazistas, antissemitas?

A HQ trata disso, de um mergulho na terra natal, na história e nos sentimentos de quem viveu na pele um dos momentos mais trágicos da humanidade — época que é tratada com sarcasmo pela trupe de ignorantes que habita Brasília e por seus seguidores.

Heimat é um termo que não tem tradução direta, mas que passa a ideia de lugar onde uma pessoa se sente em casa. E esse é o norte de sua viagem para a Alemanha, uma tentativa de desvendar mistérios do passado familiar.

Krug traça a história das cidades onde parte de seus parentes viveu, retrocedendo décadas para ilustrar esse passado. A HQ reflete os seis anos de trabalho dedicados ao livro, um material de fôlego, criativo e investigativo.

A artista consegue lidar com a culpa e o sentimento herdado por uma nação, inclusive os que chegaram à sua família, mesmo que indiretamente — como é o seu caso. Ela buscou parentes que não deixaram rastro, enveredou pela burocracia para encontrar alguma memória e encontrou uma terra disposta a rever o passado. Em vários casos, o sentimento é perturbador, sensação que ela passa ao leitor com delicadeza.

“Heimat” usa colagens, fotos, memorabilia, ilustrações para compor essa jornada. O livro acaba também por refletir o método de trabalho da artista, que utiliza camadas e expressões para contar uma história que não tem enredo fácil e cuja conclusão, que ela temia desde o início, exigiu dela — e exige do leitor — um distanciamento para que a compreensão não seja superada pela raiva, igualmente compreensiva.

Livro potente, deveria fazer parte da lista de leitura de escolas e faculdades — o que seria exigir demais de um governo que não preza por diálogo e cultura. Então, caro leitor, resta a você ler. Recomendo.

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