Os livros que não terminei de ler

Alguns livros chegam com expectativa alta, mas no meio do caminho acabam se transformando em um fardo. Não rendem, tornam a leitura algo longe do prazeroso. Há muito tempo, eu enfrentava as páginas até o final. Hoje, eu desisto, talvez reflexo da ideia de que existe tanta coisa para ler que perder tempo com algo que não conquistou só vai atrasar o tempo — e, quem sabe, lá atrás existia a romântica ideia de que havia muito tempo para se fazer tudo.

As Correções (Companhia das Letras), de Jonathan Franzen, foi um deles. Quando peguei para ler, há alguns anos, estava ansioso para ler o autor, tão badalado por “Liberdade”, mas enfrentei uma grande decepção. Este, para alguns críticos, é considerado um romance superior a “Liberdade”, o que me convenceu a entrar no universo Franzen por ele.

Fiz duas tentativas. O início se revelou empolgante, mas logo a leitura se tornou enfadonha. Resisti, só que chegou um momento em que trocava a leitura por revistas, TV e adiava a retomada. Então, deixei de lado. Fui ler um romance policial de Henning Mankell.

Voltei semanas depois e aconteceu a mesma coisa. A leitura recomeçou bem, mas logo caiu no mesmo enfado. Desisti de vez. “As Correções” adormece na estante, quem sabe mais para frente volte a ele. Nesse meio tempo, chegou outro Franzen à biblioteca, “Tremor”, igualmente estacionado na biblioteca.

Já o Franzen ensaísta está entre meus favoritos. “Como Ficar Sozinho” e “A Zona do Desconforto” (ambos Companhia das Letras) merecem a leitura.

Com Martín Caparrós aconteceu a mesma coisa. Após ler uma entrevista dada ao suplemento “Ñ”, do “Clarín”, anos atrás, percebi um escritor pulsante, o que me motivou a comprar dois livros, Valfierno e “A Quem de Direito” (ambos Companhia das Letras).

No primeiro, a história prometia. Ele recria o roubo da “Monalisa” cometido por um argentino no início do século 20. O tal Valfierno era um especialista em incorporar personagens e trafegar pela alta sociedade. A conversa com um jornalista revela a sua história, mas Caparrós trava a fluência.

Eu insisti e muito. Não dei uma segunda chance, mas fiquei por mais tempo com ele na cabeceira. Não rolou. A dúvida que ficou é a mesma que sobrou após o Franzen ter ido para a estante.

Caparrós recebeu uma segunda chance por seu “A Quem de Direito”, um relato passado na ditadura argentina, este sim, magnífico. Tempos depois, mergulhei no essencial ensaio “A Fome” (Record), um catatau que precisa ser lido. É de uma brutalidade assustadora. Ele percorre o mundo para mostrar como culturas e sociedades encaram a fome, a falta de comida e o excesso de produção.

Por fim, A Mulher Trêmula (Companhia das Letras), de Siri Hustvedt. Após ler uma nota sobre o livro, que trata do relato da autora e sua doença cerebral, corri atrás do título.

A descoberta de Hustvedt foi desconcertante, durante um discurso que fazia em homenagem a seu pai, morto havia pouco tempo. No livro, ela fala de sua doença e como se adapta. Ela intercala relato pessoal com ensaio, ao pesquisar e estudar casos semelhantes e obras e escritores do passado.

O livro então se mostrou um porre, uma leitura chata, em que as divagações não levam a lugar nenhum.

É o mesmo universo explorado por Oliver Sacks, mas o médico norte-americano se sai muito melhor na literatura.

Essa foi a saga dos livros que eu não terminei de ler. Vieram outros, certamente, virão outros que não terminarei, por diversos motivos. Assim é hoje, se o livro não me convence, desisto e avanço por outros caminhos. O tempo precisa ser conquistado. Talvez amanhã mude o jeito de pensar.

3 comentários em “Os livros que não terminei de ler

  1. que legal saber dessas leituras, Ricardo. Desistência também é leitura, e sempre abracei essa modalidade rsrs. Porque aliás existem alguns livros que abandonei com repulsa e anos depois tornaram-se paixão. Isso aconteceu esse ano com “Kafka à beira-mar”, do Murakami.
    Fiquei curioso pelo “A Fome” do Caparrós. Não conhecia.
    Eu acabei de ler um outro post seu falando de uma atitude da Todavia (de enviar pros leitores a edição corrigida), coisa que a Rádio Londres não fez com “Stoner”. Ano passado li “Butcher´s Crossing” na edição da Rádio Londres e não lembro de erros de revisão — foi uma leitura incrível, te recomendo.

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    1. Escrevi duas ou três linhas sobre A Fome. Quem sabe eu faça um post dedicado a esse livro. Sobre a Rádio Londres, quem sabe. Por enquanto, está embargada – de pirraça mesmo, como resposta ao desrespeito com que trataram o leitor dos seus livros

      Curtido por 1 pessoa

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