Leituras de 2 semanas de confinamento

Meu confinamento começou no dia 16. Era para durar uma semana, mas já foi extendido. Saí de casa apenas duas vezes, duas idas ao supermercado, uma em cada semana. Claro, não conto os passeios diários com o cão pelas ruas do bairro, relativamente calmas e com pouquíssimo movimento — nunca foram movimentadas.

A quarentena começou com um livro em andamento, O Retalho (Todavia), memórias de Philippe Lançon, jornalista que sobreviveu ao ataque terrorista ao satírico “Charlie Hebdo”, em 2015.

Na obra, o escritor recorda o ataque em detalhes, ele que estava na sala de reunião quando os terroristas chegaram atirando. Seu rosto foi desfigurado e ele precisou passar por dezenas de cirurgias.

Intercala com as lembranças de dias antes da invasão à sede do jornal, com comentários sobre Submissão, de Michel Houellebecq, livro que acabava de ser lançado. Claro que Lançon só percebe a coincidência tempos depois, quando une os fatos em sua cama de hospital.

O relato de seu cotidiano cresce com o passar do tempo, em que as cirurgias avançam e a distância dos ataques aumenta. Esse mergulho no medo, na memória que fica cada vez mais clara e na tentativa de retomar a vida, pessoal e profissional, deixa o livro com uma atualidade indissociável. Se são eventos diferentes, as reações de Lançon ajudam a entender o que passamos.

Parêntesis. Preciso parabenizar a editora. Em suas redes sociais, a editora alertou os compradores da primeira impressão do livro que os exemplares estavam com um defeito: uma página repetida ocupava o lugar de outra, que sumiu da edição. Pediram para mandar uma foto do livro para o email indicado e deram as coordenadas para que os leitores recebessem um exemplar corrigido.

Sem burocracia. Recebi o livro poucos dias depois do primeiro email. Não foi uma operação fácil, imagino, ter que recolher e trocar os livros dessa impressão. Mas a editora mostrou respeito ao leitor. Coisa que a Rádio Londres, editora da qual nunca mais compro um livro, não teve com o consumidor que adquiriu a primeira edição de “Stoner” (aqui, aqui e aqui). Parêntesis.

Desde o fim de “O Retalho”, optei por livros mais curtos, que pudessem ser vencidos em um ou dois dias. Não foi por acaso essa escolha. Optei por obras mais leves para encontrar soluções mais rápidas para este período, um atalho psicológico para sensações prazerosas.

O primeiro foi O Peso do Pássaro Morto (Nós) de Aline Bei. Aqui, acompanhamos a vida de um mulher, a partir dos seus 8 anos até os 52. Escrito em versos, em tom de prosa, o livro une o lirismo à violência que ladeia a personagem. O hibridismo de formatos reforça o vigor da narrativa, ao dar respiro a cada passagem de idade, a cada fato relembrado, a cada perda vivida pela mulher.

As memórias que atravessam o relato em primeira pessoa da mulher retratam a humilhação, a violência moral e sexual e as tentativas de reerguimento. Um obra brutal e delicada ao mesmo tempo.

Já em Karen (Todavia), da portuguesa Ana Teresa Pereira, encontrei decepção. Li muita coisa boa sobre o livro, mas não tive o retorno que a expectativa gerou. Uma mulher de 25 anos acorda numa cama que não reconhece como sua, assim como a casa onde está. Ela, que desperta na Inglaterra, também não reconhece as pessoas que estão com ela. Aceita apenas que seu nome seja Karen.

O livro de fôlego curto (120 páginas) mostra como Karen tenta se reencontrar, recuperar suas memórias e entender o que aconteceu — sabe que seus machucados apareceram depois que se machucou numa cachoeira. A prosa premiada da autora não me convenceu. E a tentativa de criar um quebra-cabeça em seus capítulos igualmente curtos gerou um exercício de técnica apenas.

Algo que não acontece com Pássaros na Boca (Benvirá), livro de contos da argentina Samanta Schweblin. Suas 18 histórias cabem nas pouco mais de 220 páginas, um volume que presta homenagem a Casares e Cortázar de forma original.

Assim como em “Distância de Resgate”, seu romance já comentado aqui no blog, fatos cotidianos abrem suas histórias até que ganham rumos mais perturbadores. Em alguns casos, como no conto homônimo, o livro passeia pelo absurdo.

Schweblin escreve muitíssimo bem. Uma pena que apenas duas obras tenham sido traduzidas para o português.

Para fechar a primeira quinzena de confinamento, terminei na quinta-feira A Estepe (Penguin-Companhia), primeira obra de Anton Tchékhov em prosa mais longa. Nesta novela, o autor russo incorpora elementos de Turgueniêv, Bábel e Dostoiévski, como a introdução de Rubens Figueiredo, também o tradutor da obra, destaca.

Justifica-se. Entre um relato de viagem e a observação da vida russa do interior do país, o escritor transfere à sua prosa estudos da natureza humana. Tudo isso ambientado na estepe russa, formação típica da região, de paisagens abertas e longos horizontes — cenário que contrasta brutalmente com o que vivemos agora.

A história tem premissa simples. Iegóruchka, um garoto de 9 anos, é levado pelo tio e um padre para outra província a fim de continuar seus estudos em uma escola melhor. Para chegar lá, precisam ultrapassar a estepe. Na viagem, cruzam com comerciantes, aldeões, mujiques, gente que vive e extrai da terra e das relações estabelecidas sua sobrevivência.

A imensidão descrita por Tchékhov alimenta a imaginação nestes dias de confinamento.

“Enquanto isso, diante dos olhos dos viajantes, se alastrava a planície vasta, infinita, cortada por uma cadeia de colinas. Comprimindo-se e espreitando umas por trás das outras, essas colinas se fundiam numa ondulação que se estendia à direita, da estrada até o horizonte, e desaparecia na vastidão lilás; a gente anda, anda e não consegue distinguir onde ela começa e onde acaba…”

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