Do sebo: “O Americano Tranquilo”

As lacunas de leitura vão sendo preenchidas por caminhos dos mais diversos. Graham Greene, autor de quem havia lido apenas o excepcional “Fim de Caso”, era daqueles que teimava em não ser mais consumido.

A segunda obra chegou tardiamente. “O Americano Tranquilo”, lido em uma edição de 1981 publicada pela editora Abril, me tomou duas noites. É daqueles romances que obrigam o leitor a ter paciência ao virar páginas, por conta de uma construção engenhosa, que prende a atenção com um texto primoroso ao mesmo tempo em que impulsiona a leitura.

A edição de quase 40 anos me chegou às mãos depois de uma longa tarde passada em um sebo. Por R$ 10, comprei a tradução de Brenno Silveira, que, mesmo depois de tanto tempo, não está comprometida — passa um ou outro termo em desuso, mas nada que emperre a leitura. Já a capa é terrível.

A Biblioteca Azul lançou em 2016 uma nova edição, com tradução de Cássio de Arantes Leite — a editora vem colocando nas prateleiras novas versões da bibliografia de Greene.

O passeio no sebo me trouxe outros livros, de autores como Norman Mailer. Este “O Americano Tranquilo” estava guardado numa caixa havia um ano e meio e veio para a cabeceira logo na segunda semana do novo ano, ao colocar a biblioteca de pé novamente.

Assisti à versão cinematográfica dirigida por Philip Noyce em 2003, com Michael Caine no papel de Thomas Fowler, jornalista inglês que está na Indochina para cobrir o conflito com a França, e Brandon Fraser como Pyle, o americano do título, um misto de agente secreto com negociante que pode comprometer o rumo da guerra. Até onde sei, há uma primeira adaptação para o cinema, de 1958, com o diretor Joseph L. Mankiewicz à frente.

Greene escreveu um livro cuja trama passeia pelo romance de espionagem e pela sátira, sustentado por um triângulo amoroso que conduz os passos dos dois personagens — Phuong é a peça que coloca em choque Fowler e Pyle, de um jeito que faz emergir os dois gêneros literários.

O escritor inglês é um mestre em criar diálogos e cenas que não só endossam a trama, como abrem novas janelas para a continuidade, sem apelar para ganchos falsos, armadilhas para o leitor. A sátira aos americanos, encarnados num Pyle ingênuo, que acredita nas palavras em tempos de guerra, é sutil. O Fowler, que enfrenta crises amorosas na Indochina e na Inglaterra, é o oposto de Pyle, sempre cético e, ao mesmo tempo, cínico. Características que vêm à tona quando ele se joga no romance com Phuong e precisa enfrentar o amigo americano.

Pacifista, o livro se desenrola sem levantar bandeiras. Greene faz de “O Americano Tranquilo” um retrato cruel dos Estados Unidos e que antecipa o que aconteceria no Vietnã anos depois.

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