Da biblioteca de casa: O cinema como Scorsese o vê

Conversas com Scorsese (Cosac Naify) é uma deliciosa viagem ao cinema e ao trabalho do diretor norte-americano. Entrevistado pelo crítico e documentarista Richard Schickel, Martin Scorsese usa sua verve para falar de técnicas, influências, cultura, tradições.

O livro fez parte de uma pequena coleção da editora, que lançou ainda conversas com Woody Allen e Stanley Kubrick. Diferentemente do volume dedicado a Allen, em que Eric Lax conduz a conversa por temas, este é guiado pela cinebiografia do diretor. Cada filme de Scorsese ganha um capítulo (de “Sexy e Marginal” a “Ilha do Medo”), para falar de roteiro, fotografia, atores e bastidores. Além desses, há capítulos dedicados a atores, estúdios, música e John Ford.

A memória e a cultura cinematográfica do diretor e do entrevistador envolvem o leitor e forçam a colocar ao lado uma caderneta para anotar filmes citados. Scorsese não repele nenhum tema, nenhuma pergunta. É detalhista e vai buscar histórias para deixar tudo detalhado. Então, lemos bastidores de filmagens que raramente uma publicação revela.

É uma pequena aula de cinema, enriquecida pelo talento de Scorsese e Schickel.

De Scorsese, estes são meus favoritos (hoje, e sem ordem de preferência):

  • “Alice Não Mora Mais Aqui”
  • “Taxi Driver”
  • “Touro Indomável”
  • “Depois de Horas”
  • “Gangues de Nova York”

Então, nesse dia de manhã, eu estava no set e a rua estava viva – havia toda aquela gente correndo de um lado para outro, e era um dia muito, muito quente. De repente, alguém aparece do meu lado e diz” “Tenho umas ideias, umas ideias!” Era Jack (risos). E isso virou a cena que se vê no filme, na qual, basicamente, ele cheira o conhaque. E ele cheira Leo e diz: “Sinto cheiro de rato”. Aí ele aponta a arma para Leo, sem que Leo soubesse. E sem eu saber! Eu não sabia se ela ia atirar ou não. Mesmo usando balas de pólvora seca, é muito perigoso, e eu não sabia bem o que ia acontecer.
Esse tipo de coisa leva a outro nível de realidade. Quando ele encosta a arma daquele jeito, você vê a cara do Leo e sabe que aquela é a reação pura, nada montado, nada cortado. Eu não sabia para onde a cena ia depois. Porque Leo era o reto e ele tinha de sair daquela sala.
Mas como ele ia fazer isso? Eu estava prendendo a respiração. E aí ele faz aquilo, convence Jack. Como ator, Jack sentiu o desespero de Leo, viu isso nos olhos dele e o jeito com perguntou: “Sabe, Frank, quantos caras por aí querem te pegar?”. Isso pôs Jack nos trilhos outra vez.

(sobre “Os Infiltrados”)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s