“A Marcha” revisita o movimento pelos direitos civis nos EUA

A cena de abertura é brutal. Em cima de uma ponte, um homem negro pergunta a outro: “Você sabe nadar?”. A resposta: “Não”. “Nem eu, mas talvez a gente precise.”

É a deixa para a polícia avançar sobre o grupo a fim de dispersar a marcha que mudou a história dos Estados Unidos.

Em 7 de março de 1965, cerca de 600 manifestantes pelos direitos civis estavam atravessavando a ponte Edmund Pettus, na cidade de Selma, no Alabama, quando foram atacados por policiais. O saldo da violência: 17 manifestantes foram hospitalizados e 50 ficaram feridos.

A data ficou marcada pelo nome de Domingo Sangrento. Quem disse na época que não sabia nadar foi John Lewis, um dos líderes da marcha e do movimento que lutou pelos direitos humanos no sul dos EUA em meados dos anos 1960.

Lewis é um ícone do movimento. Tinha 23 anos quando participou das ações de conscientização e há 31 ocupa uma cadeira no Congresso americano como deputado pela Geórgia.

Essa história é contada na trilogia A Marcha (Nemo), que já tem dois volumes lançados no Brasil. Lewis escreve sua história com seu assessor pessoal Andrew Aydin e o quadrinista e ilustrador Nate Powell. A tradução de Érico Assis consegue captar gírias da época e da região sul dos EUA, sem perder fluência ou oferecer uma solução forçada.

Após a cena de abertura, o livro de desdobra em duas frentes. Uma delas se passa em janeiro de 2009, momentos antes da posse de Barack Obama como presidente dos EUA. Lewis se prepara para seguir à cerimônia e recebe eleitores em seu gabinete (no alto deste post, Obama e Lewis se abraçam em cerimônia em Washington, em 2016). O volume 2 termina com o discurso de Obama.

Em paralelo, Lewis narra sua história, relembrando a infância numa fazenda de milho e algodão no Alabama e a decisão por estudar e enfrentar a família. O seu envolvimento com os direitos civis ajudou a disseminar movimentos com as viagens pela liberdade, quando negros tentavam comprar passagens de ônibus, e os sit-ins. Nessa ação, negros sentavam em cafés que se recusavam a servi-los. Sem violência, ficavam sentados, até serem expulsos ou deixados presos dentro das lojas.

O movimento pacifista enfrentou ainda cinemas e comércios, sempre sob o olhar de policiais e governos que buscavam manter a segregação — sem contar adeptos da KKK, que não raro partiam para o confronto físico. Martin Luther King é figura central da trilogia, que vai mostrar, no volume 3, o famoso discurso do pastor.

As HQs alternam passado e a posse de Obama com um ritmo natural, sem escapar pela pieguice. A visão de Lewis se apresenta com o distanciamento certo para relatar os fatos e mostrar como as lutas consolidaram o caminho para a eleição do primeiro presidente negro da história americana.

A biografia de Lewis em formato de quadrinhos também é uma biografia dos movimentos civis, que encontrou no formato gráfico um meio poderoso para mostrar como um grupo de pessoas redesenhou o rumo da história americana.

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