Notas de Leitura 71

Uma Noite com Sabrina Love

Este é o segundo livro de Pedro Mairal que chega acompanhado da expressão “só parei de ler quando virei a última página”. Em “A Uruguaia”, era Juan Pablo Villlabos. Neste, é Bioy Casares que fala ao escritor argentino como fora sua leitura. Casares foi um dos jurados de um concurso literário que elegeu Uma Noite com Sabrina Love (Todavia), o romance de estreia de Mairal, para ser publicado, em 1998. Aqui, acompanhamos Daniel, jovem de 17 anos que é sorteado para passar a noite com uma atriz pornô em Buenos Aires. Sem saber lidar com a notícia, ele deixa sua Curuguazú, uma cidade no interior argentino, sem dinheiro, meio de improviso. O livro é um equivalente a um road movie, em que o leitor viaja com Daniel e enfrenta os percalços das estrada. A chegada a Buenos Aires não é menos turbulenta, assim como o encontro com Sabrina Love. Mairal teve uma ótima ideia, mas faltou fôlego para desenvolver a trama. Soluções rápidas e não muito bem explicadas — como o rapaz que dá moradia a Daniel, que merecia mais espaço para marcar a relação com o herói — não tiram a força do romance. Apenas realçam que este é o primeiro livro e que nele já existia o talento para narrar e prender a atenção do leitor. O que sobra em “A Uruguaia” — vigor narrativo, técnica, construções bem desenvolvidas, trama amarrada, tudo em um romance também curto — são vislumbradas em “Uma Noite Com Sabrina Love”.

Mars Club

A editora Todavia vem fazendo um ótimo trabalho, com traduções de autores contemporâneos que arejam as prateleiras, com ousadia e boa percepção. Talvez tenha sido a editora que mais consumi em 2019, entre ficção e não ficção. Há obras fenomenais, como “Repórter” e a “A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver”. Mas também tombos — meus, que fique claro. Mars Club, de Rachel Kushner, é um desses fracassos pessoais. Cercado de elogios, me convenci de sua leitura assim que li a sinopse. Mas a história de Romy Hall, mulher que começa o livro no ônibus que a leva para uma prisão, me consumiu mais tempo do que precisava para chegar ao seu fim, pois não havia interesse e apego à trama. Prosa que começa fluida, acabou se tornando confusa e sem rumo. Há bons personagens periféricos, mas a espinha dorsal do romance — a relação de Romy, que fazia striptease no bar que dá título ao livro e deixou para trás um filho, com seus pais e seu passado — não entusiasma.

Meu Livro Violeta

Este é um livrinho lançado para marcar os 70 anos de Ian McEwan que reúne o conto Meu Livro Violeta e o libreto “Por Você”, escrito para a ópera de Michael Berkeley. O conto foi publicado pela The New Yorker em 2016 e chegou ao livro em 2018. Tratado como a história de um crime perfeito, no texto McEwan conta a história de dois amigos, Jocelyn e Parker, que estudaram e cresceram juntos até se tornarem escritores publicados. A vida adulta e cheia de compromissos separa os dois, que mantêm a relação viva ao longo dos anos, ainda que sem a presença constante. Até que Parker toma uma decisão que vai colocar em jogo o futuro dos dois. A construção do escritor inglês é densa e leva o leitor a mergulhar na história dos dois amigos com avidez. É um conto fechado, uma pequena pérola na bibliografia de McEwan. Já o libreto, confesso, não me entusiasmou, até porque não sou um leitor do gênero. Vale pelo conto.

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