Da biblioteca de casa: um passeio à noite me leva de Manguel a Pirandello

“Os livros dão uma identidade peculiar a um cômodo qualquer e são mesmo capazes de usurpar a identidade do proprietário – uma característica bem conhecida daquelas personalidades aparvalhadas que se deixam retratar à frente de uma parede coberta de livros, na esperança que lhe confiram algum lustro erudito. Sêneca zombava de leitores fanfarrões que confiavam obter prestígio intelectual com paredes assim; dizia-se a favor de um número reduzido de livros, e não das “prateleiras sem fim com que ignorantes decoram suas salas”.

Este é um techo de A Biblioteca à Noite (Companhia das Letras), delicioso livro de Alberto Manguel em que o autor franco-argentino se propõe a arrumar seus volumes no novo cômodo de sua casa. Enquanto passeia pela arrumação, puxa um livro aqui e relembra das suas leituras, escreve, com certa nostalgia, sobre Cervantes, Umberto Eco, Borges, Kipling, grandes e históricas bibliotecas.

Ao mesmo tempo, reflete sobre sua biblioteca, em passeios noturnos, no modelo que imaginava ideal. Propõe o diálogo ao leitor. Como neste trecho:

“Poderá uma biblioteca refletir uma pluralidade de identidades? Minha própria biblioteca — instalada numa aldeia francesa com a qual não tem vínculos visíveis e constituída de bibliotecas fragmentadas reunidas na Argentina, na Inglaterra, na Itália, na França, no Taiti e no Canadá no curso de uma vida peripatética — proclama um bom número de identidades díspares. Em certo sentido, sou o único cidadão desta biblioteca, e posso portanto afirmar meus laços com seu acervo. Mas muitos amigos também tiveram a sensação de que a identidade desta biblioteca díspar também lhes dizia respeito. Pode ser que, dada sua qualidade caleidoscópica, toda biblioteca, por mais pessoal que seja, ofereça a quem a explore um reflexo do que ele ou ela procure, um torturante momento de intuição de quem somos como leitores, um vislumbre dos aspectos mais secretos do eu.”

Quando entrevistei José Mindlin, um dos maiores bibliófilos brasileiros, pedi para que ele comentasse uma frase do livro de Manguel (“à noite os fantasmas têm voz na biblioteca”). Para Mindlin, “os livros crescem à noite em quantidade”, o que me parece a mais pura verdade, apesar de ele sublinhar de que se tratava de uma metáfora.

Por isso, sempre que entro na minha modesta biblioteca lembro de Manguel e dessa declaração de Mindlin. Porque nos deparamos muitas vezes com obras das quais não lembramos mais que repousavam nas prateleiras. Entre um corredor e outro, os encontros causam surpresas.

Na minha recentemente arrumada biblioteca, as surpresas, ainda bem, acontecem sempre. Porque neste mundo atual, nesta realidade brasileira, é reconfortante refletir sobre Manguel e Mindlin.

Parte da biblioteca de Alberto Manguel

Num desses passeios, parei na letra P. P de Poe, Piglia, Pavese, Plath, Proust. P de Pirandello. Puxei Um, Nenhum e Cem Mil (Cosac Naify), romance complexo do autor italiano que trata das reflexões que Vitangelo Moscarda passa a fazer após um comentário de sua mulher sobre seu nariz. Já tinha lido, mas só fui lembrar de sua existência quando o encontrei num passeio à noite.

Ao folhear suas páginas, me deparei com o desejo de ler mais Pirandello. Puxei então O Falecido Mattia Pascal (Nova Alexandria), obra fundamental da bibliografia do italiano e que ainda não havia lido. Edição caprichada da editora, com capa dura, tradução e posfácio esclarecedor de Francisco Degani.

O livro tem duas premissas, que Pirandello lança mão para ancorar seu romance. Um trata da identidade, que se apoia na única certeza do protagonista: “Eu me chamo Mattia Pascal”. É a deixa que leva o leitor a entender o questionamento constante do livro, pois saber o nome não necessariamente significa conhecer a si mesmo, como pontua o tradutor.

No romance, Pascal, em sua vida medíocre, encontra uma possibilidade de mudar o rumo. Sai de sua cidade e, ao retornar, percebe que pode dar novo destino por obra de um acaso.

A segunda premissa é a base filosófica do livro: “Maldito seja Copérnico”. Ao maldizer o matemático que descreveu a teoria do heliocentrismo, Pascal coloca em perspectiva sua vida, suas decisões. A existência humana, não mais centrada no homem e que exige uma capacidade de reagir e criar objetividade, leva Pascal a buscar nova identidade.

O romance encontrou o melhor momento para sair da prateleira, época em que nossas identidades, nossos desejos pelo país são colocados à prova. Ao atacar Copérnico, Pascal reforça a urgência de pensadores e cientistas, em como essas pessoas deram outra dimensão à vida humana. Pensadores e cientistas atacados por múltiplos meios por gente da pior espécie, terraplanistas e negacionistas que são incapazes de sobreviver a duas sinapses.

Convivo mais com minha biblioteca nestes dias, espécie de recreio entre uma mensagem de WhatsApp e um email – estas leituras aconteceram antes da quarentena, mas o texto só foi nascer no primeiro fim de semana do confinamento. Tiro e folheio alguns livros por dia, claro, longe, muito distante do alcance e da dimensão da biblioteca de Manguel e do próprio autor.

Aqui, o quarto transformado em biblioteca, uma quantidade indefinida de livros, me ajuda a passar estes dias.

Em “O Livro e os Dias” (Companhia das Letras), Manguel propõe outro jogo. Ele entrava em sua biblioteca, pegava um livro e comentava a quais caminhos cada obra o levava. Na entrevista que fiz com Manguel, lancei a pergunta:

Em “Os Livros e os Dias”, no capítulo dedicado a Machado de Assis, o senhor escreveu: “Ainda não sei a que livro as palavras de Machado de Assis vão me levar”. O senhor se lembra para onde foi depois?
As últimas páginas de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” me levaram para “The Following Story” [sem tradução para o português], de Cees Nooteboom.

Pois entro no jogo de Manguel. De Pirandello, fui a Kingsley Amis e seu “Lucky Jim”, que ficam para outro post.

Recomendo a leitura da entrevista que fiz com Manguel. De forma simpática e elegante, ele escreveu um verbete exclusivamente para o blog sobre a internet, quando questionado se a rede mundial teria lugar em seu “Dicionário de Lugares Imaginários”. No post da entrevista, também indico cinco livros de Manguel.

Boas leituras. E se cuidem.

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