“Sobre os Ossos dos Mortos”: direitos dos animais, religião, machismo, tudo envolto na prosa precisa de Olga Tokarczuk

Não sou um leitor influenciado pelo Prêmio Nobel de Literatura. Olhei a lista dos vencedores neste século 21 e, dos vencedores, talvez a leitura de Svetlana Aleksiévitch tenha sido motivada pela homenagem, mas desconfio que leria “Vozes de Tchernóbil” independentemente da vitória na Suécia.

Com Olga Tokarczuk, o caminho foi diferente. A autora polonesa, anunciada como vencedora no ano passado, cujo título se refere a 2018 — o Nobel não foi entregue naquele ano devido a denúncias de assédio sexual na Academia — me chamou a atenção logo que a editora Todavia anunciou a tradução de Sobre os Ossos dos Mortos, no momento da premiação.

O romance tem como mote os direitos dos animais, mas com um número de camadas capazes em transformá-lo num livro que discute filosofia, loucura e extremismo. Foi o que me motivou a ler, ainda que desconfiado. Optei pelo e-book.

Na selva congelada na fronteira entre Polônia e República Tcheca, Janina Duszejko vive reclusa em um vilarejo, cuidando das casas dos proprietários que se ausentam no período. É tratada como uma mulher excêntrica, que demonstra um interesse afetivo maior pelos animais do que por humanos.

Até que duas pessoas importantes da sociedade local são mortas em circunstâncias estranhas. A seu modo, ela se envolve na investigação.

A prosa da autora tem bom humor e perpassa temas como machismo com essa característica, descrito com precisão cirúrgica:

“A partir de certa idade, muitos homens desenvolvem autismo de testosterona, que se manifesta lentamente como uma deficiência de inteligência social e da habilidade de comunicação interpessoal que compromete a formulação de ideias. Um ser humano atacado por essa moléstia torna-se taciturno e parece imerso em seus pensamentos. Mostra-se mais interessado pelas diferentes ferramentas e maquinarias. Sente-se atraído pela Segunda Guerra Mundial e por biografias de pessoas famosas, geralmente de políticos e malfeitores. Sua capacidade de ler romances desaparece quase por completo, pois o autismo de testosterona interfere no seu entendimento psicológico dos personagens.”

Na segunda metade do livro, a prosa perde força, mas por poucas páginas. O fechamento é vertiginoso, não sem surpresas, tal qual um thriller, mas coerente com o roteiro da personagem principal e com a trama do romance.

Janina já é uma das grandes personagens da ficção deste século, uma mulher capaz de enxergar o mundo dominado por homens com brechas para superar o domínio macho. E Tokarczuk, uma rara contadora de história, que escreveu um romance que beira a fábula, é uma autora a ser lida — a editora deve lançar novos títulos da polonesa ainda neste ano.

“É preciso manter os olhos e ouvidos abertos, associar os fatos, enxergar a semelhança lá onde outros veem uma completa discrepância, lembrar que certos acontecimentos ocorrem em vários níveis ou, em outras palavras: muitos incidentes são aspectos do mesmo acontecimento. E que o mundo é uma grande rede, é um todo único, e não existe nada que esteja isolado. Cada fragmento do mundo, até o menor deles, está interligado com os outros através de um complexo cosmos de correspondências, onde uma mente simplória dificilmente penetra.”

“Veio ao meu quarto no meio da noite e ficou de cócoras junto da cama. Eu estava acordada.
— Está dormindo? — perguntou
— Você é religioso? — tive que fazer essa pergunta.
— Sim — respondeu com orgulho. — Sou ateu.

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