Nana Queiroz: “Mulheres devem pensar em jornada coletiva”

A jornalista Nana Queiroz tem voz ativa no feminismo brasileiro. O currículo, mais do que longo, é significativo. Ela criou o protesto Eu Não Mereço Ser Estuprada, esteve em listas de mulheres de destaques de várias publicações, inclusive do Think Olga. Colabora com inúmeras revistas e é repórter especial do site AzMinas, que ajudou a fundar.

Ela também participou da coletânea “Você Já É Feminista” (Martins Fontes, 2016), livro que reúne textos de mulheres que apresentam novas formas de feminismo.

Em “Presos que Menstruam” (Record, 2015), Nana Queiroz entrou em presídios femininos para mostrar a realidade que as mulheres enfrentam.

O interesse pelo tema surgiu em um jantar. Ela se encontrou com uma mulher que havia trabalhado a vida inteira no sistema carcerário feminino e contou várias histórias sobre esse período. “Me senti impressionada”, diz Nana Queiroz.

Ao chegar em casa, foi pesquisar. Conta que não encontrou nada sobre esse assunto. “A bibliografia da época era somente de prisões masculinas. Havia um silêncio que precisava ser quebrado.”

Era a centelha que faltava para Nana mergulhar no tema e desbravar o universo das prisões femininas. No livro, ela mantém distância das suas personagens e histórias, o que deixa o livro com uma fluência própria, sem interferência da narradora. O leitor tem então uma reportagem aprofundada, atenta a detalhes.

É a jornalista sensível ao tema e à situação das mulheres presas que emerge da reportagem, como uma narradora presente, observadora e que entrega seus olhos para que o leitor enxergue aquela realidade. “Fiz isso porque queria que as pessoas que nunca cometeram crimes se vissem através de meus olhos nesse mundo”, diz a autora.

Nana Queiroz conversou com o blog e falou de tomadas de direitos das mulheres. Ela também passa sua experiência para jornalistas mulheres que estão tentando emplacar reportagens e começando carreiras.

*****

Vários livros sobre prisão e prisioneiros foram escritos no Brasil. O que você buscou no seu livro, como planejou se diferenciar do que já existe?
Eu fiquei impressionada pelo fato de que ninguém nunca tivesse olhado para a prisão feminina, que é tão diferente, com tantas especificidades. Ninguém estava prestando atenção. Isso era uma violação de gênero por si só. Ninguém estava olhando para o sistema carcerário feminino.

Seu livro saiu antes do “Prisioneiras”, de Drauzio Varella, ambos com o mesmo tema e por grandes editoras. Mas o seu repercutiu menos, seu livro é mais difícil de ser encontrado nas livrarias físicas. A que você credita esse resultado?
O Drauzio já é renomado, com uma carreira produtiva e respeitável, com mais público. Eu era uma escritora iniciante de 20 e poucos anos. Acho que se deve a isso. “Presos que Menstruam” foi lançado há mais tempo também, mas teve uma distribuição boa [“Priosioneiras” saiu em 2017, dois anos depois do livro de Nana]. Agora, está na nona edição.

AzMinaMulheres da Periferia e Blogueiras Negras são alguns exemplos de iniciativas jornalísticas atuantes. Como avalia essas propostas?
As iniciativas de jornalismo de minoria representam um grito de ‘”chega!”. Do tipo: “não vou deixar mais que a imprensa generalizada me leia como quer e leia o mundo de uma maneira que não me representa”. Com essa tomada de direitos, é importante que venha uma tomada de narrativa, inclusive uma tomada de narrativa de “eu”, sabe? A narrativa de “eu” é muito importante. E essa disputa simbólica começa com a imprensa alternativa. E os movimentos de mulheres estão dando esse grito de liberdade agora. E é um grito muito importante na direção de tomada de outros direitos. E até para uma interpretação histórica de como seremos vistas pelas próximas gerações.

As jornalistas estão criando iniciativas que promovem colaboração e capacitação, como a IWMF e Chicas Poderosas. No Brasil, houve o movimento #DeixaElaTrabalhar. Como você avalia esse momento para a jornalista?
É um momento importante, de as jornalistas enxergarem o machismo dentro das Redações e começarem a lutar pelo fim desse preconceito. Isso é essencial para que a gente consiga mudar as Redações. Talvez tão importante quanto desenvolver um veículo alternativo é ter condições de conquistar os espaços tradicionais. Os alternativos ocupam um espaço delimitado, para pessoas que já estão desconstruídas e abertas para esse tipo de leitura do mundo. E é preciso que a gente chegue às massas, com essa nova narrativa de mulher, com esse novo entendimento do que significa ser mulher. E essas jornalistas estão tomando um espaço importante de ressignificação da mulher na imprensa.

O espaço da jornalista na grande mídia e mídia independente está crescendo? Você encontra dificuldade, portas fechadas para trabalhar como jornalista?
Depois que me tornei escritora e galguei esse caminho alternativo, não saberia dizer tão bem como está a situação das minhas colegas na imprensa tradicional. Imagino que difícil, como sempre foi. O assédio é generalizado, moral e sexual. Lembrando que as mulheres ainda são as primeiras vítimas de assédio moral, e que o jornalismo é um ambiente em que o assédio moral é generalizado, sim, a gente não pode negar isso. E os relatos que escuto são de que a situação continua ruim, que os promovidos geralmente são homens, que existem ainda muitas narrativas de que a mulher é menos capaz do que homens em determinadas áreas. A campanha #DeixaElaTrabalhar é um grito de socorro das mulheres que trabalham com esportes, por exemplo, que ficam ouvindo o tempo inteiro atitudes machistas afirmando que “esse lugar não é para vocês”, “que não é lugar para mulher”. Redação ainda é um ambiente bastante hostil.

Como enfrentar o machismo e o preconceito dentro de Redações e nas negociações de trabalhos? O que você sugere para mulheres jornalistas que estão tentando emplacar uma reportagem como freelancer, principalmente as que vão começar a carreira?
O que sugiro para essas mulheres é que elas não pensem que essa é uma jornada individual. Vai ser sempre uma jornada coletiva. Enquanto elas acharem que vão sempre conquistar com méritos próprios, vão quebrar a cara. Toda mulher que tenta conquistar com mérito próprio, deixando para trás outras mulheres, ela acaba enfrentando um barreira do chamado teto de vidro. Todo mundo finge que não existe, mas que existe no momento em que as mulheres sobem na carreira. E só umas poucas chegam lá. E aí surge a narrativa: “Mas a fulana conseguiu, né, veja bem”. Você acaba falando dessas pequenas exceções para se desculpar da regra. E isso é falso. Então, ela está jogando um bingo muito perigoso, em que a chance de ela perder é de 99%. A luta coletiva aumenta as chances de vitórias dentro do ambiente de trabalho, nas negociações salariais, do repensar da relação como funcionárias, na hora de pensar o assédio sexual dentro das empresas. Esse é o conselho que eu daria: pense coletivo.

*A entrevista foi publicada originalmente no blog do Brio

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