20 livros de não ficção escritos por mulheres

Não há necessidade de explicar muita coisa. As justificativas são claras: num país em que as mulheres jornalistas estão sob ataque, nada melhor do que destacar suas obras.

Fiz um recorte. Selecionei 20 obras de não ficção escritas por jornalistas, romancistas e artistas. Na lista, há reportagens, relatos memorialísticos, HQs e ensaios. Privilegiei os títulos traduzidos para o português.

Não é uma lista dos melhores, é um recorte. É possível ainda fazer uma segunda, terceira, quarta lista de livros de não ficção escritos por mulheres e já publicados aqui neste blog.

Então, vamos a esta lista.

1. Em Busca de um Final Feliz

Não se engane pela capa e pelo título em português — o título original é “Vida, Morte e Esperança no Submundo de Mumbai”. O livro da jornalista Katherine Boo é uma das grandes peças do gênero.

Ela investigou a vida de uma favela que fica próxima ao aeroporto internacional da cidade, erguida por migrantes que foram trabalhar no local e acabaram esquecidos. Boo, que tem passagens pela “The New Yorker” e “The Washington Post”, viveu três anos no assentamento para escrever “Em Busca de um Final Feliz” (Contexto).

2. Nada a Invejar

A jornalista Barbara Demick conta a história de seis norte-coreanos, que relataram como é a vida no fechado país asiático. Há histórias de amor, de culpa e, claro, de fuga. O trabalho de reportagem é forte e não deixa de lado as descrições que mostram como é a Coreia do Norte.

Com o subtítulo Vidas Comuns na Coreia do Norte, em “Nada a Invejar” (Companhia das Letras) Demick evita o jogo fácil da condenação e dá vida aos seus personagens. Assim como John Hersey fez em “Hiroshima”, sua inspiração declarada, a jornalista voltou aos seus personagens seis anos depois do início do seu trabalho. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

3. Vozes de Tchernóbil

Svetlana Aleksiévitch foi a primeira autora de não ficção a ganhar um Nobel de Literatura. Ao ler este livro, fica claro o motivo pelo qual o prêmio foi concedido.

Narrativa vigorosa e polifônica, “Vozes de Tchernóbil” (Companhia das Letras) trata da história do mais trágico acidente nuclear da história, que em 1986 destruiu parte da Ucrânia.

A escritora dá voz aos sobreviventes e àqueles que morreram na tragédia, por meio de memórias. O relato apurado é tocante, por vezes raivoso. O leitor é levado a mergulhar naquela realidade forçosamente e o resultado é uma leitura que martela na cabeça por semanas.

O que toda grande obra deve provocar.

4. As Meninas Ocultas de Cabul

A repórter Jenny Nordberg conta a história de meninas afegãs que são obrigadas a se vestirem e comportarem como garotos para que a família possa ser aceita pela comunidade. Por cinco anos, ela estudou os casos de crianças de 6 anos, chamadas de bacha posh.

“As Meninas Ocultas de Cabul” (Companhia das Letras) revela ainda um segundo trauma. Quando crescem, as meninas querem continuar a ser garotos, pois têm mais liberdade para brincar, andar na rua e se vestir.

5. Paralelo 10

Eliza Griswold constrói uma narrativa de limites. Paralelo 10 é uma linha imaginária que corta a África e ilhas do sudeste asiático e praticamente define uma fronteira entre cristianismo e islamismo.

Com essa premissa, a jornalista investiga os países que são cortados pela linha para entender como a religião moldou o desenvolvimento econômico e social desses lugares. Em “Paralelo 10” (Companhia das Letras), o choque de civilizações está retratado em entrevistas com senhores da guerra, líderes religiosos e sobreviventes.

6. Anatomia de um Julgamento

Janet Malcolm é uma autora a ser lida sempre. Talvez o livro a ser indicado fosse “O Jornalista e o Assassino”, bíblia do jornalismo, mas preferi nesta lista indicar outro. A escolha recai neste “Anatomia de um Julgamento” (Companhia das Letras), em que ela investiga o caso de uma mulher judia que vai ser julgada acusada de ter matado seu marido.

O que parecia ser um caso fácil e rápido para todos (imprensa, famílias, promotoria e juiz) se revela um tanto mais complexo quando Malcom levanta dúvidas sobre o processo e coloca em xeque o sistema judiciário dos Estados Unidos. Leia e releia.

7. Filme

Este é um clássico do jornalismo de não ficção, tão importante quanto o “A Sangue Frio”, de Truman Capote. Lillian Ross, estrela da “The New Yorker”, capta em “Filme” (Companhia das Letras) as filmagens da adaptação do livro “O Emblema Rubro da Coragem” (Stephen Crane).

O diretor John Huston foi acompanhado por quase dois anos. Ross esmiuçou todas as etapas da produção, da confecção do roteiro ao lançamento do filme. Com uma prosa elegante e observadora, ela relata os fatos com um rigor jornalístico que é mais do que necessário para o gênero.

8. Um de Nós

Este é o relato do atentado terrorista que aconteceu em 2011, na Noruega, quando 77 pessoas morreram após um rapaz desembarcar em uma ilha e massacrar um grupo de jovens que passavam o fim de semana no local.

A jornalista Åsne Seierstad entrega em “Um de Nós” (Record) seu melhor trabalho. Ela reconstitui o crime — as páginas de abertura são de uma realidade brutal —, mas também investiga quem era o jovem assassino e como foi possível que ele cometesse esse crime.

É um retrato profundo de um caso que chocou o mundo e um trabalho jornalístico de primeira qualidade.

9. Tahrir — Os Dias da Revolução no Egito

Alexandra Lucas Coelho talvez nunca tenha sido tão repórter como neste livro. A jornalista portuguesa estava divulgando um livro no México quando a revolução estourou no Egito.

Ela poderia ter se engajado na cobertura com o jornal onde trabalhava, mas Coelho fez diferente. Pediu licença e por conta própria viajou ao Cairo. Mais. Ela se juntou à multidão, longe de outros jornalistas e hotéis, para buscar o relato mais próximo possível da realidade.

“Tahrir” (Língua Geral) é curto, com pouco mais de 100 páginas que narram 18 dias daquele evento. Jornalismo bruto, quase idealista, e que capta um instantâneo da história moderna. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

10. Tudo ou Nada

Malu Gaspar investiga Eike Batista e destroi alguns mitos sobre o empreendedor. Na reportagem, ela conta como nasceu a farsa do Midas brasileiro e como o Império X desabou por conta de uma administração que parecia brincadeira de criança.

Das grandes reportagens produzidas no país, “Tudo ou Nada” (Record) é um documento fundamental para entender o Brasil recente. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

11. O Nascimento de Joicy

A jornalista Fabiana Moraes interessou-se pela história de Joicy, que nasceu homem e lutava para conseguir realizar a cirurgia de mudança de sexo em um hospital no Recife, mas não se limitou a fazer uma reportagem padrão.

Em “O Nascimento de Joicy” (Arquipélago), a jornalista traça o perfil da sua personagem, da origem pobre e inserida num ambiente preconceituoso àquele momento redefinidor. Coloca-se na história e discute os limites éticos da profissão — um pouco como Chico Felitti fez com a história do Fofão.

Ela então incorpora à reportagem disciplinas como sociologia, antropologia e filosofia para entender seu trabalho, suas reações e sua personagem. A história também virou um especial do Jornal do Commercio. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

12. Antenas da Floresta

A repórter Elvira Lobato escreveu um livro que ilumina o chamado Brasil profundo, aquele longe do interesse da mídia e que só surge em tragédias ou estudos sobre a floresta amazônica.

Em “Antenas da Floresta” (Objetiva), a jornalista viaja à Amazônia Legal para investigar o esquema de concessão de TVs e de propagação de canais em locais que não têm acesso à informação.

No meio da floresta, somente as parabólicas funcionam e são capazes de informar os moradores dessas vilas e cidades. Então, Lobato retrata como as licenças são negociadas e como os programas jornalísticos se tornam essenciais para moradores e para seus donos tentarem uma carreira política.

Além disso, joga luz no jornalismo local e como ele é essencial para as comunidades.

13. Lua de Mel em Kobane

Em meio à guerra na Síria, na disputa dos territórios curdos, Patricia Campos Mello descobriu uma história de amor. Em “Lua de Mel em Kobane” (Companhia das Letras), a repórter parte da premissa afetiva para relatar como esse conflito está redefinindo fronteiras no Oriente Médio.

Síria, Turquia e Iraque disputam não somente territórios, mas também tentam encaixotar os curdos, que, por sua vez, levantam resistência, como em Kobane. O jornalismo de guerra se vale de uma história de amor para mostrar como é possível encontrar personagens e contar como suas vidas se inserem em momentos críticos. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

14. Estação Terminal

Em 2012, uma composição ferroviária se chocou contra uma estação em Buenos Aires e deixou 51 mortos e 795 feridos. A jornalista Graciela Mochkofsky reconstrói a tragédia em um reportagem exemplar. Suas descrições são brutais, e o trabalho de investigação abrange todos os atores envolvidos.

A premissa de “Estação Terminal” (e-galáxia, somente em e-book) é o que fez este livro se tornar um clássico instantâneo. Em vez de se perguntar “por que o acidente ocorreu?”, a jornalista mudou o questionamento: “por que não acontecem mais acidentes?”.

Uma negativa que transforma toda uma história e entrega jornalismo de primeira. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

15. Holocausto Brasileiro

Daniela Arbex faz um trabalho de resgate da memória com uma reportagem sobre o manicômio de Barbacena. Por meio de um trabalho de investigação delicado, ela não só revisita as instalações, mas também os personagens que fizeram a história do local.

“Holocausto Brasileiro” (Geração Editorial) é o melhor trabalho de Arbex, que já lançou outros dois livros, bem inferiores a esse.

16. Garotas Mortas

A escritora Selva Almada revisita três crimes contra mulheres ocorridos nos anos 1980 na Argentina. Os casos não foram solucionados, e na época não se fazia referência ao feminicídio.

No interior do país, as informações eram confusas e esparsas. A Argentina vivia o fim do regime militar e enfrentava as três mortes sem o empenho necessário. Em “Garotas Mortas” (Todavia), Almada investiga os casos e emprega sua prosa literária para reabrir essas feridas. Leia aqui a entrevista que fiz com a autora.

17. A Face da Guerra

Correspondente de guerra no século 20 era homem e branco. Martha Gelhorn mudou a história ao cobrir vários conflitos na época, como a Guerra Civil espanhola, a Guerra do Vietnã e combates na América Central e no Oriente Médio.

“A Face da Guerra” (Objetiva) é uma coletânea de seus textos que trazem um olhar aguçado e um talento para observação raramente encontrado. Para ela, o campo de batalha não era tão importante. Gelhorn preferia contar as histórias das pessoas que viviam amedrontadas em suas casas. De certa forma, é um livro de guerra pacifista. E obra-prima do gênero.

18. Persépolis

Marjane Satrapi escreveu um clássico moderno da não ficção. O Irã que a escritora retratou em sua HQ era um país de conflitos internos, que caminhava para a ditadura religiosa enquanto ela tinha que enfrentar seus próprios dilemas.

O choque das culturas ocidental e oriental fizeram de Satrapi uma personagem única, combativa e questionadora. No Irã que iria se transformar num país de exceções, ser mulher somente multiplicava por mil seus problemas.

“Persépolis” (Companhia das Letras) é um relato memorialístico que finca o pé no jornalismo para tratar, em primeira pessoa, não só da sua conscientização política, mas também da posição da mulher na sociedade.

19. O Melhor que Podíamos Fazer

Na mesma linha de “Persépolis”, este “O Melhor Que Podíamos Fazer” (Nemo) revisita o Vietnã por meio da história familiar de Thi Bui. Ela traça sua árvore genealógica por meio dos conflitos enfrentados pelo país asiático, contra França e Estados Unidos.

A vida nas pequenas vilas e a regulação política imposta pelos comunistas forçaram sua família a deixar a Ásia e viajar aos EUA. Bui então reconstrói a vida de seus antepassados. No meio das lembranças, a guerra é uma personagem da HQ, que ganha contornos sombrios e críticos.

20. O Jogo das Andorinhas

Aqui, estamos no Líbano, durante a guerra civil dos anos 1980. Zeina Abirached é uma criança que vive com os pais no meio do conflito. Um certo dia, ela se vê sozinha em casa com seus irmãos durante um dos dias mais violentos da guerra.

Por meio de um recorte no tempo de poucas horas, Abirached refaz a história de vários personagens que se solidarizam com as crianças naquele apartamento e acaba contando um pouco dos costumes libaneses e da sensação de viver em guerra.

“O Jogo das Andorinhas” (Zarabatana) traz uma galeria de casos que identificam um país e escancara como a guerra molda tradições e culturas.

*Texto adaptado do post original publicado no blog do Brio

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