3 livros que buscam entendimento da trupe Bolsonaro

O Brasil governado pela trupe Bolsonaro é um país sem rumo. Fragmentado, raivoso, estúpido, burro mesmo, ignorante, racista, machista e mais um sem número de adjetivos. Claro está que a esquerda ainda não sabe o que fazer, perdida em meio a discussões pelas redes sociais, espaço tão bem dominado pelos asseclas do clã miliciano. Não há reação estratégica, a maior parte surge como simples retaliação ou lamentação.

Falta entender o que os move e como eles agem — se é que possível usar esse verbo para quem não sabe escrever, não constrói uma frase coerente com mais de dez palavras e ofende mulheres, nordestinos, negros, gays e doentes com piadas sem graça e rasteiras.

Falta compreensão. Claro que é preciso reagir quando um presidente da República reproduz uma ofensa de teor sexual contra as jornalistas Patrícia Campos Mello e Vera Magalhães. Mas também é preciso entender como eles pensam (sic).

Li em alguma rede social, talvez Twitter, algo que amplia o que já é consenso, de que Bolsonaro está sendo coerente com sua trupe de eleitores, pois faz exatamente o que prometeu e segue sua cartilha à risca. Ao comentar a agressão à jornalista da Folha, o autor do comentário disse algo nesta linha: Bolsonaro não ultrapassou limites. Ele está no seu campo de atuação. Quem ultrapassou limites foram seus eleitores, ao permitir que tal ser chegasse ao posto máximo.

Já indiquei alguns livros que ajudam a clarear o momento atual no Brasil e no mundo (aqui). Mas, ao contrário do que pregam os que estão no poder, cada vez chegam mais livros para dispersar essa névoa densa e tóxica. Ainda bem, pois seres como Bolsonaro e Weintraub não podem vencer.

Um deles vai à origem do presidente. O Cadete e o Capitão (Todavia) traz o subtítulo “A vida de Jair Bolsonaro no quartel”. A reportagem de Luiz Maklouf Carvalho investiga inquéritos e documentos para mostrar como o Exército lidou com Bolsonaro, depois que um plano de ataque a bomba na vila militar foi descoberto.

O Exército já havia suavizado para o então cadete 531, que tinha o apelido de Cavalão, quando ele foi à “Veja” pedir aumento à categoria. O julgamento foi favorável ao presidente por uma tecnicidade, o que abriu caminho para que ele entrasse na vida política.

O livro, por muitas vezes, tem um tom relatorial, o que cansa. Mas sua importância é superior, pois restrito a fatos e informações, sem cair para juízos de valor.

A ele, soma-se Tormenta (Companhia das Letras), escrito pela jornalista Thaís Oyama, ex-Veja. O subtítulo é enganador: O governo Bolsonaro, crises, intrigas e segredos. Passa a sensação de coisas articuladas, de estratégia, inteligência política. O que o livro mostra é que tudo sai na base do impulso, ancorado em teorias da conspiração absurdas e uma falta de espírito crítico que coloca em xeque a condução do país.

O livro foi desprezado por muita gente, antes de mesmo de ser lido. O motivo: o currículo de Oyama. A passagem pela “Veja” a marcou profundamente, e a esquerda que repete comportamentos da direita bolsonarista perde a chance de entender muito do que acontece no Planalto.

“Tormenta” tem seu maior mérito na capacidade de organizar a informação de um ano de governo. Traz bastidores, mas basicamente a linha geral dos fatos não é novidade. O que impacta é que, ao se reunirem em uma narrativa lógica, os fatos revelam a monstruosidade que governa o país. Claro que ela foi ofendida pelo presidente numa das famosas lives pelo Facebook: “A nossa imprensa tem medo da verdade. Deturpam o tempo todo. Mentem descaradamente. Trabalham contra a democracia, como o livro dessa japonesa, que eu não sei o que faz no Brasil”.

Bem, ela faz isso: livro. Que é leitura essencial.

Assim como Amanhã Vai Ser Maior (Planeta), da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado. O livro analisa as manifestações de 2013 e como o Brasil se desenrolou até as eleições de 2018.

Ao voltar cinco anos no tempo, Pinheiro-Machado, uma das vozes mais interessantes do Twitter (@_pinheira), constrói a estrada para se chegar à eleição mais raivosa do Brasil. As falhas políticas que culminaram nos protestos daquele junho, falhas de todos os espectros, não foram assimiladas e incorporadas nas estratégias de partidos e nomes políticos.

O livro enxerga os movimentos que geraram aquele mês de junho e como o rumo se distanciou do motivo inicial para um protesto sem norte e que tinha como um alvo a política de forma geral. Foi a senha para políticos de fora do grande eixo do Congresso emergisse, Bolsonaro entre eles.

Esse três livros ilustram como nasceu e sobrevive um fenômeno que a cada dia destrói um pedaço da dignidade do Brasil. Há muito o que ser feito.

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