Itamar Vieira Junior: “O Brasil de 2020 é um país anacrônico e em perigo”

Torto Arado foi o melhor romance que li em 2019 — e um dos melhores dos últimos anos. Lançado primeiro em Portugal e depois no Brasil, pela editora Todavia, o livro chegou na estreia do governo de Jair Bolsonaro, um período crítico e de poucas perspectivas para a cultura, liberdades e diálogos — além de ser uma época em que inteligência e pensamento crítico são artigos raros em Brasília e entre seus seguidores.

Voltando ao livro, “Torto Arado” chegou num momento em que o país mais precisava de vozes críticas, criativas e que olhassem para a história por meio de mecanismos que buscassem o entendimento do que ocorreu — e vem ocorrendo.

Itamar Vieira Junior, baiano, doutor em estudos étnicos e africanos pela Universidade Federal da Bahia, escreveu um romance que trata dessa história, quando narra a vida de uma comunidade que vive na Chapada Diamantina e produz para poder viver em casas de barro, uma forma moderna da escravidão. Mas também olha para a memória, família, misticismo.

O livro abre com uma cena que vai determinar todo o desenrolar da trama. Duas irmãs, Belonísia e Bibiana, encontram uma faca nos pertences da avó. Um ato marca o futuro de ambas, momento que une e as afasta ao mesmo tempo.

Elas são filhas de Zeca Chapéu Grande, espécie de líder espiritual da comunidade, toda apoiada no jarê, religião de matriz africana encerrada praticamente na região da Chapada.

A história acompanha o crescimento das filhas e como elas vão se relacionar com a estrutura onde nasceram, até chegar o momento do questionamento. A servidão e o pertencimento à terra se distanciam para tomar cada um o seu lugar de direito.

Itamar Jr entrega um romance que conversa com o leitor, muito bem escrito, em que a tomada de consciência e os confrontos são naturais e próprios da história.

Não por acaso cita Raduan Nassar na abertura do livro, trecho de “Lavoura Arcaica”: “A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo”. Esses são os elementos que fazem parte das 262 páginas de “Torto Arado”, que revela uma certa influência da prosa de Nassar, na forma como conduz suas ideias e alterna fluxos e diálogos.

Diálogos que não se destacam por recursos gráficos, inseridos no texto como parte da narrativa. Essa opção gerou uma fluidez ao mesmo tempo que busca na oralidade uma forma de representar uma tradição.

Livro que venceu o Prêmio LeYa em Portugal em 2018, “Torto Arado” conseguiu a visibilidade que precisava para chegar ao Brasil e se colocou como peça importante no enfrentamento à mesquinharia que toma conta desta época.

Torto Arado é um desses livro que ocupam os sonhos de qualquer editor. É um romance literariamente impecável, uma obra de ficção poderosa, com personagens bem-construídos e inesquecíveis, e uma visão original do nosso país. Um romance que passa uma sensação de que sempre esteve conosco”, diz Leandro Sarmatz, editor da Todavia.

Itamar Vieira Junior topou responder algumas perguntas feitas pelo blog. Ele fala de seu livro, da analogia feita com “Bacurau”, do Brasil de 2020. Para ele, o Brasil está “em perigo”, somos “anacrônicos”. “É um país que não reflete sobre a sua grande diversidade étnica e cultural”, diz o autor.

A conversa está a seguir.

*****

A história do seu livro começa em Portugal para depois chegar ao Brasil. Teve receio de que não houvesse espaço para “Torto Arado” aqui?
Pelo contrário, tive muito medo que não tivesse espaço para o livro em Portugal. Enquanto escrevia, contava a história para os brasileiros, pessoas que, como eu, desconheciam a permanência da servidão como forma de escravidão. Mas por falta de opção — eu não fazia parte do meio editorial, moro longe do centro do país — enviei os originais para o Prêmio LeYa, com a esperança de que o livro fosse lido e julgado por seus méritos. Em Portugal, o livro foi bem recebido pelo público e pela crítica. Houve uma identificação por parte dos portugueses, seja pelo nosso passado em comum ou pela história da servidão que foi uma realidade no campo do país antes da queda do salazarismo.

Você cita Raduan Nassar na abertura do livro. Qual a influência do escritor na sua formação e como seus livros se relacionam com “Torto Arado”?
Raduan Nassar é autor de uma obra curta, mas que deixou uma marca indelével na nossa literatura. Sua obra é inspiradora. A epígrafe do livro foi retirada de “Lavoura Arcaica” porque, apesar das diferenças na trama, há nos dois romances um núcleo em comum: as relações de uma família camponesa através da terra.

No livro, quase não há diálogos. Estamos lendo as narrativas de Bibiana, Belonísia e da entidade jarê. Como foi a construção dessa estrutura? Como chegou a ela?
A história seria contada apenas por uma das irmãs, Belonísia, foi assim que o livro começou. Em determinada altura da escrita senti que outras vozes insistiam em ter evidência na história. Daí veio a parte do livro contada por Bibiana, que se passa num tempo anterior ao que o livro narrava, e por fim a encantada do jarê, que é uma personagem longeva e pôde dar ao leitor a consciência da história, mostrando que ela nunca nos abandona. Mas há diálogos no romance, sim. É que estamos acostumados aos travessões e às aspas indicando o diálogo, e não o percebemos quando surge como oralidade, de forma orgânica no texto.

O escritor Itamar Vieira Junior

A língua tem alguns significados na história. Fisicamente, é determinante para a trama, com a cena inicial. E a palavra (língua falada) tem forte significado para seus personagens, como forma de entendimento, de relacionamento e de pertencimento. Como neste trecho: “Mas eu persistia e repetia as palavras mais duras, as que não gostamos de ouvir, para mim mesma (…) Não me furtava a dizer o que faria muitos correrem, temendo a virulência de uma língua”. Numa época em que há pouca compreensão do que se lê, como seu livro se encaixa nessa contexto?
“Torto Arado” tem forte inspiração na oralidade de um povo, essa literatura primeva que existe na mais remota sociedade. A estética do romance foi inspirada nessa oralidade e, por isso, a palavra falada, a língua, assume muitos significados. A sua ausência pode simbolizar os que não têm voz, mas não é determinante para destruir o sonho ou a imaginação dos que resistem.

Por que não identificar onde se passa a história do livro — apesar de ser possível entender que a história acontece na Chapada Diamantina?
Há muitas referências à Chapada Velha no livro, que é a região onde se iniciou a exploração do diamante na segunda metade do século 19. Há também referências aos rios Utinga e Santo Antônio, aos marimbus, e eles se encontram, todos juntos, no município de Lençóis. Mas isso tem pouca importância para a história. Eu queria que estivesse em evidência o drama humano, que não tem lar e pode ser vivido e compreendido em qualquer parte do mundo.

“Essa eleição mostra traços de uma sociedade doente e que é colonizadora de si mesma, que confunde o público com o privado, que glorifica o racismo estrutural.”

No livro, o gerente é uma espécie de capataz do século 21. Você já disse que a escravidão não acabou em 1888. “Torto Arado” se passa em uma comunidade tradicional, estrutura já ironizada pelo presidente da República. Que Brasil é este de 2020? É possível avançar e deixar para trás pensamentos arcaicos?
O Brasil de 2020 é um país anacrônico — sempre foi — e em perigo porque vive um sistema híbrido que nada mais é que um ataque à democracia pela via democrática, ou seja, um regime autocrático instaurado pelo voto. É um país que não reflete sobre a sua grande diversidade étnica e cultural, e o nosso maior exemplo, de como a sociedade ignora este país em profundidade, é que mesmo depois dos ataques racistas do então candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro foi eleito representando o pensamento mediano do brasileiro. Essa eleição mostra traços de uma sociedade doente e que é colonizadora de si mesma, que confunde o público com o privado, que glorifica o racismo estrutural. Mas para nossa sorte há um crescente movimento no sentido contrário, com a mobilização de organizações civis, com pautas difusas, mas que representam diversos segmentos da sociedade. Esses movimentos tendem a ganhar relevância, alguns já tiveram, e isso pode ser muito bom para sustentar a nossa diversidade, se contrapor ao regime vigente.

“Torto Arado” chegou primeiro que “Bacurau”, mas logo foram feitas comparações. O que você pensa sobre essas relações? 
É engraçado porque certa vez  li do Milan Kundera que o artista se antecipa no tempo, já que a literatura se debruça sobre a experiência humana e é  capaz de compreender o que está sendo vivido e pensado. Acho que essa pergunta está relacionada à resposta anterior. Não foi só em “Bacurau” e “Torto Arado” que vi essa ruptura na conciliação social, mas em “Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk, “Os Testamentos”, de Margaret Atwood, ou mesmo no filme “Parasita”, de Bong Joo-ho.

Seu livro foi lançado no primeiro ano de Jair Bolsonaro. Como você situa “Torto Arado” no contexto político atual?
O livro foi lançado em fevereiro de 2019 em Portugal e em agosto no Brasil, ou seja, o lançamento ocorreu pouco depois da posse de Jair Bolsonaro. Para mim, foi emblemático porque é uma história sobre um Brasil real e que não deve ser esquecido. O presidente da República representa um imenso retrocesso para as pautas camponesas, para aqueles que reivindicam a posse dos seus territórios. Mas esse problema é muito antigo, estrutural, não se instaurou agora. Não houve governo que o enfrentasse de forma digna, porque eram sempre apoiados pelas grandes corporações, donas de latifúndios, que concentram a riqueza e querem manter a qualquer custo essa desigualdade. Talvez por isso “Torto Arado” espelhe a luta dos que resistem mesmo quando não lhes resta nada.

Você tem uma carreira dedicada à academia, com doutorado em estudos étnicos. Qual é o cenário da universidade atualmente? Há perspectivas positivas?
Eu passei 17 anos na universidade como discente, da graduação ao doutorado, mas exerço funções técnicas no serviço público. Eu vejo a universidade sob ataque permanente, porque o governo, formado por essa claque obscura, resolveu atacar a liberdade de pensamento a qualquer custo. Todo projeto autoritário teme a liberdade de cátedra e pensamento. São mensageiros da pós-verdade. Há um projeto de destruição em curso, mas não será fácil, porque há um corpo de pesquisadores, professores e estudantes que não irão recuar e estão desde sempre lutando nas mais diversas situações por um ensino público e universal de qualidade.

*****

“As suas mãos doíam. Latejavam pelo resto do dia. Mergulhava-as numa panela com água e gelo, as deixava submersas. A pele se esgarçava em suas palmas vermelhas, calosas. Suas mãos sangravam. Você as escondia, nada dizia. Com as chagas do Senhor dos Passos crucificado. Como as mãos do seu povo. Como as mãos dos antepassados. Mãos que os ajudaram a sobreviver, que forjaram o alimento e encantos ao manejar folhas e movimentá-las pelo corpo necessitado. Mãos que forjaram a defesa e a justiça quando possível. A mão que o curador deixou na cabeça de seus filhos.

Com a força de suas mãos dilaceradas você apenas abria um caminho.”

“Mas eu persistia e repetia as palavras mais duras, as que não gostamos de ouvir, para mim mesma, nos caminhos que percorria sozinha e que com o passar do tempo foram se tornando mais frequentes. Não me furtava a dizer o que faria muitos correrem, temendo a virulência de uma língua. Eram palavras repetidas por minha voz deformada, estranha, carregada de rancor por muitas coisas, e que só fez crescer ao longo dos anos. Agora, com os maus-tratos de Tobias, elas se tornaram mais vis, eram gritadas por minhas ancestrais, por Donana, por minha mãe, pela avós que não conheci, e que chegavam a mim para que as repetisse com o horror de meus sons, e assim ganhassem os contornos tristes e inesquecíveis que me manteriam viva.”

“‘Que usura! Eles já ficam com o dinheiro da colheita do arroz e da cana.’ Poderiam muito bem comprar batata e feijão no armazém ou na feira da cidade. Nós é que não conseguíamos comprar nada, a não ser quando vendíamos a massa do buriti e o azeite de dendê, escapulindo dos limites da fazenda sem chamar a atenção. ‘Mas a terra é deles. A gente que não dê que nos mandam embora. Cospem e manda a gente sumir antes de secar o cuspo’ — alguém disse, num sentimento de deboche e indignação.”

Um comentário em “Itamar Vieira Junior: “O Brasil de 2020 é um país anacrônico e em perigo”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s