“Repórter”: ou as memórias de Seymour Hersh se tornam a nova bíblia do jornalismo

Repórter (Todavia) é daqueles livros que ajudam a entender como o jornalismo chegou ao ponto atual e o que falta para que saia dessa incômoda posição.

As memórias de Seymour M. Hersh percorrem um período do século 20 glorioso para o jornalismo — ainda que focado nos Estados Unidos, mas com repercussão mundial. E Hersh foi peça fundamental nessa história.

Em seu livro, ele narra os bastidores de sua carreira, do começo errático e turbulento até a consagração com reportagens clássicas e que se tornaram referência, como a do massacre de My Lai, no Vietnã, publicada pela revista The New Yorker em 1972.

Há pouco espaço para autocelebração, e Hersh prefere jogar aberto, sem mea culpa ou justificativas. Seus erros estão estampados nas páginas, e cabe ao leitor identificá-los e avaliá-los, sem que o autor precise conduzi-lo pelas mãos — não seria essa a função do jornalista?

De gênio nem sempre conciliador, Hersh enfrentou editores medrosos e fontes perigosas. Nada foi obstáculo para conduzir seu trabalho, apurar e escrever o que precisava ser revelado. Ele que passou pelas principais Redações dos EUA, como New York Times e The New Yorker. Sem se ater a grifes, procurava quem tinha coragem de publicar suas histórias, que não raro incomodava o poder.

Ao ler estas memórias, fica claro que falta ao jornalismo atual gente como Hersh — ainda que seja um clichê, mas é inevitável fazer essa comparação. Claro que há uma crise financeira que impede o surgimento ou estabelecimento de talentos como o do jornalista americano, mas também há uma covardia ancorada na falta de ousadia que faz com que a discussão em torno do jornalismo ande em círculo, sem conclusão: falta leitor e por isso falta dinheiro ou falta dinheiro e por isso falta leitor?

Discutir qualidade, formação, linha editorial, independência, inovação, isso fica sempre em segundo plano. Falta inteligência em boa parte das redações, reféns de fórmulas ultrapassadas e textos caça-cliques nas redes sociais.

Hersh é o oposto de tudo isso. Suas reportagens eram profundas, bem apuradas e tecnicamente perfeitas. Ele tinha faro, inteligência para entender o que estava escondido e habilidade para desvendar. Não se forma um Hersh apenas nas capengas faculdades de jornalismo — ele que tentou estudar Direito e Administração, sem sucesso, até cair em uma Redação e deslanchar como repórter.

Ler este “Repórter” permite a compreensão do que foram os Estados Unidos na metade final do século passado e de como seu trabalho serviu de farol para uma geração de jornalistas brasileiros que já deixaram de lado a profissão ou se acomodaram na cadeira de colunistas — talvez com exceção de Elio Gaspari.

Um jornalismo ativo, bem formado e estruturado é parte essencial de uma sociedade democrática. Este livro é prova disso.

Infelizmente, em português, só há duas traduções de livros de Hersh: “Cadeia de Comando”, sobre as torturas praticadas por militares no Iraque, e “O Lado Negro de Camelot”, um mergulho nos bastidores de John F. Kennedy, ambos fora de catálogo.

A editora, na época do lançamento destas memórias, selecionou algumas matérias produzidas por Hersh e disponíveis na rede. Reproduzo a seguir. Estão em inglês.

  • O massacre de My Lai, The New Yorker. Durante a Guerra do Vietnã, a reportagem revelou o assassinato de civis cometido pelo exército dos Estados Unidos. Rendeu ao jornalista o prêmio Pulitzer na categoria de melhor reportagem internacional.
  • Operações ilegais da CIA, The New York Times. Descortinou as atividades ilegais da CIA contra organizações pacifistas e outros movimentos políticos de oposição nos Estados Unidos, o que resultou na demissão de James Jesus Angleton, chefe da agência de inteligência.
  • O lado desumano da Guerra ao Terror, The New Yorker. Evidenciou o abuso de autoridade em Abu Ghraib, no Iraque, com fotos chocantes de militares americanos humilhando e torturando prisioneiros iraquianos.
  • A verdade sobre a morte de Osama bin Laden, London Review of Books. A reportagem revelou não apenas que oficiais paquistaneses foram informados da operação antes que ela acontecesse, como ainda atuaram em cooperação com os Estados Unidos. Suas fontes ainda apontaram que o terrorista mais procurado do mundo não estava escondido quando foi encontrado pelos soldados americanos, mas sim preso desde 2006.

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