Notas de Leitura 69

A Coisa Mais Próxima da Vida

James Wood é um dos principais críticos literários, e seus textos costumam ser claros e sem pedantismo. Neste “A Coisa Mais Próxima da Vida” (Sesi-SP, enviado pela editora), ele oscila entre memória e crítica para tratar da literatura e de seus favoritos. Nos quatro textos do livro, ele escreve a respeito da literatura de autores como Tchékov, De Quincey, Nabokov, entre outros, para inserir as obras desses escritores na sua formação e na sua vida.

Assim, a literatura ganha um fôlego raramente visto, ao se revelar tão presente em atos cotidianos e na compreensão do mundo.

O único problema do livro é ser curto demais. São pouco mais de 110 páginas, e o leitor merecia que Wood avançasse nas suas histórias.

“Ler romances é estar em constante movimento entre os modos secular e religioso, entre o que poderia ser chamado instância e forma. O impulso secular do romance vai na direção da expansão e extensão da vida; o romance é o grande operador das ações ordinárias. Expande as instâncias de nossa vida em cenas e detalhes; procura conduzi-las num ritmo próximo à vida real.”

Lake Success

Este talvez tenha sido a grande decepção do ano. Assim que foi anunciado pela editora, “Lake Success” (Todavia), de Gary Shteyngart, entrou na minha lista de compras. A sinopse me pegou de cara: um administrador de fundos bem sucedido larga tudo para entrar num ônibus Greyhound e cortar os Estados Unidos para revisitar seu passado. Enquanto isso, o país está prestes a eleger Donald Trump, e é esse cenário que o personagem principal vai encarar durante a viagem.

A trama prometia. Crise do capitalismo, ameaça de Trump, a América profunda revelada por um personagem avesso a esse cenário, o conjunto se destacava por ser um instantâneo de um momento decisivo para os EUA.

Pois a viagem se mostrou cansativa, sem rumo e sem vigor. A América profunda não emerge das páginas, Trump fica na superfície, a crise do capitalismo é um fiapo de argumento. Restaram a crise conjugal de Barry Cohen, traições e paixões adolescentes. Suas 442 páginas se revelaram um peso na mala, pois foi o livro escolhido para uma viagem.

Também os Brancos Sabem Dançar

Não tão decepcionante como “Lake Success”, este “Também os Brancos Sabem Dançar” (Todavia), do angolês Kalaf Epalonga entrega um pouco mais e exige mais do leitor. Também seduzido pela sinopse, fui com avidez à leitura, que avançou com muita dificuldade.

O livro reveza realidade e ficção. Um músico angolano, acompanhado de sua banda, chega à fronteira da Suécia e Noruega, como parte da turnê em que apresenta para o público europeu o kuduro, gênero musical que domina Luanda.

Fugido da guerra em Angola, o músico se exilou em Portugal. Na hora da passagem pela fronteira, é parado por tentativa de imigração ilegal. Estava sem documento e agora tem que enfrentar a polícia norueguesa.

O livro se divide em duas narrativas. A primeira desenvolve a trama do músico preso, e a segunda insere um ensaio sobre o kuduro e a música em Angola. Racismo, identidade, tradição, questões fundamentais para as duas estruturas se misturam e trazem um mosaico de influências culturais.

Epalanga, sucesso na última Flip, estreia no romance sem a fluidez necessária para transitar pelos gêneros narrativos. Em vários momentos, a leitura perde ritmo e trava, principalmente no primeiro terço. Depois, a prosa cresce e a parte final justifica o barulho em torno dele. Falta amadurecimento técnico, normal para um primeiro romance. De qualquer forma, o livro tem uma lufada de frescor criativo e indica um caminho promissor para o autor.

4 comentários em “Notas de Leitura 69

  1. Fiquei muito interessada no livro de James Wood. Gosto de livros e ler sobre livros, mas muitas vezes as críticas literárias são muito complexas, difíceis, e tão cheias de informações e referências outras que eu me sinto uma tremenda ignorante, que talvez eu não devesse ler livros, pois afinal de contas e nunca conseguiria apreciar determinada obra tão profundamente já que não tenho o conhecimento prévio de tais tais obras, autor, peça de teatro, o que seja. Era assim que eu me sentia lendo o jornal Rascunho.

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