Em “O Ano do Macaco”, Patti Smith mantém tom reflexivo, mas acrescenta angústia a suas memórias

Fiquei um mês sem ler. Não foi por falta de tempo, cansaço físico ou mental. Simplesmente, não conseguia segurar um livro e me concentrar. Tempo, tive de sobra. Tempo de espera, de aguardar em aeroportos, em casa, na cama, no trabalho, em corredores brancos. Tempo que não me permitiu ter cansaço, pois todos os sentidos ficaram despertos, em vigília constante.

A concentração me faltava, mas não era só isso. O silêncio me repelia das páginas. Só consegui ultrapassar as noites dessas quatro semanas acompanhado de maratonas de Seinfeld, a repetição que me dava conforto e deixava a mente, de certa forma, distendida.

Depois de um mês, entrei em uma livraria para comprar um livro. Eu tinha dois livros iniciados e abandonados na cabeceira, mas aquele momento, de retomada, precisava de algo novo.

Não sei porque escolhi O Ano do Macaco (Companhia das Letras), da Patti Smith. Mas não tive muitas dúvidas. E, em dois dias, ultrapassei todas as suas páginas.

Gosto do jeito que Patti Smith escreve e dos temas que escolhe. Suas memórias buscam no cotidiano o material necessário para relembrar. Seu texto é simples, mas sua prosa carrega uma densidade raramente encontrada em quem se envereda pelo caminho das memórias.

Foi assim em “Só Garotos” (Companhia das Letras), seu primeiro livro lançado no Brasil, que revisitava sua chegada a Nova York e o encontro com Robert Mappelthorpe. Em “Linha M” (Companhia das Letras), ela dá voz a uma espécie de diário pessoal. Suas idas a um café, séries policiais favoritas, seus autores preferidos e o desejo de comprar uma casa e se isolar são elementos que constroem uma estrutura potente — no post sobre o livro, destaco trechos e seleciono outros livros de memórias que valem a visita.

Este “O Ano do Macaco” traz a Patti Smith reflexiva, mas eleva a voz da angústia. Ao chegar aos 70 anos, ela se depara com três fatos que vão determinar suas andanças: a campanha presidencial americana em 2016 e a proximidade de perda de duas pessoas fundamentais em sua história, o produtor musical Sandy Pearlman e o escritor Sam Shepard.

Patti Smith viaja para fazer shows na passagem de 2015 para 2016, quando a onda conservadora e extremista começava a dar suas caras com mais vigor. Na Califórnia, hospeda-se em velhos hotéis, viaja a esmo e com pessoas que conhece em postos de combustíveis. Quer ocupar a mente para que o medo da perda não domine suas ações.

Enquanto narra suas pequenas viagens, ela encontra espaço para escrever sobre seus sonhos, o que dá ao livro um tom catártico. Entre cafés vazios em píeres e caronas com pessoas que a proíbem de falar, surgem divagações que se misturam a memórias literárias. Roberto Bolaño, Allen Ginsberg e Fernando Pessoa são personagens que a acompanham no seu ano do macaco, referência ao ciclo chinês.

Sobre Sandy, uma espécie de subtrama que acompanha quase todo o livro, a relação é uma mistura de distanciamento do futuro diante da perda. Ele está internado inconsciente em um hospital, e Patti Smith dá shows, viaja enquanto espera pela recuperação, algo que não acontece.

Já com Sam Shepard, ela adota um caminho de proximidade. Em suas visitas à casa do escritor, ajuda a consolidar o que seria o último livro do autor, “Aqui de Dentro (Estação Liberdade), obra que traz prefácio de Patti Smith. O carinho dedicado a ele não é escancarado, e aí está o grande mérito dela: dizer sem grandiloquência. Lê-se e percebe-se que o afeto está lá.

Ao terminar de ler “O Ano do Macaco”, escrevi um post nas redes sociais, reproduzido na abertura deste texto. Em seguida, comprei “Aqui de Dentro”, pois me parecia uma continuação emocional do livro da Patti Smith. Já “Devoção (Companhia das Letras), livro da autora que saiu simultaneamente a “O Ano do Macaco”, ficou para outro dia.

“A noite anterior à cerimônia de posse era de quarto crescente. Tentei ignorar o aperto na garganta, uma sensação de pavor que só ia aumentando. Queria poder dormir até que tudo tivesse acabado, um sono como o de Rip Van Winkle. De manhã, fui ao spa coreano na rua 32 e me sentei na sauna infravermelha por quase uma hora. Fiquei ali tossindo com um montinho de lenços gosmentos e pensei em Hermann Broch planejando mentalmente e em detalhes ‘A Morte de Virgílio’ enquanto estava confinado na prisão. Pensei no túmulo de Virgílio em Nápoles e em como ele não estava realmente ali porque as cinzas se perderam em circunstâncias misteriosas durante a Idade Média. Pensei nas palavras de Thomas Paine: Esses são os tempos que põem as almas dos homens à prova. Lá fora a chuva tinha parado, mas o vento forte continuou. E o que era verdade continuou sendo verdade. Era o último dia do Ano do Macaco e o galo dourado estava cantando, porque o insuportável vigarista de cabelo amarelo tinha feito o juramento, com nada mais nada menos do que uma Bíblia, e Moisés e Jesus e Buda e Maomé pareciam não ter nada a ver com aquilo.”

 

“— Boa noite, Patti Lee.
— Boa noite, Sam.

Fico ali deitada ouvindo o som da respiração dele. Não há cortinas e posso ver as silhuetas das árvores. A luz da lua ilumina as teias delicadas nos cantos do quarto e a beira da cama dele e a mesa baixa de café entre a gente cheia de livros e meus pés espreitando para fora da manta que me cobre. A imagem da noite eu vejo através dos acenos da janela. Sem conseguir dormir, me levanto e saio para tomar um ar, olhando as estrelas lá em cima e ouvindo os grilos e os sapos-boi a mil. Uso a lanterna do celular e volto ao jardim da casa. As borboletas negras estão ali, imóveis, cobrindo uma porção da saliência do muro do jardim, mas não sei dizer se estão fato mortas ou só dormindo.”

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