Notas de Leitura 68

O Rei das Sombras

Javier Cercas escreveu em “O Impostor” a história de um catalão que teria lutado na Guerra Civil Espanhola e que fora vítima do nazismo. Era uma farsa, como deixa claro o título do livro. Cercas, autor de “Soldados de Salamina”, pontua em praticamente todo o romance que carregava uma dúvida sobre se deveria escrever ou não sobre esse personagem.

Pois neste “O Rei das Sombras” (Biblioteca Azul) a premissa é a mesma. Desde o início, Cercas questiona se deve ou não retratar em livro a história de Manuel Mena, tio de sua mãe que lutou ao lado do Exército de Franco na Guerra Civil. Aqui, a dúvida é se valeria a pena recuperar um personagem familiar e colocar em xeque a motivação da sua participação no conflito.

É o mesmo recurso usado em “O Impostor”, a dúvida sobre escrever. Desnecessário. Se no livro anterior Cercas teve apoio do filho e de Mario Vargas Llosa para dar continuidade ao projeto, agora, o cineasta David Trueba é quem faz o contraponto.

A história está lá, bem documentada e escrita. Presta uma homenagem à mãe, ao recuperar esse passado. Mas o recurso utilizado acaba passando uma sensação de repetição. Faltou criatividade a Cercas, um autor que está construindo uma importante bibliografia sobre a história recente da Espanha.

Assombrações

O italiano Domenico Starnone se interessa por relações familiares e em como o cotidiano pode desmontar ilusões. Em “Laços”, ele promoveu um acerto de contas com o passado ao retratar a história de um casal que descobriu uma crise sem saber que ela existia.

Agora, em “Assombrações”, Starnone busca um contraponto geracional. Daniele Mallarico, avô de Mario, é chamado pela filha para cuidar da criança durante um período em que ela e o marido vão passar fora, em viagem de trabalho. Ele precisa sair de Milão e ir a Nápoles, convalescente e com uma encomenda para entregar. Ele é ilustrador e tem um livro que está sendo cobrado pelo editor.

Starnone deixa claro desde o início que vai conduzir o romance fazendo o contraponto geracional. Avô e neto vão buscar soluções para se entender durante o período em que estão sós. Ele, não muito presente na vida da criança, precisa aprender a lidar com Mario, de 4 anos, que tem uma vida independente em casa, como se fosse um jovem.

Desse conflito de idade, administrado muito bem pela criança e conduzido como uma forma de escape para Daniele, surge um romance morno, levado sem grandes surpresas pelo escritor. Se em “Laços” havia potência, com uma trama ancorada numa zona cinzenta, em “Assombrações” o leitor é conduzido pela mão do autor sem ser muito exigido. O que poderia ser uma boa discussão sobre a idade acabou traduzido numa viagem do avô à casa do neto — há valor nesse gancho, mas falta vigor.

Os Meninos de Nápoles

Roberto Saviano é um ótimo ensaísta e jornalista. Em “Zero Zero Zero”, escreve sobre o tráfico de cocaína no mundo, uma investigação profunda sobre essa economia. Antes, havia desmontado a máfia napolitana em “Gomorra”, o livro que o condenou à morte — ele vive protegido até hoje, ameaçado pelos mafiosos.

Em “Os Meninos de Nápoles” (Companhia das Letras), Saviano envereda pela ficção, claramente inspirada pelo seu trabalho jornalístico. Neste romance, o italiano conta a história de uma gangue de Nápoles, formada por jovens e adolescentes, que tenta alcançar alguma luz na estrutura mafiosa da cidade.

Abusados, os rapazes dessas paranzas (como são chamadas as gangues) gostem de roupas e tênis de marca, são ligados a videogames e redes sociais e carregam uma arrogância própria da idade, escoltada em armas poderosas. Tal como um “Cidade de Deus”, “Os Meninos de Nápoles” é o retrato de meninos sonhando com alguma relevância na vida, ainda que seja para ocupar uma posição na estrutura mafiosa.

Se a história é boa, a prosa fica aquém do que Saviano já entregou. Longe da estrutura narrativa de uma reportagem ou um ensaio, o escritor italiano encontra dificuldade para construir diálogos e deixar a história fluir com naturalidade. Faltam recursos ficcionais, principalmente em frases curtas e simplórias, que se unem a trechos mais longos sem dar sustentabilidade ao romance.

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