Mário Magalhães fala de “Sobre Lutas e Lágrimas”: “Entender o ano de 2018 é indispensável para superá-lo”

Mário Magalhães escreveu o livro que é o retrato do Brasil atual, instantâneo que ameaça avançar por anos e empurrar o país para um período de trevas. Esse retrato captado pelo jornalista encontra ressonância neste 2019, que se instala como um dos anos mais terríveis da história brasileira.

Sobre Lutas e Lágrimas — Uma Biografia de 2018 (Record) tem como complemento “O ano em que o Brasil flertou com o apocalipse”. Magalhães encontrou no ano passado um personagem que precisava ser revisitado, estudado, entendido. Tantos foram os fatos que percorrem os 365 dias que era impossível não recontá-lo. Não só pelos absurdos, mas também por três temas decisivos que permeiam as 320 páginas como também reverberam com violência até hoje.

O assassinato de Marielle Franco, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro são as bases da biografia de um ano que teve massacre de macacos motivado por mensagens de Whatsapp, paralisação de caminhoneiros, a ascensão da censura, as quedas de Neymar na Copa da Rússia, a maluquice da Ursal, o incêndio do Museu Nacional, o triunfo da extrema direita, entre outros.

Censura que assusta quando o prefeito do Rio de Janeiro atua para recolher uma HQ que tem como um das ilustrações um beijo dois super-heróis. No capítulo dedicado ao tema, Magalhães escreve: “A censura do século XXI parte tanto do Estado, em especial os Poderes Executivos e Judiciário, quanto de bolsos privados e intolerâncias particulares”. Ações autorizadas pela onda extremista que toma conta do país.

A imagem que motivou o ato extremista no Rio de Janeiro

A biografia teve como ponto de partida as colunas que Magalhães escreveu para o site The Intercept Brasil, que logo se transformaram nos capítulos do livros. À medida que o ano avançava, a história tomava corpo e começava a retratar um período cujas consequências ainda são incalculáveis.

Magalhães, autor de “Marighella — O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo” (Companhia das Letras), respondeu a cinco perguntas do blog. Estão a seguir.

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Como você chegou à ideia de uma biografia para 2018?
O conceito de ano-personagem é uma sacada do jornalista e escritor Zuenir Ventura, que em 1988 lançou seu livro clássico “1968: O Ano Que Não Terminou”. Dada a envergadura do objeto dele, Zuenir qualifica 1968 como ano-personagem. É o que eu fiz com 2018, que daqui a meio século será lembrado no Brasil como no ano passado recordamos 1968. Se o ano é personagem, o que eu escrevi é uma biografia.

Quando você percebeu que tinha um personagem em mãos e que as colunas do Intercept estavam tomando a direção de uma biografia?
Na noite infame de 14 de março, quando Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados. Antes, já havia numerosos indícios de que 2018 seria um ano de dimensão histórica maior. As mortes confirmaram a impressão, bem como a alucinante sucessão de fatos ocorridos até 31 de dezembro. Minhas colunas no Intercept Brasil já contavam, de alguma maneira, a semana. Passei a formatá-las como capítulos de livro. Porém, os capítulos mais longos e densos de “Sobre Lutas e Lágrimas” são inéditos. Também foram escritos no olho do torvelinho. A exceção é o capítulo de abertura, o prólogo, redigido no começo de 2019, mas com informações disponíveis somente até o fim de 2018.

A biografia tem vários assuntos, mas três acabam por se destacar: o assassinato de Marielle, a prisão de Lula e a campanha eleitoral. Em que ponto esses três temas se unem?
Em tudo. O livro tem três protagonistas: Marielle, Bolsonaro e Lula. Eles atravessam o ano, manifestam-se nas mais distintas circunstâncias. Jair Bolsonaro aparece não somente nos capítulos, digamos, eleitorais. Ele está no incêndio do Museu Nacional, pontificando sobre a tragédia. No capítulo sobre feminicídio, surge com mais declarações obscurantistas. E no da paralisação dos caminhoneiros, no da obsessão do autoproclamado filósofo pelo furico alheio etc. Quando Luiz Inácio Lula da Silva é condenado pela segunda instância da Justiça Federal, em janeiro, Marielle e Bolsonaro se manifestam. Quando ela é morta, Lula fala, e Bolsonaro cala. O que permite a vitória de Bolsonaro nas urnas é a proibição de Lula concorrer. No comício final do candidato Fernando Haddad no Rio de Janeiro, a memória de Marielle foi evocada, e os valores que ela defendia, ovacionados. Lula aparece até na Copa do Mundo, como comentarista. Marielle encarna a esperança no ano que começava, com seus planos de casamento e mais um filho, muitos sonhos. De alguma maneira, Marielle, Bolsonaro e Lula sintetizam a alma de 2018, representam o que o ano teve de mais generoso e mais egoísta.

Os três protagonistas de 2018

Passados oito meses desde o fim de 2018, como seu livro dialoga com o que vem acontecendo em 2019?
2019 é muito mais do que a continuidade cronológica de 2018; é a sua continuação existencial. A bola de tudo de mais importante que se passa no ano em curso estava cantada no ano anterior. O prólogo do livro, numa citação da obra de Zuenir Ventura, intitula-se “O ano que tão cedo não vai terminar”. A ideia é a seguinte: os acontecimentos de 2018 determinarão ou influenciarão a vida nacional por anos e décadas. É o que vemos hoje, e quem quis ver viu no ano passado. 

O prólogo do livro é “o ano que tão cedo não vai terminar”.  2018 foi o prólogo para um período maior, que pode durar quatro ou oito anos? O flerte com o apocalipse continua?
Algumas pessoas me perguntam por que um dos subtítulos de “Sobre lutas e lágrimas” é “O ano em que o Brasil flertou com o apocalipse” — o outro é “Uma biografia de 2018”. Indagam sobre a escolha do verbo flertar, pois consideram que houve consumação do apocalipse. Se isso tivesse ocorrido, seria o fim, a história teria acabado. E não acabou. O flerte sobrevive. O horror que ascendeu em 2018 é tamanho que seus efeitos não ficarão restritos a quatro ou oito anos, isto é, a um ou dois mandatos presidenciais de Bolsonaro. O estrago que está sendo feito na ciência terá impacto por décadas. Idem a devastação da Amazônia e o regresso de milhões de pessoas à pobreza. Toda a agenda ambiental do atual governo foi delineada no ano que tão cedo não vai terminar, como consta reiteradamente do livro. É pena, mas é isso: 2018 ainda tem muito chão pela frente. Entendê-lo é indispensável para superá-lo. Esse é um dos meus objetivos com “Sobre Lutas e Lágrimas”, além do maior, que é o de contar histórias e a história.

2 comentários em “Mário Magalhães fala de “Sobre Lutas e Lágrimas”: “Entender o ano de 2018 é indispensável para superá-lo”

  1. 2018 foi o ovo da serpente, que nasceu no ano seguinte. Impressionante como, olhando retrospectivamente, havia um movimento muito bem ensaiado para promover a chegada de Bolsonaro à Presidência. Vivemos o horror, o horror.

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