Notas de Leitura 67

Catálogo de perdas*

Em “O Museu da Inocência”, Orhan Pamuk conta a história de pequenas coleções que se transformam em memórias catalogadas. Histórias de amor e lembranças da Turquia ganham altares para serem revisitados em um livro que embaralha ficção e realidade. “Catálogo de Perdas” (Sesi-SP) se conecta com o livro do autor turco ao se inspirar no acervo do Museum of Broken Relationships, que fica na Croácia. O local reúne objetos enviados por pessoas do mundo inteiro que representam, de alguma forma, suas relações partidas. Pois o livro busca na perda seu sentido. As fotografias de Juliana Monteiro Carrascoza encontram amparo nos textos de João Anzanello Carrascoza. A cada objeto retratado, um texto tenta captar uma história. As imagens, sempre em preto e branco, muitas vezes embaçadas, reforçam a sensação de perda, enquanto o texto traduz a foto enevoada, num tom lírico que consegue se conectar com o leitor e suas próprias perdas. Ao imaginar dores, afetos e remorsos, o livro entrega um museu ficcional que poderia muito bem ser a história real de cada imagem.

Do Que Estamos Falando Quando Falamos De Estupro

“O estupro drena a luz.” Assim a jornalista indiana Sohaila Abdulali abre “Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Estupro” (Vestígio), livro que reúne histórias de mulheres que sofreram algum tipo de violência sexual, relatadas em entrevistas feitas pela autora. O ponto de partida é um artigo que ela escreveu para o The New York Times em 2013, em que descreve como foi seu processo de cura após sofrer um estupro coletivo aos 17 anos. O texto viralizou e a motivou a reunir esses casos. Ela dá voz a essas mulheres e analisa cada reação, como cada uma vem tentando superar a violência. Abdulali tenta encontrar respostas individuais, e encara depoimentos dos mais diversos, de mulheres que superaram rapidamente, de outras que vivem traumatizadas e de algumas que buscam soluções a cada dia. Um livro fundamental, assim como “Missoula”, de Jon Krakauer.

“Por que calamos? A resposta fácil é ‘por vergonha’, e com frequência a razão é essa mesmo. Acabamos achando que a falha foi nossa, por estarmos disponíveis ou vulneráveis, ou pela ingenuidade de não ter percebido a tempo. Em todo o mundo, nos culpamos, incapazes de considerar que foi outro ser humano que cometeu o crime. É mais fácil sentir-se envergonhada do que aceitar que alguém violou nossa intimidade da maneira mais perversa, e que não fomos capazes de fazer nada.”

A Honra Perdida de Katharina Blum

Publicado em 1974, “A Honra Perdida de Katharina Blum” (Carambaia) necessita de um clichê para ser definido: ele é mais atual do que nunca, neste momento em que campanhas difamatórias ganham redes sociais com fôlego incomum. Há mais de 40 anos, era por meio de jornais que alguém era colocado em xeque, sem, na maior parte das vezes, direito de defesa. Heinrich Böll passou por isso. Sofreu uma campanha violenta do jornal alemão Bild após ter defendido publicamente um julgamento justo para os líderes do grupo terrorista Baader-Meinhof. Ele sofreu ameaças de morte de leitores por conta da campanha do jornal, nada muito diferente do que acontece com alguém que se manifesta no Twitter. No livro, Bild é o JORNAL, diário sensacionalista que tenta ligar Katharina Blum, jovem que leva uma vida comum, a um suspeito de cometer vários crimes. A moça é “condenada” pelo jornal, numa campanha que avança por sua vida pessoal e familiar. Mais do que vítima de fake news, Blum é condenada sem direito a resposta, apenas por base de conjecturas. Basta um elo, por menor que seja, para que toda uma fantasia seja criada e uma vida, transformada. O livro é retrato fiel destes tempos.

* O livro foi enviado pela editora

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s