Jesús Cossio: “Muitos massacres não são conhecidos nem ensinados nas escolas”, diz o autor peruano da HQ “Sendero Luminoso”

O Sendero Luminoso, oficialmente Partido Comunista do Peru, foi uma das forças comumente chamadas de terroristas que tentou se impor na América Latina entre as décadas de 1960 e 1980. Assim como as Farc na Colômbia, os Montoneros na Argentina, Tupamoros no Uruguai, entre outras.

Fundado por Abimael Guzmán, chamado de Presidente Gonzalo, tentou impor o comunismo por meio da luta armada. Teve como inspiração as ideias de Mao Tsé-Tung.

Promoveu a guerrilha nas montanhas peruanas, ao atacar vilarejos pobres com camponeses indefesos, e travou conflitos sangrentos com o exército peruano. O grupo chegou a ter 15 mil guerrilheiros, e a Comissão da Verdade e Reconciliação do Peru estima que o conflito entre SL e forças oficiais matou aproximadamente 70 mil pessoas

Essa história está detalhada na HQ jornalística Sendero Luminoso — História de uma Guerra Suja (Veneta), escrita e desenhada por Jesús Cossio, Alfredo Villar e Luis Rossell. A edição brasileira reuniu em um único volume duas obras, “Rupay” e “Barbarie — Comics sobre Violencia”, que têm Cossio como ponto em comum.

No livro, os quadrinhos dividem espaço com textos que contextualizam cada capítulo, estrutura que amplia a percepção do leitor sobre os fatos que aterrorizaram o Peru naquele período. Massacres promovidos pelas forças do SL e governamentais não resultaram em mortes apenas dos dois exércitos, mas, principalmente, de milhares de camponeses, vítimas do conflito armado.

Essas cenas estão cruelmente ilustradas, um realismo que não vai à explicitude, mas é claro o suficiente para induzir a violência da época. O livro detalha as negociações com o governo e a forma como o Peru reagiu, uma tática que levou mais violência a inocentes.

Cossio conversou com o blog e falou sobre a pesquisa, a relação do Peru com o Sendero Luminoso atualmente e os impactos desse livros. Em um momento, o quadrinista relata que forças à direita tentam deslegitimar protestos sociais e ambientais ao relacioná-los com senderistas libertos.

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“O Sendero foi um movimento sanguinário e autoritário”

Como o Peru avalia o período retratado no livro?
De maneiras diferentes, de acordo com regiões, classes e gerações. Eu não ousaria dar uma visão geral do meu ponto de vista de Lima. É evidente que uma parte da imprensa, políticos partidários e um bom segmento da população (especialmente de Lima) minimizam ou negam os crimes cometidos pelas Forças da Ordem e relacionam as posições da esquerda com o Sendero Luminoso. Há até mesmo direitistas na opinião pública que atacam pessoas afetadas, parentes dos desaparecidos e ativistas de direitos humanos, acusando-os de ter ligações com “terroristas” (senderistas).

Os dois quadrinhos que foram reunidos na edição brasileira, “Rupay” e “Barbarie — Comics sobre Violencia”, têm um trabalho de pesquisa muito profundo. Como foi o processo de produção?
Eu faço uma diferença entre pesquisa e documentação. Acredito que fizemos mais o segundo que o primeiro. Nós documentamos por meio de pesquisas feitas por advogados, jornalistas, sociólogos, antropólogos, historiadores e, sem fazer uma versão literal, pela Comissão da Verdade e Reconciliação. A informação foi resumida e depois convertida em um roteiro literário geral. Em seguida, adaptamos para desenhos animados enquanto procuramos referências visuais da época.

Como foi a recepção do livro no Peru?
Não posso falar sobre todo o Peru, onde a distribuição de livros, ainda mais de quadrinhos, é muito precária. Ambos os livros não são best sellers, mas venderam moderadamente e foram reeditados, com boa distribuição em Lima.

Você recebeu alguma ameaça durante a pesquisa para o livro? Como os militares e o Sendero receberam os quadrinhos?
Não, eu não recebi ameaças, apenas alguns poucos ataques pela internet. Também não recebi  comentários diretos dos militares ou senderistas.

Como o Peru avalia, mais de 30 anos depois, o período de enfrentamento e o massacre dos camponeses?
Existe uma grande parcela de negacionistas e apologistas da ação militar. Muitos massacres não são conhecidos pela maioria da população nem ensinados nas escolas.

O Peru precisa falar sobre o Sendero? A sociedade está aberta para discutir esse período?
O Sendero Luminoso foi derrotado após a queda de seu líder, Abimael Guzmán, em 1992, juntamente com parte da cúpula de liderança. Como o Sendero foi um movimento autoritário com conotações messiânicas, a queda de Guzmán (o presidente Gonzalo) afetou severamente sua organização. Atualmente, há muitos senderistas presos e alguns começam a sair depois de cumprir sua pena, e isso faz com que certos grupos de opinião no Peru comecem a formar uma corrente macartista [referência ao senador Joseph McCarthy, que promoveu uma campanha de perseguição contra comunistas nos Estados Unidos na década de 1950] e alarmista. É bastante comum que, para deslegitimar e atacar os protestos sociais e ambientais, divulgue-se a ideia de que haja “terroristas” ou “senderistas” envolvidos.

Como o Sendero se encaixa no Peru atualmente?
O grupo é visto como uma ameaça latente, que atua em aliança com o tráfico de drogas. Além disso, como eu disse, estão usando o argumento de que o SL “está infiltrado” em alguns movimentos sociais para deslegitimá-los.

Qual foi a sua maior dificuldade que você teve na concepção da arte que ilustrou os violentos conflitos?
Meu olhar sobre a obra agora é mais crítico do que antes. Acho que a maior dificuldade, que não superamos, foi o risco de cair numa polarização de “dois inimigos com a população no meio”, uma simplificação do conflito armado interno e que é sentida em várias páginas.

Como você avalia o Sendero depois do livro?
Como um movimento sanguinário e autoritário. Essa imagem permanece em parte, mas também aprendi a ver que as motivações de muitas pessoas para fazer parte do SL eram diversas e o grau de envolvimento também variava.

O que mais o atraiu para a criação do livro?
A possibilidade de aprender mais sobre o processo de violência e poder contar aspectos pouco conhecidos pelo público. A questão do conflito armado interno no Peru é um dos tópicos em que, quanto mais se lê, mais se percebe que ainda há muito o que aprender e entender.

Os dois livros reunidos na edição brasileira se encaixam no que hoje é chamado de jornalismo em quadrinhos. Esse é um gênero que ainda tem uma referência em Joe Sacco, mas muitos autores estão explorando essa plataforma, como o italiano Zerocalcare, o chinês Li Kunwu, o libanês Riad Satttouf e os canadenses Kate Evans e Guy Delisle. Como você vê esse gênero? E quais são suas influências?
Conheço apenas o trabalho de Sacco e Deslile. É um gênero muito interessante, mas, como quase toda arte, há bons e maus exemplos. É um gênero que pode oferecer uma visão muito rica da vida real, especialmente porque permite reconstruir momentos com detalhes e amplitude de testemunhos. Minha principal influência é Joe Sacco, é claro, como quase todo mundo que fez algo no gênero.

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2 comentários em “Jesús Cossio: “Muitos massacres não são conhecidos nem ensinados nas escolas”, diz o autor peruano da HQ “Sendero Luminoso”

  1. Oi, Ricardo! Lembrei do seu blog, vim fazer uma visita, que legal saber que continua vivo e adiante. E as HQs estão com tudo — ainda não entrei nesse mundo. Gostei também do que você pensa sobre os livros da Svetlana (abandonei o ‘Vozes de Tchernobil’ nas primeiras cem páginas, achei aquilo um bolo de liquidificador). Inté!

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