Jeff Lemire faz de “Condado de Essex” uma HQ de rara sensibilidade

Jeff Lemire é considerado um dos melhores autores de HQs da atualidade. Já escrevi sobre ele e sua poderosa “Nada a Perder”, mas me faltava ter contato com sua obra máxima.

Condado de Essex (Mino) é uma HQ de extrema sensibilidade. Lemire consegue imprimir em traços relativamente simples, sem grande sofisticação, um leque de emoções que saltam das páginas como força bruta.

O livro é uma trilogia formada por histórias que se cruzam em pontos tênues, mas que fazem o elo necessário para o entendimento completo. Evoca sua infância vivida em Essex e traz a imensidão como um personagem importante, assim como em “Nada a Perder”.

Em “Contos da Fazenda”, um garoto órfão vive com o tio em uma fazendo nos infinitos do Canadá. Cria ilusões ao comprar quadrinhos e se veste com máscara e capa. O tio, muitas vezes, é rígido, mas mostra um carinho que seu rosto não consegue esconder. Rosto maltratado pela vida, tão bem ilustrado por Lemire, que imprime expressões com poucas mudanças de traços.

Um misterioso personagem aparece para estimular a imaginação do garoto e transformar sua vida.

Em “Histórias de Fantasmas”, um idoso mora sozinho e recebe a atenção de uma enfermeira. Já com a memória falhando, ele perambula por sua fazenda e começa a reunir cacos de sua história em lembranças esparsas, soltas, que se unem no final do capítulo.

Na terceira parte, “Enfermeira do Interior”, o leitor encara a história da cuidadora do idoso. É o capítulo que une as pontas.

“Condado de Essex” é uma obra tocante. Quando emociona, faz sem pieguice e sem impor caminhos na cabeça do leitor. Apresenta visões sobre o passar do tempo, oportunidades deixadas para trás, afetos e chances de redenção — algo que Lemire aprofunda em “Nada a Temer”.

Ele discute solidão, a amargura que a vida imprime nas relações que construimos, amparando-se na história de uma comunidade que divide espaço com essas sensações. Isolada, a Essex de Lemire encontra em heroísmos infantis, sonhos quebrados e altruísmos involuntários uma forma de se manter ao longo dos anos.

Leia. Releia. Dê de presente para quem você gosta e também para quem você não gosta. “Condado de Essex” é uma obra que precisa ser descoberta.

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