Dois livros mostram que há caminhos para o jornalismo brasileiro

Dois livros mostram que para fazer bom jornalismo basta prestar atenção ao que está ao redor. Esse radar, quando afiado, consegue identificar histórias que, em um primeiro momento, podem chocar e produzir um espanto, para logo depois cair no esquecimento. Mas o bom repórter, o jornalista atento percebe além. Consegue encontrar desdobramentos que vão além dos fatos. E o que era único acaba por se tornar universal.

Vitor Hugo Brandalise chegou a esse patamar quando viu uma notícia no jornal. Tal como Capote, que encontrou em uma nota o caminho para transformá-lo no maior exemplo da não ficção, com “A Sangue Frio”. Claro, não cabe aqui uma comparação, este é apenas um modo que se repetiu no caso do jornalista brasileiro.

Aquela pequena notícia se tornou uma peça rara neste jornalismo brasileiro que corre atrás do rabo, sem encontrar caminhos próprios — virou obrigação checar fatos deste governo desencontrado, e com isso os jornais murcharam, há pouco espaço para boas histórias, o que levou à dispersão de talentos.

Primeiro, Brandalise publicou no Brio, uma iniciativa jornalística que produzia reportagens long form para plataformas digitais. Saiu como Sobre a Sede. A história é fantástica e teve uma segunda versão no Estadão, onde o repórter trabalha.

Mas o texto e o formato pediam uma plataforma mais adequada, o livro. Acabou se transformando em O Último Abraço (Record). Brandalise conta a história de Nelson, que em um domingo resolve dar um fim à sua vida e da sua mulher, Neusa, internada numa clínica e sem mais esperanças. O método: uma bomba depositada no peito dela.

Ele deita sobre ela e espera a morte, que só chega para a mulher. O subtítulo do livro indica o caminho para o qual a história aponta, além do trágico fim: “uma história sobre eutanásia no Brasil”. Pois foi assim que Nelson classificou seu ato, de eutanásia.

O livro narra a história do casal e avança para o debate sobre a eutanásia. Não há romantismo nem defesa de tese. Há fatos, uma narrativa sólida e bem construída, com técnicas de ficção. Coisa rara no jornalismo brasileiro atual.

Nelson e Neusa, em foto de arquivo

Como perder peso em uma banheira de motel

Um pouco abaixo da qualidade do livro de Brandalise está A Grande Luta (Todavia), de Adriano Wilkson.

Assim como em “O Último Abraço”, o que o jornalista esportivo entrega é outra grande história. Ele acompanha Acácio Pequeno, lutador de MMA, por um ano. Esse recorte de tempo é preenchido por múltiplas vozes e outros atores, também lutadores.

O que Wilkson traz de diferente é o bastidor, certamente desconhecido para quem não acompanha esse tipo de luta.

A abertura do livro é impactante. Em sete páginas, ele retrata como um grupo de homens entra em um motel para que o lutador perca alguns quilos antes de ir para a pesagem oficial de uma luta. São 2,7 kg que precisam sumir em cinco horas.

Sem beber água havia horas, ele passou por uma rotina massacrante. Mergulhou na banheira de hidromassagem superaquecida para fazer o corpo suar, ou seja, eliminar todo o possível de água. A forma como o jornalista encontrou para descrever prende o leitor e gera suspense, provocado pela surpresa desse tipo de solução.

E não acaba aí. Após conseguir desidratar e perder os quilos necessários, ele passa pela pesagem e vai para outra sessão, desta vez, de engorda. Ele vai ganhar peso rapidamente — alguns, engordam 10 kg em pouco menos de 24 horas.

O livro descreve o caminho de Acácio para a luta, o sonho de se tornar um lutador do UFC — o auge. E avança pela história de outros lutadores, que passam pelos mesmos sacrifícios.

 

“A Grande Luta” perde em qualidade quando o autor envereda pelo caminho da primeira pessoa. Chega a dar opinião, o que enfraquece o resultado. É uma intromissão que destoa do ritmo, divide a atenção do leitor. Em um momento, ele até se questiona, quando faz referência a Norman Mailer e seu excepcional “A Luta”, que trata da luta de Mohammad Ali e George Foreman, que aconteceu em 1974, no Zaire.

Incomparável, mas abre perspectiva para que Wilkson possa crescer e deixar de lado uma mania de autores brasileiros: escrever em primeira pessoa sem ter o domínio da técnica — já falei sobre isso em uma coluna neste blog.

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