Mais um livro de Svetlana Aleksiévitch, e o impacto se perde em meio à polifonia repetida

Li os três livros de Svetlana Aleksiévitch lançados no Brasil, todos comentados neste blog — os links aparecem no fim deste texto.

Agora, chegou a quarta obra em português, As Últimas Testemunhas, com o subtítulo “Crianças na Segunda Guerra Mundial” — assim como todos os livros anteriores, lançado pela Companhia das Letras.

Neste, a escritora e vencedora do Nobel de Literatura de 2015 recupera histórias de pessoas que eram crianças na época do conflito. Homens e mulheres revisitam as memórias e relatam os horrores, dramas e violência, presenciados por quem tinha no máximo 12 anos — há lembranças de quem viveu o horror aos 4 anos.

A distância provoca um grau de interpretação nessas memórias. Afinal, como reproduzir diálogos de quem era uma criança em 1940, vivendo um momento de pressão e assustador? O leitor há de ter uma certa complacência para percorrer o livro e se envolver.

O que não é difícil. A autora, como nos livros anteriores, capta os relatos e os transforma em algo fluente. As histórias são chocantes e não há como relevar a importância de uma obra como esta.

Mas a questão que se impõe, passados quatro livros, é outra. Surgiu logo que ela venceu o Nobel e vez ou outra ainda é discutida. Seu texto tem pouco de autoral. O que é próprio dela é o formato, a capacidade de encontrar histórias certas para um determinado assunto e encaixá-las num roteiro muito bem pensado.

Não há assinatura, prosa autoral, recursos estilísticos. Estamos lendo o que seus personagens relataram, talvez com alguma intervenção para transformar o relato bruto num texto fluente.

Você abra na primeira página, pula para a centésima e vai para o fim, sem qualquer perda. Volta, abre em qualquer página e o livro se mantém de pé.

É importante ressaltar que seu trabalho como entrevistadora é fenomenal. Aleksiévitch consegue revolver memórias de 60 anos de pessoas que passaram por um trauma quando crianças — assim como fez nos outros livros.

Acompanhar o processo de entrevista deve ser algo recompensador, entender como ela trabalha, como se aproxima do seu personagem e conduz a conversa.

Seus livros já não encontram o mesmo espaço desde sua estreia em português — apesar do peso dramático de seus temas. Não só esse espaço diminuiu em três anos como também, acredito, já se perdeu o interesse por seus livros. Sabemos o que encontrar, não há surpresa.

Claro, não me refiro ao tema, ao conteúdo, mas sim à forma — o relato polifônico, apenas reproduzido sem qualquer intervenção da autora. Como documento histórico, “As Últimas Testemunhas” tem um papel fundamental para entender não só a guerra, mas seus transtornos e consequências.

Como obra literária, não acrescenta. Svetlana Aleksiévitch escreveu e reescreve seus livros. Não sou capaz de dizer que ela é uma boa escritora. Mas certamente é uma ótima jornalista.

*****

Livros de Svetlana Aleksiévitch comentados no blog:

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2 comentários em “Mais um livro de Svetlana Aleksiévitch, e o impacto se perde em meio à polifonia repetida

  1. Boa análise Ricardo. Só li o Vozes de Tchernóbil, não li os demais, mas confesso que não adentrei nos demais justamente por ter a sensação de que encontraria um formato parecido. Como você disse, apesar dessa repetição, o valor do trabalho dela merece reconhecimento.

    Curtido por 1 pessoa

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