Chico Felitti fala da reportagem e do livro sobre o Fofão da Augusta : “Eu estava lá só para ver e ouvir”

Dificilmente você não deve ter lido ou conhecido alguém que leu uma longa reportagem que varreu a internet e as redes sociais em 2017. Numa noite de outubro, uma sexta-feira, um texto de mais de 10 mil palavras, cerca de 60 páginas de documento de word, viralizou como um meme. Algo impensável, num contexto em que gifs, imagens com frases de efeito e mensagens que não ultrapassam 20 segundos da atenção do navegante são os preferidos — se o conteúdo for áudio e vídeo, melhor.

Chamado no jargão jornalístico de long form, o texto “Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece” foi publicado no Buzzfeed News por Chico Felitti, repórter com passagens pela Folha.

Ganhou Facebook e Twitter e outras plataformas em que a contagem não é possível de ser feita, como WhatsApp. Aquele fim de semana foi tomado por comentários sobre a reportagem, um longo perfil de um personagem conhecido em São Paulo.

Fofão da Augusta era o apelido que ele ganhou contra sua vontade, por força dos litros de silicone injetados em seu rosto que fizeram suas bochechas derreterem. A semelhança com o personagem do extinto Balão Mágico impressionava e o apelido era praticamente inevitável.

Ele frequentava a região da rua Augusta, em São Paulo. Era visto à noite, distribuindo flyers. Sua figura impressionava (cruzei algumas vezes com ele e, sem saber, o associava imediatamente ao personagem da TV). Por vezes, estava irritado, pois era provocado por muita gente. Em outras vezes, passava calmamente, mas nunca sem chamar a atenção e provocar desvios de olhares e sussurros.

Felitti era daqueles que conhecia o Fofão. Queria conversar, entrevistá-lo. A chance veio num acaso, na Páscoa de 2017. A história foi toda narrada na reportagem do Buzzfeed. Nela, descobrimos que o nome daquele homem era Ricardo Côrrea da Silva, portador de uma vida que gritava para ser contada.

O repórter ganhou o Prêmio Petrobras de Jornalismo e transformou a matéria digital em livro, publicado pela Todavia. Na obra, Ricardo ganhou um parceiro, alguém importante em sua vida, mas que não tinha aparecido no texto original. Felitti viajou a Paris para conhecer Vânia, amor de Ricardo, que também tem uma história incrível.

Os dois tomaram a capa e o livro, que pega a reportagem original e a encorpa. Refaz os passos de Ricardo, de sua família, tradicional em Araraquara (interior de SP), e de Vânia. Felitti contou com o apoio de sua mãe, que já era uma peça importante desde o perfil para o Buzzfeed — ela é Isabel Dias, autora de “32: Um Homem para Cada Ano que Passei Com Você” (Da Boa Prosa).

Ricardo não viu o livro pronto. Ele morreu em dezembro de 2018, vítima de uma parada cardíaca.

Chico Felitti deu a seguinte entrevista para o Capítulo Dois.

Uma das últimas fotos de Ricardo

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“Foi insistência e sorte”

Sua reportagem foi publicada há quase dois anos. Como ela transformou sua vida e a de Ricardo?
A mudança na vida do Ricardo foi imediata, acho. A matéria foi publicada na noite de uma sexta-feira. Na manhã do sábado, estávamos juntos, andando pelas ruas do Centro e de Higienópolis e pessoas começaram a chamá-lo pelo nome, que até então ninguém sabia. Pediam para tirar selfie, davam dinheiro. Ele morreu dois meses depois, mas, mesmo na última internação dele, no Hospital Mandaqui, algo tinha mudado. Ele deu entrada sem documento nenhum, mas a equipe do hospital sabia seu nome e o usava. Ele era chamado de Ricardo lá dentro.

Por que acha que conseguiu entrevistar o Ricardo?
Foi insistência e sorte. Fiquei 13 anos pedindo entrevista para ele quando nos cruzávamos pelo centro de São Paulo. E ele sempre declinou educadamente. Daí, num domingo de Páscoa, uma desconhecida vem me avisar pelo Facebook que ele estava internado no Hospital das Clínicas. Eu vou, acompanhado pela minha mãe, com quem estava almoçando, e ele nos recebe como velhos amigos. Não sei o que aconteceu ali e nunca vou saber. Mas sei que ele se encantou com a Isabel, a minha mãe, e desse momento em diante se abriu.

Eu cruzei com Ricardo inúmeras vezes, na época em que eu morava em SP. Nunca o conheci pelo nome, mas sempre pelo apelido. Nunca o vi também de forma agressiva, mas percebia a repulsa que ele causava em várias ocasiões. Você conta que recebeu inúmeras mensagens de pessoas que encontraram com ele em algum momento. Houve ataques de ódio também?
Eu conto nos dedos as mensagens negativas. Uma pessoa veio cobrar que eu deveria ter contado casos como o ocorrido com ela: narrava que o Ricardo tinha ameaçado se cortar e espirrar seu sangue na cara dela, caso não desse dinheiro. Mas, como eu não tinha ouvido essa história durante a apuração, nem tinha como ter incluído ela no texto. Mas a maioria massacrante das mensagens (foram mais de 5.000 só no Facebook) era de gente contando histórias com ternura de encontros com ele.

Você assume a primeira pessoa e se coloca como personagem. Ao mesmo tempo, opta pelo distanciamento, por exemplo, ao chamar sua mãe pelo nome dela. Como foi a construção da estrutura da reportagem e como chegou a esse formato?
Foi uma imposição. Eu não conseguia pensar no texto em outro formato. Acho que ficaria mal ajambrado. Eu não podia omitir informações. Por exemplo, não dava para dizer que a certidão de nascimento do Ricardo se materializou no Hospital das Clínicas, quando fui eu que viajei até Araraquara e passei em vários cartórios até encontrar esse documento. Era o único jeito de contar a história inteira, sem enganar o leitor. O distanciamento de chamar a minha mãe de Isabel eu coloco metade na conta de sinonímia, de me referir a ela com outros nomes, e metade numa vergonhazinha de ter levado minha mãe na apuração, hahaha.

Como Vânia entrou no seu radar e se configurou como uma personagem do livro? 
De novo, foi um caso raro em que o peixe pula dentro do barco. A Alexandra Barthes, uma pernambucana radicada em Paris, me escreveu um dia dizendo que tinha lido a matéria e gostado. Uns dias depois, voltou com a mensagem: “Ah, e eu conheço a bicha de Paris”. Eu perguntei: “A bicha de Paris é o Vagner, imagino”. E ela explicou que o Vagner, que namorou o Ricardo por oito anos, tinha ido para Paris no fim da década de 1980, meio fugindo da relação. E que lá tinha se identificado como mulher trans, feito a transição e mudado de nome meia dúzia de vezes. Daí fui apresentado para a Vânia e fiquei de boca aberta com a riqueza da vida dela. Quando ela me contou que tinha revolucionado o mercado de sexo na França com essa técnica de mudar de nome e de identidade, de quando em quando, fiquei convencido de que a história dela merecia ser contada. E o livro é a junção da história dos dois e de mais dezenas de pessoas.

Ricardo e Vânia, em foto que consta no caderno do livro

E o que o levou a pensar no livro como sendo dos dois? Não era possível fazer um livro apenas sobre Ricardo? Você quis evitar o caminho de uma biografia?
Quando a matéria original, sobre o Ricardo, foi publicada, eu não queria escrever mais nada sobre o assunto. Achava que a história tinha sido contada de maneira satisfatória e que insistir nela poderia perigar em perder a dignidade. E daí, quando o Ricardo morreu, fiquei ainda mais seguro disso. Mas foram a exuberância da história da Vânia e a força da vida dela que me fizeram voltar atrás.

O livro tem um caderno de fotos, mas poucas são do Ricardo. Por quê? 
É uma questão gráfica mais do que editorial. Havia poucas fotos do Ricardo, e a maioria delas na internet, em resolução muito baixa, o que não permite que fossem impressas em papel. Já a Vânia, que é uma arquivista da própria vida, tinha caixas e mais caixas de fotos, negativos e documentos. Daí pudemos aproveitar graficamente mais as imagens dela do que as dele.

Qual o papel da sua mãe no desenvolvimento da história e na reta final da vida de Ricardo? 
Ela foi mais essencial do que eu. Foi por causa dela que ele se abriu e topou dar entrevista, foi ela que descobriu que a família dele era de Araraquara e que criou uma amizade com a Vânia. As duas se falam quase que diariamente. Eu queria que ela assinasse o livro comigo, mas ela se negou, rolou até briga, haha.

E como avalia o seu papel?
Eu estava lá só para ver e ouvir.

Na época da publicação no Buzzfeed, muito se falou sobre o tipo de jornalismo que precisava ser feito e que a sua matéria era um exemplo dessa solução. O que acha disso? Qual a sua visão sobre o jornalismo, como sua reportagem se encaixa no contexto atual do jornalismo brasileiro? E como matéria e livro podem contribuir para o jornalismo?
Para mim, a matéria serviu para mostrar que existe público para um tipo de reportagem que andava meio latente nos últimos anos, mas que tem representantes maravilhosos em plena ativa, como a Eliane Brum e a Daniela Arbex, Um jornalismo que não se pauta pela quentura do acontecimento, mas pela força de algumas histórias que se infiltram em assuntos muito maiores do que parecem à primeira vista. Faço voto de que os veículos invistam mais tempo e atenção nesse tipo de investigação.

Ainda na discussão sobre jornalismo, qual sua avaliação deste momento, em que um governo tenta a todo momento desqualificar o trabalho da imprensa, com eco em parte da sociedade e apoio em redes de robôs e memes que multiplicam fake news?
Acho que é meia-noite para o jornalismo, o momento mais escuro em que já estivemos em bastante tempo. Mas, felizmente, é um ofício em que a gente faz as coisas mais por paixão e por senso de justiça do que por recompensa, seja ela financeira ou de status. Vejo que a mídia brasileira está resistindo bravamente a um governo que despreza a verdade e alimenta ataques personalistas a profissionais que estão só cumprindo a sua função — e com competência. Talvez essa polarização toda reacenda também a chama do apreço pela notícia nas pessoas que não se identificam com a lógica de Idade Média do governo. É o que espero, pelo menos.

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