Cadão Volpato capta a memória de uma geração

Cadão Volpato é figura conhecida para quem morou ou cresceu em São Paulo nos anos 80. Se a TV o levou para mais cantos, quando comandou programas na Cultura, foi à frente de uma banda cultuada por poucos que ele surgiu.

O Fellini era a banda que quase ninguém ouvia — raramente tocava nas rádios rock —, mas que muitos ouviam falar. Frequentava premiações de melhores do ano, como as da revista “Bizz”, e tocava no circuito na época chamado de underground.

Volpato encarnava o duo vocalista e letrista, autor de clássicos como “Rock Europeu”. Seus discos eram líricos, gravados sem grandes recursos. Incorporava o tom do pós-punk com alguma brasilidade. Os instrumentos eram econômicos, o que ajudava a destacar o texto — até porque Volpato não é um grande cantor.

Parte da história do Fellini aparece em À Sombra dos Viadutos em Flor (Sesi-SP), relato memorialístico que capta o momento anterior à criação da banda para traçar um roteiro afetivo por lugares e pessoas.

A história se passa quase toda em um apartamento na avenida 9 de Julho, via que liga a zona oeste ao centro de São Paulo, passando por lugares como avenida Paulista e Bexiga. Lá, Volpato vai morar com Alex Antunes e Minho K (apelido de Celso Pucci), outras duas figuras importantes da música independente e da imprensa — ambos trabalharam na “Bizz” e tiveram bandas.

Volpato vai desfiando detalhes que talvez não façam sentido para quem não viveu a época. E isso apenas reforça o tom próximo que ele imprime ao livro, uma proximidade que requer memória do leitor também. Perde quem não tem, mas não compromete a leitura.

Afinal, ele se refere a jornalistas, músicos, ruas e bairros daquela São Paulo da primeira metade dos 80. Insere, ainda, aspectos pessoais, como sua carreira profissional e relação amorosa — e é impossível não ter empatia, pois o relato transpira um grau de sinceridade que somente os bons relatos memorialísticos conseguem impor.

Volpato também traça uma cartografia musical, aquilo que era fundamental ouvir na época. Para ele, Stranglers e Joy Division, além de obscuridades como Durutti Column. Também rememora como o rock ganhava espaço, com o surgimento de inúmeras bandas — Renato Russo se hospedou por um tempo no apartamento da 9 de Julho, havia Edgard Scandurra com suas múltiplas atividades, Clemente. E, sim, havia Fellini, a linha que acompanha toda a narrativa, até os shows em dupla já no século 21 — era um quarteto quando nasceu.

Esse relato, um recorte da biografia de Cadão Volpato, descortina uma época que de alguma forma, para o bem ou para o mal, marcou uma geração. Por meio da sua voz, há encontros e desencontros, e um sabor agridoce salta da memória. “À Sombra dos Viadutos em Flor” empresta seu nome de Proust, mas deve sua essência a uma geração.

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