A viagem no tempo de Daniel Clowes transforma “Paciência” numa HQ reflexiva

Viagens no tempo, vingança, resgate de um amor, cores que saltam das páginas. Essas poderiam ser características de qualquer HQ de super-herói que virou filme, dessas bobagens feitas para crianças que, de forma impressionante, arrastam milhões de adultos aos cinemas.

Mas Daniel Clowes transforma esse caldeirão de referências numa HQ adulta, potente e criativa em “Paciência” (Nemo). Guillermo del Toro escreveu que o livro é um “raro exemplo de histórias sobre viagem no tempo que realmente convence”, e o diretor de “A Forma da Água” não poderia ter sido mais preciso.Clowes é o autor de duas HQs primorosas, “Ghost World” (Nemo) e “Wilson” (Quadrinhos na Cia). Neste “Paciência”, ele deixa o intimismo de lado para tratar da obsessão de Jack Barlow, que tenta descobrir quem matou sua mulher, Paciência, dias depois de ter contado que estava grávida.

Acusado inicialmente pela polícia de ter assassinado a mulher, Jack entra numa espiral de depressão, alimentada por subempregos e a raiva por ter perdido o sentido de sua vida. Clowes leva a trama para o futuro, numa passagem rápida, onde encontramos Jack amargurado, sem nunca ter descoberto o que motivou a morte de Paciência nem seu assassino.

Num encontro casual, ele enxerga a possibilidade de voltar ao passado, para tentar descobrir se haveria alguém na vida de Paciência que pudesse ter armado uma vingança. Ele volta aos anos 80, na cidade onde ela morava.

Clowes vai revelando detalhes da vida de Paciência sob o olhar de Jack, que se insere naquele universo, quase que fantasioso — sensação ampliada pelas cores vibrantes. Nessa viagem no tempo, não só a obsessão por vingança e descoberta surge, mas também um olhar carinhoso pela mulher que Jack conheceria anos à frente.

Os personagens se multiplicam para mostrar a vida de abuso e vergonha que Paciência enfrentou, o que aumenta a angústia de Jack. O leitor nem lembra mais dos mecanismos envolvidos em uma viagem do tempo, de tão natural que o recurso é inserido na história, sem malabarismos ou exageros formais.

Pode ter sido um sonho, um delírio de Jack. Pode ter sido real. Em certo momento da HQ, já não importa mais. Não se trata de super-heróis nem de tramas absurdas e infantis, baseadas em fantasias clichês. Pelo contrário. “Paciência” poderia ser uma história de amor, como também uma história em que arrependimentos são tratados com a profundidade exata para saber que nem uma viagem pelo tempo pode ser capaz de eliminá-los.

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