Notas de um Leitor — edição 9

A obra-prima de Charles Burns

Li muitos quadrinhos em 2018. Descobri ótimos autores e obras que me tocaram muito, como “Desconstruindo Una”. E avancei por outros que já estão no meu radar há algum tempo, como Guy Delisle, Daniel Clowes e Chester Brown.

E um dos autores que li pela primeira vez foi Charles Burns. Passei primeiro pela trilogia Sem Volta, editada em volume único pela Quadrinhos na Cia. E depois mergulhei naquela que é considerada sua obra-prima, Black Hole (Darkside).

Edição bacana, de capa dura, bom papel e que reproduz com ótima qualidade os traços em preto e branco de Burns. Até a tradução de Daniel Pellizzari, de quem mantenho reservas após ler um péssimo trabalho em “1280 Almas”, de Jim Thompson, é boa.

Em “Black Hole”, Burns retrata os anos 80 e o final da adolescência, ambientada numa escola inserida nos típicos subúrbios americanos. Emula o que seria um momento em que o comportamento de uma geração iria ser diretamente afetado pela aids — aqui, ele cria um mutação que isola jovens, considerados nocivos.

Delicadamente, ele insere personagens e os dilemas típicos da idade, agravados por um problema que não oferece solução naquele momento. Desse recorte, surgem histórias de amor e afeto, em meio a deformações e preconceitos.

Burns desenha seus personagens de forma muito semelhante, uma confusão que força o leitor a questionar certos momentos. Essa similaridade, tão própria da juventude, em que todos querem parecer iguais, uma necessidade para que possam participar de um grupo, encontra voz nas representações criadas pelo autor.

Os diálogos ajudam o leitor a reencontrar os eixos. Assim como seus personagens acabam por enfrentar o medo com as armas típicas da idade: seus iguais, solidão e uma dose de idealismo.

A potente história de uma favelada

Carolina Maria de Jesus viveu em São Paulo em meados do século passado. Morava na favela que existia no Canindé, uma região da cidade assolada pela miséria e abandono — próxima à degradada avenida do Estado e ao terrível rio Tietê, onde hoje existem a marginal e o estádio da Portuguesa.

Dividia um casebre com seus três filhos e enfrentava diariamente uma luta para conseguir dinheiro e comprar a próxima refeição. Catava papelão e revendia, o que rendia alguns trocados.

Essa história é conhecida desde 1960, quando o livro Quarto de Despejo — Diário de uma Favelada (Ática) foi publicado. Carolina gostava de escrever e guardava cadernos e papéis soltos onde registrava sua rotina.

O jornalista Audálio Dantas, ao produzir uma matéria, descobriu essa história e publicou. Os relatos de Maria de Jesus então foram reunidos em livro e, desde seu lançamento, vem sendo reeditado.

O livro reproduz o que ela escrevia, com os erros ortográficos e gramaticais — o que divide certa parte da academia e da intelligentsia (me pergunto se esse povo é o mesmo que aplaude um engodo como Geovani Martins e sua reprodução da linguagem de uma favela do Rio).

Carolina expõe seu cotidiano de forma brutal, mas sem saber. A repetição do sofrimento conduz ao leitor a um universo desconhecido e mantido a distância. Ela é capaz de tirar poesia e refletir sobre a vida de um jeito profundo, próprio e verdadeiro.

A autora narra como vibra ao conseguir comprar uma carne, sem saber o que vai ter na mesa para o café da manhã, refeição praticamente inexistente na sua vida. Cotidianamente, ela vai registrando como é viver num barraco em dias de chuva forte e frio, como é lidar com os outros moradores, numa sequência que ignora semana, mês e ano. Todos os dias são iguais.

“Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer espécie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas.”

“O senhor Manuel apareceu dizendo que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal.”

Carolina Maria de Jesus morreu em 1977. Seu livro foi traduzido para 13 línguas e vendeu mais de 1 milhão de exemplares. No ano passado, sua vida ganhou uma biografia em quadrinhos, “Carolina” (Veneta), de João Pinheiro e Sirlene Barbosa.

Leitura em 7 Linhas

Badenheim 1939 é um dos gritos mais dolorosos que cercam o Holocausto. Em pouco mais de 170 páginas, o romance de Aharon Appelfeld assusta porque escancara preconceitos, ignorância e passividade. Em 1939, a pequena cidade austríaca recebe a comunidade judaica para o verão, como sempre. Mas pequenas mudanças na rotina, impostas pela Divisão Sanitária, começam aos poucos a controlar a região. Enquanto isso, as pessoas tentam continuar a vida como se nada estivesse acontecendo, enquanto o horror do que viria a acontecer ganha corpo de forma assustadora. A passividade esconde uma brutalidade que se assemelha à atualidade.

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A Editora 34 faz um trabalho primoroso com Coleção Leste, dedicada a traduzir livros de autores fundamentais da literatura russa. O Diário de um Homem Supérfluo, texto essencial de Ivan Turguêniev, ganhou tradução de Samuel Junqueira, que também assina o posfácio. Tchulkatúrin decide escrever um diário quando uma doença incurável já se torna uma ameaça próxima. Ao começar a recordar seu passado, depara-se com um amor que desperta a sensação de inutilidade, conceito que caracteriza um personagem fundamental da literatura russa, o homem supérfluo. Turguêniev dá voz pela primeira vez a esse tipo.

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O primeiro livro que li de Enrique Vila-Matas foi “Viagem Vertical”, da extinta Cosac Naify. Esse talvez seja seu livro mais acessível, o que só fui descobrir quando comecei a ler os lançamentos seguintes. O autor exige do leitor, que não tem pela frente em sua bibliografia desafios fáceis. Alguns são recompensadores, como “Doutor Pasavento”, mas nem tudo, nesta opinião, sustenta a entrega. Mac e seu Contratempo (Companhia das Letras) faz parte do grupo de boas recompensas. Vila-Matas reflete sobre a escrita ao criar um personagem que se dedica a reescrever o livro de estreia de um autor de sucesso que mora ao seu lado.

Cobiça

O jornalista Johann Hari descreve em Na Fissura (Companhia das Letras) como a repressão às drogas colabora com o tráfico e impede um debate mais claro sobre soluções para esse problema.

Intrusos (Nemo) é uma HQ de contos de Adrian Tomine em que o autor cria histórias como instantâneos de relações familiares, sem se ater a um formato tradicional de narrativa.

Leituras e outras indicações

On-line 1: O podcast da Ilustríssima traz ótima entrevista com o sociólogo Gabriel Feltran, autor de “Irmãos — Uma História do PCC” (Companhia das Letras). Ele discute a política das drogas em SP, a organização criminosa e seus métodos. A entrevista é esclarecedora.

On-line 2: No site da revista Quatro Cinco Um, Régis Bonvicino escreve a respeito de “Um Crime da Solidão: Reflexões sobre o Suicídio” (Companhia das Letras), de Andrew Solomon. Por enquanto, o site ainda está aberto.

Na TV: Depois de uma estreia promissora, True Detective abraçou a ambição e morreu com ela na segunda temporada. A terceira, recém-encerrada, recuperou o fôlego e colocou a série no trilho com um vigor que supera a primeira temporada. A investigação do sumiço de uma garota se passa em três momentos distintos, que se unem para compor personagens e construir a história. Mahershala Ali faz o detetive encarregado da investigação no início, em uma atuação soberba. A série ainda tem uma trilha memorável, com destaque para Cassandra Wilson.

Alta Fidelidade

Percorro a literatura de Virginia Woolf em intervalos longos de uma obra para outra. Sua obra exige uma entrega rara, seja ficção ou não ficção.

Lembrei de seus livros quando me deparei com uma cena do filme “As Horas”. E lembrei dos seus livros mais caros para mim, sem ordem de preferência.

  • Mrs. Dalloway
  • Orlando
  • Ao Farol
  • Um Teto Todo seu
  • Entre os Atos

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