Duas Vidas: HQ de Fabien Toulmé reflete sobre consequências das decisões de dois irmãos

Fabien Toulmé iniciou sua carreira nos quadrinhos com o sensível “Não Era Você Que Eu Esperava”, relato autobiográfico sobre sua relação com a filha recém-nascida portadora de síndrome de Down.

Se na estreia o artista francês imprime um tom intimista mesmo quando precisa escancarar seus medos e preconceitos, neste “Duas Vidas” (Nemo) Toulmé inverte a equação: no momento em que é necessário o olhar para dentro, ele expõe o desnecessário.

A premissa da HQ é boa: dois irmãos com temperamentos diferentes se encontram num momento decisivo da vida deles. Luc é aventureiro, daqueles que aproveitam a vida ao máximo sem se prender a regras. Engajou-se em uma ONG que atende a povos necessitados e quase não vive na França.

Baudouin é o oposto. Formado advogado, por pressão familiar, rejeitou a carreira de músico para cumprir o determinado pelo pai, com quem mantém uma relação seca e fria. Ele trabalha numa grande firma, mas se mantém numa posição sem destaque.

O reencontro com o irmão, de folga por 15 dias, antes de voltar a viajar, vai redefinir a vida de ambos, até porque Baudouin descobre uma doença que pode encurtar sua vida.

Luc entra como o elemento de resgate e leva o irmão para Benin para passar uns dias. Nessa tentativa de reconstruir a vida do irmão, a fim de deixá-lo mais feliz e livre para realizar seus desejos, vamos conhecendo um pouco do passado dos dois, que viveram infâncias diferentes — Luc, o mais velho, alimentava desde cedo o espírito anárquico e protetor, enquanto Baudoiun enfrentava a timidez e a pressão de amigos.

Esses flashbacks são muito bem desenhados e inseridos na trama. O que peca é o exagero em alguns diálogos, fora do tom e inverossímeis até, principalmente as falas do chefe de Baudoiun, mais parecido com um valentão de uma high school americana.

O que sustenta a HQ é a ótima construção de Baudoiun, um sujeito solteirão, sem jeito com as mulheres, já próximo dos 40, que mora em um pequeno apartamento com um gato e pôsteres de ícones do rock dos anos 60/70. Seu maior feito é ter construído uma máquina que conta os dias para a aposentadoria. Submetido a uma relação opressiva com o pai, ele é o homem prestes a explodir, mas que antes acaba por fazer um pacto com o irmão.

O fim provoca uma sensação amarga no leitor, que se sente levemente enganado, ao mesmo tempo em que encontra uma certa esperança nos personagens. Toulmé poderia ter lapidado melhor o roteiro e o desenvolvimento, para entregar uma obra que discutiria com mais profundidade as nossas decisões. Se tivesse feito, entregaria uma HQ primorosa. Do jeito que saiu, é um bom divertimento.

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