“Ninguém Precisa Acreditar em Mim”: a crônica de um fracasso de Juan Pablo Villalobos

O escritor mexicano Juan Pablo Villalobos estreou na literatura com uma novela portentosa, que não só colocou seu nome no radar, mas abriu expectativas imensas sobre seu trabalho. “Festa no Covil” (Companhia das Letras, assim como todos seus títulos lançados no Brasil) dava voz a uma criança, filha de traficante e que herda seus atributos.

Era a abertura de uma trilogia, que se comprovou em alto nível nos livros seguintes: “Se Vivêssemos em um Lugar Normal” e “Te Vendo um Cachorro”. O México saia de suas páginas tão cru como um instantâneo. Villalobos descrevia seu país e suas pessoas, de um jeito realista que era impossível dissociar de um relato jornalístico.

A prosa literária estava presente, mas para dar o suporte por meio de técnicas à imaginação do escritor, apoiado no que o noticiário despejava diariamente. Violência, descrença, desesperança, falta de rumo, o México que emergia de suas páginas era uma espécie de crônica de uma geração perdida — Villalobos recua até os anos 80 para dar um arco amplo à sua trilogia.

Pois, finda a série sobre seu país, Villalobos muda sua bússola e agora pensa numa forma de dar continuidade àquele mexicano desiludido, mas ainda tomado pela descrença no país. Escreveu “Ninguém Precisa Acreditar em Mim”, romance catártico, que amplia seu horizonte, sem esquecer a herança.

No livro, Juan Pablo se prepara para viajar a Barcelona, onde vai passar uma temporada estudando. Pensa em levar a noiva, mas um encontro com seu primo muda seus planos. Ele se vê envolvido com criminosos que o obrigam a viajar, sob certas condições e ameaças.

O romance não entrega explicações facilmente — nem parece ser o objetivo de Villalobos. Há autoficção, humor, mistério e romance. Ele também muda o narrador a cada capítulo — além de Juan Pablo, lemos as cartas de sua mãe e o diário de sua noiva.

O livro foi bem recebido e até recebeu prêmio. Não enxerguei tudo isso. Quando cheguei à sua metade, me perguntava o que eu estava fazendo perdendo tempo com uma leitura que não caminhava para nenhum lugar, não me lançava desafios e se mostrava enfadonha.

Era mais do que uma decepção, afinal, um livro que custa R$ 55, escrito por um autor que lançou um retrato magnífico do México, precisa incluir alguma qualidade. Pode até fracassar no todo, mas, por favor, entregue algo a que o leitor possa se agarrar e justificar sua leitura até o final.

“Ninguém Precisa Acreditar em Mim” não consegue. Juan Pablo Villalobos escreveu o livro que não precisa existir.

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2 comentários em ““Ninguém Precisa Acreditar em Mim”: a crônica de um fracasso de Juan Pablo Villalobos

    1. Oi, Gustavo, gosto muito do Villalobos, mas este último não desceu. Acho a trilogia uma obra necessária para a América Latina e imaginei que “Ninguém precisa acreditar” fosse carregar o mesmo peso. Tem a força, mas a prosa e o ritmo não me convenceram.
      Abraços

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