Notas de Leitura – HQs de Seth, Guy Delisle e Charles Burns

A Vida É Boa Se Você Não Fraquejar

Se a expressão romance gráfico precisa de alguma definição, esta HQ de Seth é o melhor exemplo. Ilustrada por traços simples, mas que carregam bem as expressões, em tons monocromáticos, A Vida É Boa Se Você Não Fraquejar (Mino) tem a potência dos quadrinhos e das novelas. Aqui, acompanhamos Seth, um cartunista que raramente visita sua mãe e seu irmão, mantém um relacionamento afetivo no limite do descaso e descobre em um cartunista dos anos 1950 um objetivo.

Ao vasculhar um sebo, ele se depara com uma coletânea de cartuns e com Kalo, por quem vai desenvolver uma obsessão. Ele divide essa fissura com Chet (o quadrinista Chester Brown), que oferece um contraponto mais racional à obsessão, ainda que a distância.

Seth começa a comprar revistas antigas em busca de mais desenhos de Kalo, que publicou algumas vezes na “The New Yorker” e desapareceu sem deixar rastros.

O autor ilustra essa busca com desenhos que imprimem uma certa melancolia, com imagens de subúrbios tomados pela neve, lugares abandonados incrustados nas cidades e pessoas que relembram o passado com muito mais que nostalgia.

A busca por Kalo revela além do desejo de conhecer o trabalho de um cartunista esquecido. Há traços autobiográficos neste trabalho, mas é a jornada de Seth pelos escaninhos da memória que transformam esta HQ em uma obra fundamental.

Fugir — O Relato de um Refém

Este blog é fã do trabalho de Guy Delisle, autor canadense e criador de “Crônicas de Jerusalém” e “Crônicas Birmanesas“. Casado com uma médica que atua pela ONG Médicos Sem Fronteiras, ele aproveita sua estadia em cidades para onde a família é deslocada para escrever HQs que retratam a vida em lugares geralmente marcados por conflitos.

Em Fugir (Zarabatana), Delisle foge da sua linha de trabalho. Talvez seja sua HQ mais ambiciosa ao relatar o sequestro de Christophe André, que trabalhava pelo MSF no Cáucaso, em julho de 1997.

A HQ se baseia em entrevistas feitas com André e ilustra como era a vida no cativeiro, um quarto vazio, com apenas uma cama, onde o médico ficava acorrentado. Os desenhos são repetitivos a fim de mostrar o drama da prisão e da incomunicabilidade — e essa angústia passa para o leitor.

São páginas e páginas sem ação e diálogos. Lemos as lembranças de André, sua forma de tentar passar o tempo. O médico começa a criar universos como tentativa de manter a sanidade, ao buscar conhecer as pessoas com quem mantinha um mínimo de contato, enquanto alimentava a esperança de um resgate.

Poucas obras conseguem passar a sensação de quem viveu um sequestro como este. Guy Delisle reforça sua posição como um dos grandes artistas contemporâneos.

Sem Volta

Descrita como uma mistura de Hergé, Burroughs e David Lynch, esta HQ de Charles Burns teve lançamento especial no Brasil. A Quadrinhos na Cia. uniu os três volumes em um único, o que faz com que o impacto de Sem Volta seja maior.

A obra descreve como Doug entra em uma viagem alucinante por sua memória, enquanto se convalesce de um trauma. A porta para o passado o leva a mergulhar na relação com seu pai doente e na paixão por Sarah, uma estudante com quem viveu alguns anos.

Esse cenário está ambientado na cena punk dos anos 70, mas Burns inclui delírios, e o protagonista se vê uma jornada composta por homens-lagarto em um território apocalíptico.

As respostas que Doug procura não chegam fácil, mas mesmo assim ele resolve encará-las. Há um tom romântico nessa busca, que Burns conduz com delicadeza — apesar da ambientação um tanto catártica.

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4 comentários em “Notas de Leitura – HQs de Seth, Guy Delisle e Charles Burns

  1. Eu adoro HQ’s e as leio sempre que posso. Porém, os preços que se encontram são praticamente impossíveis fazer desta uma leitura recorrente. Os preços vão de R$ 50,00 pra cima. Uma pena, pois a arte que nelas encontramos, não ficam devendo nada à literatura.

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    1. Concordo. Muitas das HQs que comprei saíram da Amazon, que costuma reduzir o preço depois de um tempo. Você não encontra uma HQ decente por menos de R$ 50, R$ 60. É uma pena. Também gostaria de ler mais HQ, só que não rola

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