Notas de um Leitor — edição 8

A volta indefinida

Há pouco mais de seis meses, encerrei o projeto de fazer uma coluna neste blog. Quinzenalmente, eu publicava uma seleção de comentários sobre livros lidos, uma pequena entrevista com autor ou alguém ligado aos livros, links, coisas que me interessavam além do mundo das palavras e uma lista de obras de autores caros para mim.

Foram sete edições, e nesse período somente as colunas eram publicadas neste blog. Era inviável, naquele momento, preparar um texto sobre determinado livro. Precisava escrever notas, textos curtos sobre livros que passaram por mim. Achei que a coluna seria uma boa opção naquele momento.

O resultado foi que a coluna me tomou muito tempo, mais do que imaginei. E a vida mudou, por isso, naquele julho, decidi encerrar. Retomei os textos de livros, mas a ideia da coluna permaneceu.

Na época, me perguntaram se em algum momento pensei em criar uma newsletter. Afinal, aquela coluna tinha o formato e todo o jeito de uma newsletter. Confesso que sim, mas a criação de newsletter me era impossível. Organizar os emails num disparador me tomaria um tempo impossível.

Mas essa ideia permaneceu viva. Estou no processo de formulação, de encontrar um caminho que facilite essa criação. Não deve demorar. Por enquanto, a coluna volta de forma esparsa, e os textos dos livros permanecem.

É um jeito de tentar aumentar a produção, em um momento em que o Brasil precisa ler, ter contato com opiniões, obras, palavras que provoquem o raciocínio crítico, estimulem o pensar.

Espero contribuir de alguma forma, aqui deste meu pequeno lote, com meu raro leitor. Desta vez, não há periodicidade. Notas de um Leitor sai quando houver conteúdo.

A democracia em xeque

O ano passado foi pródigo em lançamento de livros que debatiam a democracia. O mais famoso dele é Como as Democracias Morrem (Zahar), de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Neste ano, a Companhia das Letras lançou uma coletânea de 22 ensaios, escritos por nomes como Monica de Bolle, Boris Fausto e André Singer. Traz uma pergunta no título: Democracia em Risco?.

A eleição de Bolsonaro, na esteira da vitória de Trump nos Estados Unidos, promoveu o questionamento lá e aqui.

Li Como a Democracia Chega ao Fim, ensaio de David Runciman lançado pela Todavia. O foco está na eleição de Trump nos Estados Unidos, mas o autor avança sobre o Brexit, política na Grécia e passa rapidamente sobre o Brasil.

Ele é contundente em identificar a intolerância como ponto-chave para o risco à democracia, como neste trecho:

“Sua eleição [Trump] é sintomática de um clima político superaquecido que parece cada vez mais instável, fraturado pela desconfiança e pela intolerância entre as partes, alimentado por acusações insensatas e bravatas virtuais, um diálogo de surdos que se afogam mutuamente na balbúrdia”.

Obra fundamental para estes tempos.

Leitura em 7 Linhas

Sacalina é uma ilha que fica ao norte do Japão, distante mais de 9 mil quilômetros de Moscou, dona de uma área equivalente a dois vezes o Rio de Janeiro. Se hoje já é um lugar um tanto inóspito e inalcançável, em 1889, Anton Tchékhov apostou no improvável e tratou de aproximá-lo. Em A Ilha de Sacalina (Todavia), ele faz uma viagem para conhecer e investigar como eram tratadas as pessoas que vivam no local. É um dos relatos mais cruéis já escritos, que vão a fundo na observação e na descrição. Na época estudante de medicina, ele quis documentar a condição de vida dos condenados que viviam na ilha. Saiu com uma obra-prima da não ficção.

♦♦♦♦♦

A editora Grua tem uma coleção de novelas bem bacana, inspirada num projeto da Melville House. Preço em conta para títulos clássicos, como este Benito Cereno, de Herman Melville, que li recentemente. Até há pouco tempo, existia uma edição esgotada da Imago/Lazuli, traduzida por Daniel Piza. Esta da Grua recoloca uma obra chave da bibliografia de Melville, autor de “Moby Dick” e “Bartleby”. O capitão Amasa Delano ajuda uma nau à deriva na costa do Chile e se vê diante de Benito Cereno, o capitão do outro barco, apoiado em seu escravo Babbo. Nada é muito claro na novela, que se desdobra em ritmo de suspense.

O nonsense de Clowes

Gosto muito do trabalho de Daniel Clowes, quadrinista americano que abusa do nonsense para criar histórias que poderiam ser simples, mas que revelam camadas impensáveis. Caso de “Wilson” (Companhia das Letras) e “Ghost World” (Nemo), clássico que virou filme estrelado por Scarlett Johansson.

Na lista das melhores HQs que li em 2018, selecionei “Paciência” (Nemo), obra romântica e um tanto absurda, delicada e ousada.

Como uma Luva de Veludo Moldada em Ferro já tinha sido lançada no Brasil pela Conrad, mas estava fora de catálogo até a excelente Nemo recolocá-la. Aqui, Clowes aprofunda seu interesse por personagens esquisitos e situações absurdas. Clay acredita que viu um snuff film e resolve entender o que aconteceu na tela. Vai se deparar com uma coleção de situações que, como diz a orelha do livro, transforma Twin Peaks em Teletubbies.

Cobiça

Dois livros me interessam, neste começo de ano em que pouca coisa me chamou a atenção.

Um deles é Os Meninos de Nápoles (Companhia das Letras), de Roberto Saviano. O livro conta a história de uma gangue que aterroriza a cidade italiano. Autor de “Gomorra” e “Zero Zero Zero”, Saviano é um jornalista que consegue expor a fundo as histórias que se propõe a investigar.

O outro é Chelsea Girls (Todavia), de Eileen Myles, poeta americana que ficciona sua vida.

Leituras e outras indicações

On-line 1: A revista Quatro Cinco Um finalmente está com site em que reproduz suas resenhas e ensaios. Por enquanto, os textos estão abertos a todos, mas a editora vai fechar somente para assinantes em breve.

On-line 2: O New York Times fez uma seleção de 52 livros para 52 lugares de todo o mundo. Muita coisa nem chegou perto do português, mas é uma lista legal para conhecer novos horizontes. Jorge Amado e sua “Tereza Batista” foram os escolhidos para retratar o Brasil.

Para ouvir: Sunshine Rock, novo álbum de Bob Mould. Sou fã dele desde o memorável Hüsker Dü, banda punk rock que ouvi até gastar nos 80.

Na TV: A segunda temporada de The Deuce superou a primeira. Estamos na Nova York nos 70, numa área dominada pela máfia, cafetões e prostitutas. A história mostra como a cidade foi se transformando, com a abertura das casas de massagens, o crescimento da indústria pornô e a política de limpeza que revitalizou Times Square. Produção da HBO, com James Franco e uma impecável Maggie Gyllenhaal.

Alta Fidelidade

Fui um admirador da obra de Amós Oz, morto no final de 2018. Depois que li “Fima”, em 1994 ou 1995, me tornei um leitor assíduo de seus livros. Sua prosa elegante e bem construída dava voz a temas caros para o século 20.

Não tratava apenas da questão Israel-Palestina, mas inseria a solidão humana e a incapacidade do diálogo como pilares de sustentação de uma época violenta e intolerável.

Sua morte encerra uma bibliografia praticamente irrepreensível, com títulos que precisam ser lidos e relidos. Escrevi duas vezes sobre Oz neste blog, uma sobre “Judas” e outra a respeito de “E A História Começa”. Seus livros rarearam desde a criação deste espaço.

Deixo aqui os meus cinco livros favoritos de Amós Oz.

  • Fima
  • Pantera no Porão
  • De Amor e Trevas
  • A Caixa Preta
  • Conhecer uma Mulher

Um Trecho

Nós, em Jerusalém, andávamos sempre um pouco como num enterro, ou como quem chega atrasado a um concerto: primeiro, põe-se a pontinha do sapato para sentir o chão, com todo o cuidado. Depois, quando todo o pé já está assentado, não há nenhuma urgência em movê-lo – dois mil anos se passaram antes que pudéssemos pisar em Jerusalém de novo, então não vamos abrir mão desse direito assim sem mais nem menos. Se levantarmos o pé, logo vai aparecer alguém para tomar nosso pedacinho de terra, na maior sem-cerimônia. Por outro lado, se você já levantou o pé do chão, não tenha pressa nenhuma em pôr de volta: ninguém sabe que ninho de víboras pode estar fervilhando ali. Tramam. Conspiram. Durante dois mil anos pagamos muito caro, com sangue, pelas nossa imprudência, vezes sem conta caímos em mãos inimigas por termos pisado sem antes examinar muito bem onde pisávamos. Era assim que se caminhava em Jerusalém, em geral. Mas em Tel Aviv era completamente diferente! Uma cidade de gafanhotos. As pessoas, as casas, as ruas, as praças, o vento do mar, as dunas de areia, as avenidas, até mesmo as nuvens no céu, tudo flutuava.

(“De Amor e Trevas”, de Amós Oz)

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4 comentários em “Notas de um Leitor — edição 8

  1. Oi Ricardo!!

    Muito legal poder acompanhar seus comentários sobre livros por aqui. É um oásis de imparcialidade e contundência em meio aos espaços sobre livros e sobre literatura que vejo pela internet. Infelizmente (ou não, ainda não sei) os blogs perderam relevância e agora parece tudo ter migrado pro Youtube e afins. Considerando os pontos positivos dessa popularização da leitura e do acesso aos livros (acho que tem mais gente lendo hoje do que há 15 anos atrás, mesmo sabendo que ainda estamos muito aquém dum percentual aceitável) difundido no Youtube, Instagram, Facebook etc, acho importante que os blogs ainda existam, pois às vezes acho que a discussão fica muito rasa nas redes sociais acima listadas, enquanto que 1500 palavras num texto de blog, jornal impresso ou online ou em outra via podem nos contar sobre bastante coisa (e de forma sucinta), sem perder a concisão das ideias e do que tá sendo proposto.

    Dito isso tudo, continue seu trabalho por aqui, independentemente dos “prazos” para postar novo material. Pelo menos dá tempo de eu ler/ouvir/assistir alguma coisa nesse turbilhão de sugestões que você nos oferece a cada post. hahahaha

    Abraços!

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    1. Oi, Mozart, obrigado pelos comentários. A coluna volta sem compromisso com datas, e no meio delas sempre vai ter um ou outro post sobre algum livro. Espero aumentar o volume de publicações, mas sem promessas. Boas leituras!

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