Notas de Leitura — a França de 68, a criação do FBI e o relato de Didion

Um Ano Depois

Este é um dos primeiros livros lançados pela editora Todavia, obra que despertou meu interesse desde seu anúncio. Trata do relato escrito por Anne Wiazemsky sobre a Paris de 1968, ela que foi testemunha e viu nas ruas toda a efervescência da época. Atriz que já havia filmado com Robert Bresson e Pasolini, tinha 20 anos e namorava Godard. Mais: era neta do escritor François Mauriac.

O livro capta esse momento e traz relatos memorialísticos de como ela enxergava aquela movimentação cultural, que unia negociações de um filme com Bertolucci e as gravações de um documentário dos Rolling Stones dirigido por Godard.

Não espere estudos ou digressões sobre aquele momento determinante para a França, algo que iria influenciar boa parte da juventude. Wiazemsky se propõe a narrar os fatos como crônicas, em que tenta puxar ao máximo sua memória a fim de entregar o seu olhar. É um passeio delicioso por instantâneos, recheado de personagens que fizeram história e moldaram parte da cultura ocidental desde então.

Assassinos da Lua das Flores

David Grann é um jornalista de mão cheia. Minucioso e dono de um texto envolvente, que conduz o leitor como se ele estivesse lendo um thriller, ele também não escolhe temas simples para tratar em seus livros.

Ele costuma investigar histórias já encerradas há muito tempo, para não só tirar o pó como também para buscar novas perspectivas. Caso de “Z, A Cidade Perdida” (Companhia das Letras, como todos os seus livros citados aqui), reportagem sobre a expedição de Percy Fawcett em busca de uma cidade construída na Amazônia. Ou “O Diabo & Sherlock Holmes”, coletânea de matérias com assuntos que variam da rede de túneis que ficam sob Nova York à apuração a respeito do maior especialista no personagem de Conan Doyle.

Neste “Assassinos da Lua das Flores”, Grann trata daquela que foi a primeira investigação de porte do FBI, ainda nos anos 20. Na época, membros da tribo osage estavam sendo mortos de forma misteriosa, após a descoberta de petróleo em suas terras. Muitos estavam ricos, e isso despertou ira e cobiça. O livro refaz os passos da investigação original para reconstruir o que foi uma das maiores vergonhas dos Estados Unidos.

Apesar dos detalhes e das inúmeras fontes citadas, o livro flui de forma vigorosa. O texto de Grann envolve o leitor e o coloca como personagem da investigação, como se dependesse dele para conseguir avançar. Sem revelar e promover reviravoltas, o jornalista constrói uma espécie de parceria.

Blue Nights

Na primeira edição da efêmera coluna Notas de um Leitor, escrevi que um documentário sobre Joan Didion me levou a pensar na escritora, de quem havia lido apenas um livro: “O Ano do Pensamento Mágico”, o triste relato da perda de seu marido e sua filha em um intervalo de poucas semanas.

A vontade era de ler “Slouching Toward Bethlehem”, sua coleção de ensaios inédita no Brasil. Aliás, é incompreensível como sua obra é esquecida em português, ela que fez parte de um momento especial do jornalismo americano, nas décadas de 60/70.

Só havia um segundo livro lançado por aqui, “Blue Nights”, espécie de continuação de “O Ano” — ambos lançados pela Nova Fronteira anos atrás e fora de catálogo. Então, a Harper Collins relançou os dois livros, em capas horrorosas, que mais lembram romances açucarados ou obras de autoajuda fajutas.

Esqueça as capas, pois “O Ano” é um texto que une técnica, precisão e coragem, algo que se repete em “Blue Nights”, ainda que com menos força e uma tendência a se repetir. Não são, evidentemente, as obras essenciais de Didion, mas trazem uma autora com uma prosa rara de se encontrar.

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