Leila Guerriero prova que há vida no jornalismo em “Uma História Simples”

As boas histórias estão espalhadas por aí. Nem sempre conseguimos enxergá-las, tomados que somos por trivialidades e esforços desperdiçados em redes sociais. Nesse pacote, jornalistas também não encontram mais tempo para fazer o filtro necessário e encontrar essas boas histórias — na verdade, há uma geração, com raríssimas exceções, que não tem mais os olhos para tal tarefa nem talento para escrever uma possível boa história.

Não precisa ser uma boa história que explode de obviedade, mas que precisa ser contada, como o que Gay Talese fez em The Voyeur.

O talento surge quando uma jornalista enxerga num torneio de dança realizado no interior da Argentina a história a ser contada, com elementos que unem “Moby Dick”, “O Velho e o Mar” e “Odisseia”.

Leila Guerriero entrega em “Uma História Simples” (Bertrand Brasil) essa boa história, contada com pintadas de romance e apuração jornalística, técnicas que fazem desse relato um texto a ser lido.

A jornalista argentina retrata no livro o tradicional Festival Nacional de Malambo de Laborde, um vilarejo de 6.000 pessoas.

É um evento que mexe profundamente com o local e seus participantes, que bebem na tradição gaúcha.

Guerriero viaja para assistir de perto a edição anual, sem expectativas, até que se depara com a história de Rodolfo Gonzáles Alcântara. Ele é o personagem e a espinha dorsal da sua longa reportagem.

Ser campeão do festival significa também encerrar a carreira de dançarino. Para os gaúchos, o torneio é o auge, e nada mais importa depois de conquistá-lo. Dançar novamente é considerado uma heresia, portanto, a dança que consagra também mata.

Por trás dessa epopeia, desse desejo que se encerra em si mesmo, há o sacrifício. As roupas incomodam, os sapatos são menores do que o tamanho dos pés, a fim de permitir passos mais elegantes. Há frustração, como a de Rodolfo, que compete por anos, encara a frustração do segundo lugar até a conquista maior.

Guerriero investiga seu personagem e tenta entender o motivo pelo que ele deseja tanto o torneio. Em suas 98 páginas, ela não só descreve como faz um estudo profundo de um homem obcecado por uma vitória que vai pôr um fim na sua carreira e obrigá-lo a lidar com uma vida sem outra conquistas. Sem contar que a vitória só é reconhecida num círculo muito pequeno — o torneio não encontra repercussão longe dali.

A jornalista faz o que poucos conseguem. Sem exageros, sem descrições desnecessárias e prolixas, ela escreve de forma enxuta, mas cuja prosa traz uma carga imensa de informação. Havia muito tempo que não lia algo assim, nem mesmo os perfis e reportagens da piauí conseguem mais reunir essa força.

A lamentar o fato de que esse é o único livro de Guerriero lançado em português. “Los Suicidas Del Fin Del Mundo”, investigação sobre uma onda suicídios que aterrorizou uma pequena cidade, e “Plano Americano”, reunião de perfis, precisam encontrar espaço nas editoras brasileiras. Urgentemente.

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