A crise das livrarias me levou a comprar “Oito do Sete”, livro premiado de Cristina Judar

Livraria Cultura e Saraiva estão em recuperação judicial, e esse cenário fez com que todos livreiros, editores, escritores e leitores acordassem para o problema. Ainda vou escrever a respeito disso, por isso, neste post, só quero indicar alguns caminhos.

Em algum momento, a Cultura era uma livraria decente, possível de apreciar livros confortavelmente e acompanhada de conversas proveitosas com os vendedores. Logo, transformou-se num armazém de trecos e best sellers, enquanto o site ficava cada vez mais complicado de navegar. Além disso, alguém consegue escolher algum livro na loja da avenida Paulista, a nave-mãe?

Nunca fui fã da Saraiva, livraria que só ocupei em situações únicas — no interior, ela é a opção que resta em muitos casos.

Se a Amazon resolve a vida de quem está distante de boas livrarias físicas, quando você está em uma cidade com lojas de perfis distantes daquelas megas, a situação é outra. Claro que recorrer à Amazon para comprar um livro de R$ 89 por R$ 49 é tentador e praticamente irresistível, mas igualmente tentador e irresistível é entrar em uma livraria, conversar com um livreiro, escolher alguns títulos, sentar confortavelmente e passar um tempo folheando e conversando, até chegar a uma escolha.

Belo Horizonte permite isso. E foi em uma dessas livrarias, a Quixote, que entrei em uma tarde de sol de horário de verão para olhar apenas. Se na bagunça de uma Cultura e Saraiva é impossível se deparar com achados, numa pequena a situação é outra, pois o olhar permite critérios e atenção ao que está acontecendo.

A vez de Oito do Sete

Pois foi na bancada da Quixote que encontrei “Oito do Sete”, livro de Cristina Judar que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante acima de 40 anos. Já tinha ensaiado comprar no site da Reformatório, mas adiei até pegá-lo na livraria.

Foi um ato representativo: um livro de editora pequena, escrito por uma autora estreante, ligada ao tema LGBT, comprado em uma livraria de rua. O livro já havia me chamado a atenção meses atrás, mas, confesso, foi preciso ter vencido um prêmio para me decidir.

Não compro livros por terem vencido prêmios, mas me impressionei com os textos que li logo após o lançamento deste, em 2017, impressão reforçada com o noticiário pós-prêmio. Talvez tenha demorado demais para ter lido, e o que importa agora?

Quatro vozes compõem a estrutura narrativa: duas mulheres, um anjo e uma cidade. Duas mulheres, Glória e Magda, lésbicas, entram em uma relação com dois homens, Rick e Jonas.

Desses encontros, sai uma estrutura que foge do padrão narrativo clássico, ordenado e com fluxo. Cristina encontra espaço para observar não só as relações afetivas, mas as urbanas — e não só Roma, a cidade escolhida com uma das vozes, mas outras também, principalmente, São Paulo, que, se não aparece tão bem ambientada, está infectada nas personagens e atitudes.

A autora não se preocupa em ordenar fatos, em contar uma história como estamos acostumados. Tampouco se prende ao exercício e à técnica simplesmente, como se fosse a única opção da trama. Cristina Judar, sim, desafia o leitor, que, se não tem uma obra convencional em suas mãos, encontra um livro que o faz caminhar por estar diante de um jogo narrativo muito bem estruturado e criativo.

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