Autores, Brasil, Entrevista, Ficção

#HoradeClarice: uma entrevista para marcar o dia dedicado a Clarice Lispector

Em dezembro de 2007, entrevistei Benjamin Moser, que estava lançando no Brasil a biografia “Clarice,”, na época, pela Cosac Naify. O livro recebeu tratamento de luxo, com capa dura, e foi considerado um dos melhores trabalhos sobre Clarice Lispector — com o fim da editora, a obra encontrou espaço na Companhia das Letras

Neste 10 de dezembro, o IMS celebra o aniversário de nascimento da escritora, com a #HoradeClarice e o site dedicado ao projeto que visa divulgar a sua obra.

Eu recupero a entrevista que fiz com Moser, publicada no jornal O Tempo, de Belo Horizonte.

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Elogiado pelo jornal “The New York Times” e pela revista “The Economist”. Livro do mês na Amazon. Duas reimpressões nos Estados Unidos. Benjamin Moser tinha receio de como a crítica e o público iriam receber a biografia de Clarice Lispector (1920-1977), mas o resultado, de imediato, amainou seus temores.

“Why This World” chega agora ao Brasil com o título “Clarice,”, em edição da Cosac Naify e tradução de José Geraldo Couto. A vírgula do título faz referência a “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, que começa com o sinal de pontuação.

Moser, historiador e crítico literário, foi aprender português quando se deparou com “A Hora da Estrela” na universidade. Mergulhou no universo de Clarice até se resolver a preparar a biografia. Foram cinco anos de pesquisa, inúmeras viagens ao Brasil da escritora — do Recife ao Leme, no Rio de Janeiro — e desembarques por todo o mundo, da Ucrânia natal às cidades onde Clarice viveu acompanhando o marido diplomata.

O biógrafo é detalhista. Das 648 páginas, a bibliografia ocupa 11 e as notas explicativas se estendem por quase 60. O envolvimento é perceptível durante o avanço da narrativa, que reflete não só a dedicação como também a paixão pela obra de Clarice e por sua personalidade. “Fiquei sabendo tanta coisa (de Clarice), minha admiração ficou mais intensa. Não havia risco de não gostar”, diz o norte-americano, fluente em seis línguas, português entre elas.

Moser conversou com “O Tempo” num sábado, na piscina de seu hotel em Higienópolis (zona oeste de São Paulo). Era o final da primeira semana da turnê brasileira de lançamento do livro, que continuaria por mais sete dias, em viagens para o Recife e Rio de Janeiro. Confira a seguir a entrevista.

Após cinco anos de pesquisa, qual a sensação de publicar o livro? Já houve referência a um parto…
No parto, você não sabe como vai ficar a criança. Existe sempre a dúvida. Não sabe se ela vai ser saudável, inteligente, vai ter namorada, se vai ter dinheiro. O livro já nasce adulto. Nos Estados Unidos e na Europa, as resenhas foram muito boas. Não tenho mais essa angústia. Na primeira vez, você não sabe como as pessoas vão reagir. Eu não sabia como as pessoas iriam reagir no Brasil porque eu não sou daqui. Existia aquela tensão: “Será que as pessoas vão achar que eu estou mexendo com uma coisa delas?”. Mas ninguém reagiu mal até agora, está tudo bem. Fiz essa biografia para fora. Aqui, a Clarice não precisa de mim. Lá fora, ela precisa de alguém que faça a divulgação. Mas ainda bem que as pessoas estão gostando.

Você esperava essa reação do público, esse interesse do Brasil por esta biografia?
Não sei. Esperava um interesse pela Clarice porque é uma coisa inesgotável. Cada vez que eu entro em uma livraria fico espantado com a quantidade de coisas publicadas sobre ela. Parece que não vai parar mais. Há um fascínio por ela, um tipo de amor que as pessoas têm.

Qual é sua relação com a obra de Clarice agora?
O desafio é manter a distância. Já parei de ler a Clarice, li tudo durante anos, mas falar dela é outra coisa. Essa intimidade que agora tenho com ela é uma experiência tão forte… As pessoas me perguntam se eu vou fazer outra biografia e eu acho que não, porque a Clarice é tão forte que eu não sei se o próximo biografado vai ser tão interessante. Uma biografia dá um trabalho enorme, uma pesquisa intensa, uma intimidade muito grande.

Como você vê a Clarice antes e depois do seu trabalho?
A Clarice tem uma coisa muito interessante: você começa não sabendo muita coisa sobre ela. Em um primeiro instante, você pode gostar de uma pessoa, mas depois vai descobrindo mais coisas e pode gostar menos. Com ela não foi assim. Fiquei sabendo tanta coisa, mas o que mudou para mim foi que a minha admiração ficou mais intensa. Não havia risco de não gostar. Clarice foi um prazer, mas com um lado espantoso. Um lado daquela batalha, aquela coisa forte que ela tem. Tem dia que você quer ficar mais sossegado, mas da Clarice não dava para ter uma vida cotidiana normal. Durante o processo, você não pode fazer muitas outras coisas, é difícil desligar. Tudo o que eu fazia era com ela na cabeça. É muito gostoso.

Foto: Acervo IMS

Você percebeu um interesse por ela durante as entrevistas em sua pesquisa?
Eu senti o apelo da Clarice, ainda. Ela chama a gente a uma vida mais séria, a uma vida mais profunda, mais clínica no sentido moral e espiritual. Há um desafio moral que ela lança para as pessoas. É uma pureza que ela tem, que reflete na obra. Para os escritores, é muito inspirador, porque dá uma idéia do que pode ser a nossa profissão, o que deveria ser em seus momentos melhores.

Você mergulhou de uma forma intensa na vida dela, percorreu seus passos pelo Brasil e mundo. Como foi essa experiência?
Foi fascinante. Eu já conhecia o Brasil, mas é um país muito grande. Você pode conhecer alguma coisa, mas nunca tudo. Então é bom pegar um assunto grande como ela na cultura brasileira para ficar conhecendo mais o país. Porque não é só ela que você fica conhecendo, mas também a literatura brasileira daquela época, a história dos judeus no país, como o imigrante viveu, como o Itamaraty funcionava. Foi uma aventura.

Ela, ao mesmo tempo em que se expõe, como se estivesse fazendo uma cirurgia nela mesma, também tem um olhar cosmopolita…
É por isso que o assunto é muito fascinante. Porque, de um lado, ela fazia tantas viagens ao exterior, mas a mais interessante é a viagem ao interior dela mesma que ela fez. Em geral, na nossa vida, nós não temos coragem de fazer essa viagem tão profunda como ela fez.

Na exposição dedicada a ela, em 2007, no Museu da Língua Portuguesa, havia uma instalação com algumas gavetas abertas e outras fechadas. Clarice permite essa analogia, de ter a vida em uma gaveta e somente algumas abertas?
O mais interessante naquela exposição foi justamente a vontade de as pessoas abrirem as gavetas e não conseguirem. É um símbolo perfeito. Tem certas gavetas que se abrem, principalmente como em uma pesquisa como esta que eu fiz. Consegui abrir muitas, porque a Clarice tinha uma vida pessoal muito vinculada à obra dela. Eu fui abrindo e fechando essas gavetas e descobrindo cada vez mais coisas. Não se chega ao fim de Clarice. O livro tem quase 700 páginas, mas poderia ter colocado mais 600 páginas com outras citações dela. É inesgotável e é muito gostoso não se chegar ao fim.

No título, você utiliza o recurso da vírgula, que aparece na abertura de “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”. O original é “Why This World” (por que este mundo). Por que a opção por um título diferente e não a tradução literal?
Porque “Why This World” em inglês é lindo, mas “Por Que Este Mundo” não tem esse mesmo som de três sílabas. É um som diferente. Achei mais elegante. O livro não é Clarice e ponto final, é uma coisa aberta. Nunca pretendi falar a última coisa sobre Clarice. Ninguém vai falar. A minha bibliografia é enorme e é uma parte pequena parte do que existe sobre ela. Ainda bem, porque é um assunto inesgotável.

Em algum momento você teve a sensação de frustração de não poder entrevistar a Clarice?
É interessante, porque estive em uma feira de livros em Miami com o biógrafo do Gabriel García Márquez. Ele pode conversar a respeito de fatos da vida dele com o próprio Gabo, mesmo por e-mail pode tirar as dúvidas. Eu não tive esse acesso. O García Márquez ajudou muito, mas também não gostou de tudo. O ideal é que o biógrafo possa manter a liberdade. Eu pude manter a minha. A família da Clarice ajudou, não tive problemas nesse sentido. Às vezes, senti vontade de falar com ela, em outras vezes, não.

Você gostaria que ela pudesse ter lido o livro?
Não sei se ela gostaria de ler tudo, porque tem muita intimidade. Mas eu gostaria, para poder ter um diálogo com ela. Teria amado ter conhecido a Clarice. Nem todo mundo gostava dela, nem todo mundo queria ter intimidade com ela, porque ela era uma pessoa forte, impressionante, que ficou mais difícil, sobretudo mais no fim da vida. Mas ninguém a esqueceu. Era uma figura fisicamente e energeticamente impressionante. Fiz essa coisa com grande seriedade e muito respeito e amor por ela. Acho que ela teria sentido isso.

Em “Água Viva” ela escreve para Deus: “Vou ficar muito alegre, viu?”. Ela chegou a encontrar essa felicidade?
A Olga Borelli, que foi a grande amiga íntima dela, que dividiu momentos importantes e dava auxílio à Clarice quando ela já estava fisicamente fraca, falou que ela sente isso em “Água Viva”. Há momentos em que você sente a felicidade dela, a solidão, depois a depressão, a alegria, a busca mística. É um milagre da poesia dela, de colocar tanto sentido e tanta emoção em uma coisa pequena. Por isso que eu acho que essas coisas só chegam mesmo no fim da vida do artista, quando se chega ao âmago.

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