A desilusão que restou no fim da leitura de Victor Heringer

O nome de Victor Heringer já tinha chegado aos meus ouvidos por meio de comentários e resenhas publicadas em várias plataformas. Devo confessar que, apesar de ter lido na maior parte das vezes elogios, não me entusiasmei em conhecer a obra do escritor carioca.

Em março, seu nome se tornou mais forte, infelizmente, por conta da sua morte. O meio literário (jornalistas, autores, leitores) lamentou em textos reflexivos, que continham uma certa esperança no talento do escritor, interrompido aos 29 anos.

A Companhia das Letras reimprimiu seus livros, e eu pensei em dar a chance que anos antes ele não teve comigo. Esperei, pois a vida às vezes pede para colocar algo em pausa.

Nesse meio tempo, amigos falaram muito bem a respeito de “O Amor dos Homens Avulsos”, e fiquei com esse livro no radar. Até que em uma tarde chuvosa, de folga, entrei em uma livraria de rua e passei um tempo com alguns livros na mesa para escolher. Entre eles, o de Heringer.

Era o momento de caminhar pela obra do autor. Na própria livraria, avancei rapidamente pelas 20 primeiras páginas — logo imaginei que seria uma leitura compulsiva e que suas 155 páginas seriam percorridas em no máximo mais dois dias. Em casa, deixei ele de lado por uma noite, para que eu pudesse dar fim a “Assassinos da Lua das Flores”, de David Grann.

Ao retomar a leitura, à medida que fui mergulhando na vida do menino manco que convive com Cosme, garoto acolhido pelo pai carregado de mistério por sua ligação com o regime militar, percebi que o ritmo já não carregava o mesmo entusiasmo. Heringer estabelece muito bem suas bases — a memória da infância, relações afetivas entre familiares e um círculo próximo, certa melancolia na condução dos personagens, sexualidade — e é capaz de criar uma ambientação que gera reconhecimento, mesmo para quem nunca passou perto do Queím, o bairro suburbano do Rio de Janeiro.

Ele consegue imprimir marcas que tornam o seu bairro universal, assim como as ideias, atitudes e fatos cotidianos dos anos 70. É um mérito que raros escritores possuem.

Por algum motivo, a leitura travou. Avancei com certo pesar, empenhado em gostar de um livro elogiado por gente cuja opinião dedico um pouco mais de carinho e atenção.

E ao final me senti derrotado, pois não alcancei os patamares que outros leitores estabeleceram para “O Amor dos Homens Avulsos”. Mantive a empatia e até a certeza de que seria uma leitura prazerosa e recompensadora.

Saí com uma desilusão que carrego mais como uma falha do leitor do que do autor. Se é possível reconhecer um talento, recheado de recursos, técnicas e criatividade, também me foi possível encontrar uma prosa que se revelou cansativa, no momento em que o exercício se tornou responsável pela condução.

Mas, ao contrário de engodos como Geovani Martins, Victor Heringer merece não só uma releitura como um mergulho em outros títulos.

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