Scholastique Mukasonga entrega o relato das noites mais escuras do genocídio de Ruanda

“Baratas é um livro 100% autobiográfico, é algo que eu senti que deveria escrever. Não tinha nenhum projeto, exatamente, mas sabia que precisava colocar ali o que aconteceu em 1994. Depois do genocídio, tive notícias da morte de muita gente de minha família. Então, eu tinha essas mortes, mas não tinha seus corpos. E o romance foi uma maneira de recriar como memória os corpos dos mortos. O livro é, de algum modo, um túmulo de papel em memória de todos esses mortos que não pude sepultar.”

Assim a escritora ruandesa Scholastique Mukasonga definiu seu livro “Baratas” (Nós) em entrevista ao site do Zero Hora.

Essa é uma obra imprescindível para entender o que aconteceu em Ruanda e suas consequências. O país africano viveu um genocídio em 1994, um dos mais violentos e trágicos da história do século 20, quando 800 mil pessoas morreram em cem dias.

A briga entre as etnias hutu e tutsi não só quebrou um país, mas destruiu famílias e gerações. As marcas ainda estão sendo processadas.

“Baratas” era o termo que a maioria hutu usava para designar os tutsis, da qual Mukasonga e sua família faziam parte.

O caso da autora é emblemático e dá a dimensão da tragédia: 37 pessoas da sua família foram assassinadas nos conflitos violentos, marcados por mortes horrorosas, com tons de crueldade extrema. Somente ela e seu irmão escaparam do genocídio, por terem sido enviados para fora do país antes da guerra civil.

O livro é um relato memorialístico do que a autora viveu em sua infância, nos anos 50, até a tragédia de 1994. Ela busca nas lembranças o modo de vida em um país que vivia sob constante tensão, um medo que não se dissipava. Sempre à margem, a minoria conseguia sobreviver, e é dessa memória que o livro tira seu sustento.

Mukasonga retrata a brutalidade que permeava aquela relação limítrofe, com os sacrifícios que eram exigidos das minorias, como neste trecho em que escreve sobre os estupros:

“Vários outros vieram se servir em Nyamata. As meninas cuja beleza as colocava em perigo eram escondidas. Mas muitas vezes os pais não ousavam recusar, de tanto que se sentiam ameaçados. Além disso, entregar uma filha aos perseguidores significava, talvez, salvar a família.”

Ela está escrevendo sobre a década de 1960, ou seja, quase 30 anos antes do massacre ruandês. E essa vida sob pressão é relembrada com força e tenacidade, assim como o relato de sua ida para a França, onde iria estudar e se estabelecer. Em certos momentos, o livro sufoca o leitor diante de uma escrita que não poupa as emoções e de uma autora que reconhece a importância da obra que produzia.

Igualmente comovente é o trecho em que descreve sua volta, uma visita ao cenário do horror em que ela vai remontando as peças de sua vida. Poucos relatos entregam tamanha potência como esse último capítulo, intitulado “2004: na estrada do país dos mortos”.

Guardadas as devidas proporções, a leitura lembra “É Isto um Homem?”, de Primo Levi. O paralelo é possível de ser feito, pois as duas tragédias humanas caminham sob a banalidade do mal, cada uma com sua carga histórica.

Este é um livro essencial para entender o mundo que foi palco de tragédias humanas esquecidas. Ruanda precisa ser lembrada, e “Baratas” é o ponto de sustentação desse horror.

*****

“Havia poucos dias tranquilos em Nyamata. Os militares do acampamento de Gako estavam lá para nos lembrar, constantemente, quem éramos: serpentes, inyenzis, baratas que não tinham nada de humano, que um dia deveriam ser exterminadas. Na espera, o terror era sistematicamente organizado. Sob pretexto de treinamento ou de controle, os soldados patrulhavam o tempo todo pela estrada, entre as casas, nos bananais. Do alto dos caminhões que cruzavam as pistas, apontavam seus fuzis, às vezes atiravam.”

“É somente lá, junto das ossadas, que me sinto em casa. Ao lado dos mortos estou em segurança. Estou no meu lugar junto aos esqueletos. À noite, quando o Memorial fecha suas portas, sinto pena de deixá-los, de voltar para os vivos ou para aqueles que fingem viver. Entre nós, os sobreviventes, nos agarramos uns aos outros no silêncio. Sobre as colinas, à nossa volta toda, nossos assassinos acendem a luz, e nós, nós estamos sozinhos no meio da noite. Você, mesmo que seja tutsi como eu, vive no estrangeiro, não pode nos entender de verdade (e mesmo os que estão em Kigale não compreendem tudo), você não pode sentir o medo que nos invade, que gela nossos ossos. Não existem noites mais escuras ou mais longas do que as de Murambi.”

*****

Dois outros livros são essenciais para entender o que aconteceu em Ruanda. São dois relatos jornalísticos, brutais e ainda urgentes: Uma Temporada de Facões, de Jean Hatzed, e Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, de Philip Gourevitch.

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