A Uruguaia entrega reflexão sobre a forma como conduzimos nossas vidas e expectativas

“A Uruguaia  não chegou a passar uma noite na minha cabeceira: como as melhores coisas da vida, ela foi lida de uma vez só e me deixou insone.”

A citação de Juan Pablo Villalobos na contracapa de “A Uruguaia” me pareceu exagerada na hora em que escolhia um livro. Incrédulo, sempre desconfio de elogios rasgados, mesmo quando vêm de um escritor insuspeito como o mexicano.

Decidi apostar mais por conta das comparações feitas a Pedro Mairal, autor do livro, colocado no pacote de um provável boom latino-americano, em que estão incluídos nomes como Patricio Pron, Selva Almada, Mariana Enriquez e Leila Guerriero.

A tarde chuvosa de sábado convidava à leitura, e o que começou só foi interrompido pelo jantar e finalizado já no início da madrugada. Assim como Villalobos, li “A Uruguaia” (Todavia) de uma vez só.

Mairal é um escritor de mão cheia. Conduz o leitor com precisão, sem indicar caminhos óbvios nem abusar da técnica. Caminha no equilíbrio de uma prosa que surge segura das páginas.

A história se passa em um dia, mas é recheada de memórias, para contar a saga de Lucas, um escritor argentino que já rompeu os 40 anos, vivencia uma crise no casamento e na carreira. Sem dinheiro, devendo para a mulher e o irmão, vislumbra uma chance de se reconstruir ao receber um adiantamento de duas editoras.

O pagamento feito em dólares foi depositado no Uruguai, um método utilizado por argentinos para escapar da cobrança alta de impostos. Lucas acorda um dia para pegar o ferry e cruzar o rio da Prata, resgatar o dinheiro, voltar para casa, quitar suas dúvidas e escrever sem preocupações, a fim de entregar as encomendas. São US$ 15 mil que significam uma espécie de salvação.

Mas Lucas não tem só o dinheiro a resgatar. Ele tem Guerra, uma garota uruguaia que conheceu tempos atrás e que bagunçou seus sentimentos. Casado e com um filho, conduziu essa relação à distância, permeada apenas por e-mails e lembranças, até chegar o dia em que voltaria a Montevidéu. Mais ansioso para reencontrá-la do que para passar no banco, Lucas se despede da mulher e embarca para a capital uruguaia.

O começo, escrito em longos parágrafos, reflete a tensão anterior à viagem, em que Lucas promove um passeio pelo momento da Argentina, sua relação com Cata, sua mulher, e seu trabalho como escritor. As perspectivas só ganham alguma esperança quando ele coloca os US$ 15 mil na equação. Mesmo o seu casamento depende desse dinheiro, ainda que Guerra esteja incorporada a esse cenário.

A partir da chegada a Montevidéu, o livro corre solto, fluente, bem construído, com engrenagens que fazem as páginas andarem com vigor. Mairal trabalha bem os longos diálogos de Lucas e Guerra e coloca o leitor como uma terceira pessoa, como se ele estivesse ao lado dos dois.

Lucas é o narrador, mas não fica claro se ele está escrevendo uma carta a Cata ou simplesmente relatando os fatos. Não importa. O leitor se encaixa naturalmente nessa narrativa — e esse é um dos motivos que faz com o livro permaneça na cabeça dias depois de lido. Conhecemos Lucas e Guerra, penetramos naquela relação indecifrável, libertadora e que gera consequências imprevisíveis.

Mairal consegue inserir personagens secundários que ajudam a dar musculatura a Lucas e Guerra e a todos seus dramas. Como os dois religiosos que debatem suas crenças no ferry que leva Lucas a Montevidéu. Ou o tatuador da capital uruguaia, assim como o amigo que recebe o escritor numa passagem crucial do livro, em que sua carreira se choca com os afetos.

Há outro elemento consistente na prosa de Mairal: a ambientação. Ele descreve Buenos Aires e Montevidéu com poucas palavras, apenas pontuando ruas e avenidas, mas que permite ao leitor desenhar suas próprias cidades — se você conhece as cidades, vai se sentir percorrendo suas vias ao lado de Lucas. É memorável o trecho em que Lucas volta da capital uruguaia e precisa atravessar Buenos Aires a pé.

“A Uruguaia” entrega, ao seu final, uma reflexão poderosa sobre a forma como conduzimos nossas vidas e expectativas. A epopeia particular de Lucas se transforma, ao longo das páginas, numa busca por libertação, de questionamento, até chegar o momento da conclusão, quando ele se depara com a realidade e precisa lidar com as consequências que ela impõe.

Dias depois, a vontade que resta é de voltar a percorrer suas páginas, reencontrar Lucas e Guerra e mergulhar naquela tarde que viveram em Montevidéu. E isso é muito mais do que boa parte da literatura contemporâneo consegue oferecer.

*****

“Quem planeja esse negócio?, pensei. Quem me faz ir sentar bem na frente desses dois dementes que dizem coisas que me acertam o fígado? Será que é porque a gente só presta atenção naquilo que nos diz respeito e por isso recorta do infinito caos cotidiano exatamente o que nos toca? Ou coisas estranhas acontecem? Eu teria de perdoar você, Catalina? Isso me libertaria e destravaria? Eu rindo do evangelista e da testemunha de Jeová e de repente os dois me deram uma lição sem querer, sem notar minha presença, me deixaram ali, sério, observando os subúrbios de Montevidéu passar. As casas precárias, um ou outro lixão, pessoas fazendo bicos, carrocinhas de garrafeiros, gente sentada conversando na porta dos casebres, e o morro lá longe.”

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