Marcelo D’Salete: “A desigualdade extrema de hoje tem muito a ver com coisas que não foram superadas do período da escravidão”

Há duas HQs brasileiras que ultrapassam o sentido de entretenimento. “Cumbe” e “Angola Janga”, ambas de Marcelo D’Salete, são obras que introduzem história, sociologia, antropologia, uma interdisciplinaridade necessária para os temas que o autor coloca em suas páginas.

As duas HQs, lançadas pela Veneta, retratam o período colonial brasileiro, sob a ótica dos escravos.

A palavra cumbe significa quilombo, mas pode ser sol, dia, luz na língua congo. O livro é dividido em oito histórias, como se fossem contos, todos interligados por detalhes que reforçam a unicidade do tema: violência, escravidão, esperança, liberdade. São histórias de perseguição e punição aos negros, não sem sacrifícios e resistência.

Por “Cumbe”, D’Salete ganhou o prêmio Will Eisner, o mais importante dos quadrinhos.

Angola janga é pequena Angola na língua banto quimbundo e era usada para se referir a Palmares. Aqui, D’Salete retrata o período anterior à queda de Palmares e à morte de Zumbi.

As duas HQs são em preto e branco, com pontos de vista que mudam a cada quadro, num jogo de aproximação que entorpece o leitor, por meio de um encadeamento vertiginoso. A forma como ilustra paisagens — flora, água, céu — difere da monotonia que se vê em outras HQs. São manchadas, cortadas, como se sangrassem continuamente, como se a sua representação fosse dolorida.

Os dois livros tomaram mais de 11 anos de trabalho de D’Salete, que é professor e mestre em história da arte. Foram trabalhados simultaneamente. O autor conversou com o blog e falou do processo de produção das HQs, racismo e obras que valem a atenção.

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“Cumbe” foi produzido durante o período de pesquisa de “Angola Janga”. O que o motivou a criar essa HQ em meio ao projeto de “Angola”?
O projeto inicial era produzir primeiro o “Angola Janga”. Isso começou em 2006, e no meio do projeto percebi que tinham algumas histórias que seriam interessantes de serem contadas, mas não falavam diretamente de Palmares. Falavam do contexto da escravidão, da vida de escravizados naquele período. Como o projeto estava ficando muito grande, eu resolvi separar e criei algumas histórias novas. E surgiu “Cumbe” em 2014. E em 2017, saiu “Angola Janga”.

Você passou dos temas urbanos ao período da escravidão na dupla Cumbe/Angola Janga. O que o levou a mudar a sua produção?
Eu trabalhava com temas bem urbanos [Encruzilhada e NoiteLuz], acho que nos primeiros livros isso tinha muito a ver com o meu contexto. As influências vinham da música, hip hop, rap. E era uma tentativa de entender o meu entorno, a cidade de São Paulo, e eu tinha um interesse muito grande de desenho de observação, eu adorava desenhar a cidade. E acabei juntando tudo isso num álbum, para falar desse experiência, de jovens na periferia, nesses dois livros, vendo uma cidade grande e os conflitos que se desenvolvem a partir disso. Os temas mais históricos, como os de “Cumbe” e “Angola Janga”, surgiram a partir dessas pesquisas, de 2006 em diante. Fui me aprofundando e achei que havia muita coisa que poderia ser tratada que nem sempre virava HQs. Já resultaram em algumas obras de ficção, de prosa, só que em quadrinhos se via pouca coisa. Então achei que seria algo interessante de se explorar.

Sua pesquisa transpira com vigor nos dois dois livros. Como foi encontrar o tom certo para a criação de diálogos?
A pesquisa foi muito necessária para encontrar as narrativas certas e o modo de narrar. As pesquisas me levaram para casos bem específicos de escravizados, principalmente no caso de “Cumbe”. Eu sempre quis trabalhar principalmente com imagens. Acho que o texto é importante, mas eu queria que a imagem fosse o principal para contar essas histórias. Acabei reduzindo o texto, colocando o essencial. E acho importante que os diálogos sejam muito funcionais, entre os personagens, que eles revelem coisas dos personagens, mas que também não sejam excessivos a ponto de interromper um ritmo, uma dinâmica das imagens.

Foi difícil fazer a pesquisa? O Brasil preserva a sua memória, principalmente em relação ao período da escravidão e mercado de negros?
A pesquisa foi realizada a partir de historiadores e outras pessoas que já tinham pesquisado esses temas. Inicialmente, foi algo difícil para chegar aos livros que eu queria abordar, usar como referência, na área de história social, principalmente, mas aos poucos um livro ia levando a outros. Existem estudos sobre esse período no Brasil, mas muitas vezes são restritos a uma área da academia, da história. Acho que a gente precisa conhecer um pouco mais dessas histórias, desse universo do Brasil colonial. E os quadrinhos podem ser uma porta interessante para conhecer esses trabalhos, não porque quadrinhos sejam um modo mais fácil de entender, não, mas porque é uma outra via, utilizando de outras estratégias para você falar dessas histórias

Que ligações você faz entre esses dois livros e a atualidade?
Nosso país tem pouco mais de cinco séculos, e em grande parte desse período nós vivemos dentro de um regime colonial e escravagista. A escravidão moldou uma forma de se entender a sociedade brasileira. E mesmo no período da abolição da escravidão, grande parte dos problemas que haviam naquela período persiste ainda hoje. E a desigualdade extrema que a gente carrega hoje tem muito a ver com algumas coisas que não foram superadas do período da escravidão. Acho que é necessário rever e fazer uma leitura mais profunda do que ainda, infelizmente, preservamos daquele período e como seria possível superar isso.

Você é professor. Como tenta tratar o tema racismo com seus alunos? Como criar para eles as relações do período colonial com os atuais? Como eles reagem?
Sou professor, trabalho em sala no curso de artes visuais, faço parte também de um grupo chamado Negritude na Escola, em que discutimos essas questões com os alunos. Muitas vezes, nas aulas de artes visuais, o que eu faço é levar questões um pouco mais contemporâneas, que muitas vezes desembocam em questões sobre história e escravidão. Mas, no caso dos alunos mais jovens, é importante fazer o vínculo com uma produção artística mais recente, com música, literatura, rap. São estratégias interessantes para discutir essas questões com os alunos. E também a biografia de algumas pessoas, do presente e do passado, pode revelar lições importantes para compartilhar e discutir em sala de aula.

Seus livros são muito discutidos no exterior. Fiz uma pesquisa no Google e seu nome e das HQs aparecem no Brasil mais por conta da indicação e premiação do Eisner e em publicações segmentadas. Como mudar esse panorama? E como isso afeta a produção artística, como a sua, por exemplo?
Meus livros foram publicado no exterior. O “Cumbe” teve uma recepção razoável. Para mim, até maior do que imaginava, embora soubesse que o livro tem potencial para isso, porque está discutindo coisas que são do nosso momento atual. Agora, com o Eisner teve uma repercussão maior, mas infelizmente a gente sabe que a maior parte da atenção no Brasil sobre cultura vem a partir de um interesse de fora do país, nos pautando sobre o que devemos atentar aqui dentro. Penso que “Cumbe” e “Angola Janga”, aqui no Brasil, têm tido uma repercussão razoável. Tenho contatos com leitores em eventos ou por email, é uma leitura muito positiva que as pessoas estão fazendo desse tipo de obra, que está tratando de questões e trazendo elementos para repensar o passado de um modo a que muitas vezes o público mais amplo não tem acesso.

Recentemente, uma novela da Globo foi criticada por colocar poucos negros em uma trama que se passa na Bahia. O filme Pantera Negra bateu muitos recordes em todo o mundo desde que foi lançado. Nos EUA, as séries estão colocando cada vez mais negros em papéis principais, sem contar os programas em que todo o elenco é de negros, como o de Spike Lee e Donald Glover. Como vê essa dificuldade em conquistar espaço no Brasil?
Penso que o que estamos vendo hoje, o interesse crescente de pessoas por essas narrativas, por esse tema, é resultado do fato de que, em grande parte da nossa história, foi propagada uma verdadeira invisibilidade sobre essas histórias e narrativas. Quase como se nós não pudéssemos contá-las. Algumas obras têm trazido isso para a discussão. Eu gosto muito de ver algumas produções além dessas de super-heróis, que também são interessantes, mas de outros filmes que trazem esse tema de uma forma forte, inteligente, estratégica como narrativa funcional, questionadora. O filme “Corra!” é excelente, traz uma mistura de gêneros, de humor, ficção, terror, e faz uma discussão profunda sobre identidade, discriminação, que acho que gente não absorveu de todo. Outra produção que valer comentar é a série “Atlanta”, do Donald Glover, é um trabalho interessante e muito sofisticado em termos de experimentação de narrativa, de romper com certas questões que são comerciais. Ele dá um passo à frente na discussão de certos temas, vinculando a questão racial com gênero.

E no Brasil, como você vê esse cenário?
No Brasil, atualmente, a gente também está vendo um crescimento desses temas, que falam sobre história negra. Ainda temos que avançar muito, mas cada vez mais artistas de quadrinhos e de outras áreas estão trazendo isso para a pauta. E cada vez mais isso se torna uma questão de artistas negros, mas também outros artistas que não são negros estão comprometidos a discutir isso. E é importante ter espaço para debate, para tornar de fato esse universo de questões algo interessante para discutir e avançar na formação de um novo público atento e de uma produção artística à altura do nosso momento.

Página de “Angola Janga”
Página de “Cumbe”
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